quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Passageiros

Potencial desperdiçado

Embora traga dois dos mais carismáticos e requisitados astros da nova geração no elenco, a talentosa Jennifer Lawrence e o popular Chris Pratt, Passageiros peca no momento em que decide tentar criar uma forçada conexão com todos os públicos. Longe de ser um filme ruim, o blockbuster dirigido pelo virtuoso Morten Tyldum, do excelente O Jogo da Imitação (2014), patina ao não encontrar o seu nicho, um gênero para chamar de seu. Por mais que a opção de nos apresentar a uma história original seja digna dos melhores elogios, um fato raro e cada vez mais arriscado dentro deste precavido segmento, o longa até aponta para um caminho promissor, mas subaproveita algumas das suas complexas questões existenciais em prol de uma vazia história de amor. O resultado é uma obra rasa enquanto Sci-Fi, apressada enquanto Romance e genérica enquanto Ação. Um filme que, apesar dos inegáveis méritos estéticos e do flerte com algumas soluções mais inspiradas, desperdiça o seu próprio potencial na ânsia de agradar.



Num primeiro momento, porém, Passageiros instiga ao introduzir o seu vasto e isolado ambiente. Com argumento assinado por John Spaihts (Prometheus, Doutor Estranho), o longa é sucinto e sutilmente didático ao apresentar a delicada situação de Jim Preston (Pratt), um engenheiro humilde que acorda noventa anos antes do previsto durante uma viagem espacial na gigantesca nave Avalon. Alimentando uma série de expectativas quanto a sua nova vida em Homestead II, um planeta distante que iria ser habitado pelos cinco mil integrantes da embarcação, ele entra em desespero ao perceber que foi o único tripulante a despertar do estado de hibernação. Inicialmente intrigado, o solitário viajante decide partir em busca de respostas, explorando o que de melhor a espaçonave tinha para oferecer. Tendo apenas como "companhia" o comunicativo Arthur (Michael Sheen, excelente e pouco aproveitado), um ciborgue barman projetado para atender os passageiros, Jim entra numa espiral de raiva e depressão ao perceber que estava fadado a morrer isolado. Tudo muda, no entanto, quando ele conhece a bela Aurora (Lawrence), uma escritora de Nova Iorque que também estava entre as passageiras. Atordoado pela solidão, Jim decide cruzar uma perigosa linha na tentativa de se aproximar dela, sem calcular as reais consequências por trás deste iminente romance.


Com uma premissa original em mãos, Morten Tyldum é inicialmente habilidoso ao desbravar o inventivo cenário 'hi-tech' da nave Avalon. Sob o solitário ponto de vista de Jim, o realizador mostra requinte ao explorar o minimalista ambiente, ampliando o senso de imersão ao valorizar elementos com a particular interface gráfica dos gadgets, a expansiva iluminação dos cômodos e os imponentes elementos espaciais. Por mais que o CGI soe artificial em alguns momentos, Tyldum é cuidadoso ao equilibrar efeitos visuais e elementos práticos na composição dos particulares cenários, um elemento potencializado pela fotografia 'clean' e refinada do mexicano Rodrigo Prieto (Argo). Melhor ainda, aliás, é a maneira sensível com que o diretor traduz a dolorosa situação do solitário viajante. Com um eficiente ritmo, Tyldum é sagaz ao mostrar a passagem de tempo, a degradação de Jim em meio à raiva, a frustração e ao vazio, um processo sólido e bem desenvolvido que só humaniza este multidimensional personagem. Além disso, após o envolvente primeiro ato, o longa surpreende ao abrir espaço para temas mais espinhosos, expandindo os conflitos do protagonista para um terreno mais tênue e maduro. Sem querer revelar muito, numa solução inspirada, o argumento se arrisca ao flertar com dilemas existenciais mais presentes no universo da ficção científica, acrescentando elementos que poderiam dar um tempero especial a este romance.


É quando surge a magnética Aurora, porém, que os problemas do roteiro começam a ficar evidentes. Mesmo com temas tão instigantes em mãos, Morten Tyldum perde um precioso tempo na construção da relação entre ela e Jim, se prendendo exageradamente a prazerosa rotina do casal dentro da Avalon. Em meio a poucos diálogos mais íntimos, o suficiente apenas para estabelecer a identidade da personagem, o realizador se precipita ao forçar o romance entre eles, uma história de amor que definitivamente não convence. Embora Pratt e Lawrence tenham uma boa química em cena, a impressão que fica é que os dois são mais colegas do que amantes, uma falha que reflete diretamente dentro do genérico último ato. O grande pecado de Passageiros, porém, está na maneira rasa com que o longa se volta para os conflitos na origem desta relação. Na ânsia de oferecer um produto mais palatável aos olhos do público, Tyldum patina ao não explorar o potencial dramático em torno de Jim e Aurora, esvaziando algumas promissoras questões morais em prol de um par de soluções imaturas e uma reviravolta desastrosamente conveniente. Uma falha irreparável, principalmente quando nos deparamos com o esforço do casal de atores para valorizar estes momentos mais densos, vide a descontrolada explosão de fúria de Jennifer Lawrence numa das poucas cenas memoráveis da película. E como se não bastasse a enxurrada de clichês dentro do terço final, o argumento se contenta em entregar um clímax escapista mais voltado para o cinema de sobrevivência, um arremate frustrante e que expõe a falta de assinatura de Tyldum no que diz respeito às sequências de ação. A única exceção, aliás, fica para a cena envolvendo a queda da gravidade na nave, um sopro de criatividade em meio a soluções nitidamente requentadas. 


Impulsionado pelo sucesso de títulos do porte de Gravidade, Interestelar, Ex-Machina e Perdido em Marte, Passageiros é um blockbuster que se arrisca, flerta com temas instigantes, mas que não consegue alcançar um impacto semelhante justamente por não abraçar o gênero em que está inserido. Por mais que os predicados da película sejam evidentes, entre eles a delicada trilha sonora de Thomas Newman, o carismático casal de protagonistas e a expressiva direção de arte 'hi-tech', Morten Tyldum vacila ao tentar equilibrar Sci-Fi, Romance e Ação, abreviando o aspecto mais interessante sua obra ao reduzi-los a uma engessada e previsível história de amor espacial.

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