quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Os Meyerowitz: Família não se escolhe

O amadurecimento de um diretor

Noah Baumbach é, por mais paradoxal que possa parecer, uma verdadeira estrela do cinema 'indie' americano. Na última década e meia, o realizador nova-iorquino se estabeleceu como uma voz que merece ser ouvida, extrapolando o "claustrofóbico" circuito alternativo com títulos como o denso drama familiar A Lula e A Baleia (2005), o charmoso romance Frances Ha (2013) e a adorável comédia Mistress America (2015). Apesar de dialogar com temas tão universais nos seus filmes, entretanto, ele permaneceu preso a um nicho. Ao contrário de outros grandes nomes da sua geração, como os cultuados Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste) e Paul Thomas Anderson (Sangue Negro), Baumbach não conseguiu levar a sua autoralidade para o cinema 'mainstream', ganhando espaço "apenas" entre os mais antenados cinéfilos de plantão. Uma realidade que, felizmente, pode ganhar uma nova perspectiva com o lançamento do seu mais novo projeto, o apaixonante Os Meyerowitz: Família não se Escolhe. Além de ser, de longe, a obra mais imersiva e popular na sua autoral filmografia, a irônica 'dramédia' se revela uma das melhores produções originais da Netflix, o que dá a ele um alcance nunca experimentado ao longo da sua carreira. Como de costume na sua carreira, Baumbach usa a arte como um estopim para um relato genuinamente familiar, expondo as frustrações, os erros do passado e a estreita conexão de uma família nada convencional numa película leve, inteligente e sinceramente engraçada. Um filme recheado de sentimento que, dentre os seus inúmeros predicados, surpreende ao lembrar que Adam Sandler sabe atuar.



Com roteiro assinado pelo próprio diretor, Os Meyerowitz se revela inicialmente uma espécie de Os Excêntricos Tenenbaums com menos excentricidade. Embora a íntima pegada naturalista de Noah Baumbach em nada combine com a "geometria" estilizada (e colorida) de Wes Anderson, o realizador não esconde as referências ao trabalho do seu companheiro de geração. Como se não bastasse a manutenção da lógica familiar proposta no 'hit' cult, um pai irreverente envolvido numa complicada relação com os seus três filhos adultos, Baumbach é criativo ao reciclar também algumas soluções visuais, uma "homenagem" evidenciada, por exemplo, nos exóticos curtas idealizados pela aspirante à diretora vivida pela radiante Grace Van Patten. Dividido em integrados cinco atos, o argumento é cuidadoso ao estabelecer os dilemas dos personagens com naturalidade, permitindo que o público crie um sincero vínculo com cada um deles e compreenda as suas respectivas reações diante de um inesperado reencontro. Na trama, seguimos os passos de Harold (Dustin Hoffman), um escultor decadente e egocêntrico que relutava em cair no esquecimento. Orgulhoso das suas obras, ele se tornou um pai relapso, uma postura que refletiu diretamente na personalidade dos seus três filhos, o pacato Danny (Adam Sandler), a distante Jean (Elizabeth Marvel) e o bem sucedido Matthew (Ben Stiller). Separados pelo tempo, o trio se reencontra quando Harold tem o seu trabalho reconhecido por uma universidade local. O que era para ser uma breve reunião, no entanto, ganha um novo sentido quando os três, talvez pela primeira vez na vida, são obrigados a assumirem as rédeas desta disfuncional família, revelando os conflitos e o impacto dos erros do passado enquanto precisam organizar a exposição do seu pai.


Impecável ao estabelecer a personalidade dos personagens, as suas imperfeições e os seus dilemas mais pessoais, Noah Baumbach é inicialmente sagaz ao tentar entender o relacionamento entre o pai e os seus filhos de maneira individual. Através de diálogos ágeis, irônicos e recheados de sentimento, o nova iorquino cria um 'mise en scene' convidativo, realçando os problemas dos Meyerowitz sob um prisma íntimo e espontâneo. Assim como numa boa reunião familiar, os dilemas tomam a mesa com naturalidade, evidenciando não só as preferências e a frustação de Harold quanto aos seus filhos, como também o impacto da ausência\presença paterna na criação dos agora "crescidos" herdeiros. Com uma imersiva câmera na mão, fluídos movimentos pelo set e cortes propositalmente secos, Baumbach opta por colocar o espectador no centro da trama, valorizando o poder do seu refinado texto ao verbalizar os dilemas familiares expostos pela trama. E isso sem prejudicar o ritmo do longa, já que, apesar do teor verborrágico, em nenhum momento o roteiro soa cansativo e\ou desinteressante. Até porque, o diretor esbanja categoria ao transitar entre o drama e a comédia, indo além da afiada (e nem sempre bem digerida) ironia textual ao investir também num humor físico mais "acessível". Sem querer revelar muito, a sequência em que Danny e Matthew resolvem se "vingar" é impagável, um das cenas mais engraçadas de 2017. Na verdade, consciente do alcance da Netflix, o realizador é esperto ao prezar, mais do que nunca, pela universalidade da história, mostrando para a companhia como fazer rir sem subestimar a inteligência do espectador.


Como de costume na sua filmografia, aliás, Noah Baumbach é igualmente inventivo ao tratar a arte dentro de um contexto mais amplo. Após usar a dança como subtexto em Frances Ha, o cinema em Enquanto somos Jovens e a dramaturgia em Mistress America, o realizador nova iorquino esbanja sagacidade ao abraçar a face mais abstrata do mundo dos escultores, permitindo que o tema pontue a trama com enorme originalidade. Num primeiro momento, a arte surge como um problema, principalmente quando percebemos a decepção de Harold ao perceber que nenhum dos seus filhos deixou aflorar a sua veia criativa. Com o avançar da trama e o brilhante desenvolvimento dos personagens, entretanto, percebemos que eles eram sim grandes "artistas". Para Danny, por exemplo, a sua grande obra de arte era a filha, a promissora Eliza. Ali estava todo seu suor, inspiração e dedicação. Já para Matthew a sua veia artística estava no seu trabalho, na sua bem sucedida empresa. Nas entrelinhas, inclusive, Baumbach investe pesado nos simbolismos ao refletir também sobre o seu status enquanto diretor. Assim como Harold, o nova iorquino seguiu fiel à sua arte, à sua obra, mas, diferente dos seus parceiros de geração, não conseguiu o reconhecimento devido ou merecido. Baumbach, porém, em nenhum momento parece usar a figura do escritor para se lamentar. Na verdade, Harold soa confiante do seu talento do primeiro ao último minuto de projeção, refletindo o estado de espírito do diretor ao aproximar a realidade da ficção. Até porque, tal qual o artesão, o nova iorquino parece convicto da sua arte e segue amadurecendo a cada novo projeto.


É impossível avaliar Os Meyerowitz, porém, e não dispensar um paragrafo para elogiar as performances do improvável elenco. A começar pelo tão questionado Adam Sandler que, após anos numa detestável zona de conforto, volta a fazer jus a sua profissão com um desempenho surpreendente. Embora exiba alguns dos seus reconhecidos maneirismos, o astro de Como Se Fosse a Primeira Vez volta a brilhar como um homem de meia idade apático, inseguro e irritadiço. Assim como em Embriagado de Amor (2002), uma inusitada comédia dirigida por Paul Thomas Anderson, Sandler convence ao extrair a melancolia por trás de uma figura comum, um pai divorciado sem grandes perspectivas após a ida da sua filha para a faculdade. Indo de encontro à abatida aparência do seu Danny, entretanto, quando necessário o ator exibe o melhor do seu humor, tornando o protagonista um elemento naturalmente engraçado. Com uma carreira bem mais regular do que o seu colega de gênero, Ben Stiller volta a exibir o seu apurado faro para o drama na pele de ‘workaholic’ Matthew. Apesar da aparente falta de simpatia do seu personagem, de longa o mais "normal" da trama, o talentoso ator cresce em cena à medida que o humaniza, tornando os seus dilemas compreensíveis aos olhos do público. Tal qual Sandler, aliás, Stiller arranca sinceras risadas ao longo da película, principalmente com as suas divertidas reações diante do comportamento dos irmãos. Apesar da entrega dos seus "filhos", a alma de Os Meyerowitz está no magnífico trabalho do veterano Dustin Hoffman. Do alto dos seus oitenta anos, o legendário ator cria um escultor egocêntrico e afetuoso, um artista convicto do seu talento, orgulhoso da sua obra, mas relutante quanto à criação dos seus filhos. Com um excepcional 'timing cômico', Hoffman desfila o seu carisma ao humanizar a excentricidade do seu Harold, ao torna-lo completamente real, realçando os seus conflitos mais íntimos com emoção e sensibilidade. A química entre os três, aliás, é excepcional, potencializada pela liberdade cênica proposta por Noah Baumbach, diga-se de passagem, um excelente diretor de atores.


Na hora de tirar um dez, porém, o diretor peca por algumas de suas escolhas. Apesar do excelente trabalho da atriz Elizabeth Marvel, soberba como a introspectiva terceira irmã, a deslocada Jean, o realizador derrapa ao não se aprofundar no arco desta curiosa personagem, a transformando numa espécie de coadjuvante de luxo. Em contrapartida, Noah Baumbach peca pelo preciosismo ao tentar aparar todas as arestas da trama envolvendo a trinca Harold, Danny e Matthew, reduzindo o vigor do último ato ao verbalizar também as respostas dos personagens. Todos os dilemas são minuciosamente resolvidos. Uma opção compreensível, principalmente diante do teor universal defendido pelo longa, mas levemente didática, uma breve concessão narrativa que acaba por a realçar as "gordurinhas" do roteiro. Nada que sequer arranhe o resultado final de Os Meyerowitz, uma 'dramédia' refrescante recheada de personagens genuinamente cativantes, diálogos bem humorados e um argumento indiscutivelmente inteligente. No trabalho de maior alcance da sua filmografia, Baumbach reafirma a sua amadurecida assinatura ao tirar do papel uma produção sentimental e descomplicada, um filme capaz de extrair o melhor do cinema 'indie' e do 'mainstream' sem nunca perder a sua autoralidade.


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