segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Cinco Filmes... (Ricardo Darín)


Um dos meus atores favoritos, o argentino Ricardo Darín completou nesta segunda-feira (16) sessenta anos de vida. Dono de uma filmografia singular, um dos grandes expoentes do cinema latino-americano permaneceu fiel às suas convicções, se esquivando da grande Hollywood ao investir numa carreira recheada de filmes marcantes. Reconhecido popularmente pelo seu papel no laureado O Segredo dos Seus Olhos (2009), um suspense refinado e instigante que foi consagrado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Darin nos brindou com uma série de outras grandes produções, daquelas que não merecem cair no esquecimento. Desta forma, neste Cinco Filmes... vamos relembrar de alguns dos melhores e menos conhecidos trabalhos do engajado Ricardo Darin.

- Nove Rainhas (2000)


O primeiro grande sucesso comercial de Ricardo Darín, Nove Rainhas é um suspense instigante que se orgulha do seu "grande truque". Dirigido por Fabián Bielinsky, que faleceu no ano de 2006, aos 47 anos, vítima de um infarto agudo, o longa estrelado pela dupla Ricardo Darín e Gastón Pauls narra as desventuras de um picareta em busca do golpe que poderia mudar a sua vida. Com personagens intrigantes, um ritmo envolvente e um argumento inventivo, Nove Rainhas é habilidoso ao construir as nuances dos protagonistas, ao construir o 'mise en scene' em torno da venda de um raro selo e ao arquitetar uma daquelas reviravoltas dignas de efusivos aplausos. Além disso, o roteiro se esquiva dos clichês ao explorar a relação entre mentor e pupilo, o que adiciona um tempero especial a esta excelente película. E como num grande truque de mágica, Nove Rainhas também tem a sua "distração", a bela Leticia Brédice, que surge em cena numa personagem forte e decisiva dentro do excepcional último ato. Leia a nossa opinião completa aqui

- O Filho da Noiva (2001)


Dirigido pelo premiado José Juan Campanella, O Filho da Noiva destaca duas gerações de pais e a relação entre eles. Impulsionada pela humana e positivamente caótica performance de Ricardo Darín, esse emocionante drama narra a história de Rafael, um chefe de família que vem se dedicando muito mais aos negócios do que a jovem filha. Em meio à crise econômica na Argentina e as recorrentes pressões familiares, Rafael sofre um ataque cardíaco. Disposto a dar um novo rumo a sua vida, ele decide vender o restaurante de sua família. Neste meio tempo, no entanto, Rafael não esperava que o seu pai (Héctor Alterio) lhe pedisse ajuda para consagrar a união com a esposa (Norma Aleandro), que padece vítima de Alzheimer. Apesar da premissa girar em torno da "noiva", a relação entre pai e filho\filha é o grande ponto alto da trama, graças a estupenda atuação do entrosado elenco, incluindo os veteranos Héctor Alterio e Norma Aleandro. Com sutileza e emoção, Campanella constrói um drama familiar recheado de sentimento, um filme agridoce capaz de dialogar com temas tão universais sob um prisma íntimo e sincero. 

- Kamchatka (2002)


Intenso e comedido, Ricardo Darín é um dos inúmeros predicados de Kamchatka, um daqueles longas que não podem passar despercebidos. Destacando com extrema sensibilidade o período do regime militar na Argentina, o drama dirigido por Marcelo Pineyro escolhe o ponto de vista infantil ao narrar a história de uma família perseguida por suas convicções politicas. Apostando em uma trama repleta de bem construídas metáforas, o diretor encontra na inocência a forma mais impactante para destacar as mazelas deste complicado período em todo continente sul-americano. Com um roteiro que cresce gradativamente, acompanhando o sofrimento de uma amistosa família de opositores ao regime, o desfecho impactante mostra o quão destrutivo foi a ditadura militar para milhares e milhares de família no nosso continente. E esse, aliás, é o grande mérito de Kamchatka. Apesar da abordagem sob uma perspectiva infantil, o longa demonstra maturidade ao desenvolver o tema, não omitindo do espectador a realidade por trás deste asfixiante período. Leia a nossa opinião completa aqui

- Um Conto Chinês (2011)


Versátil, Ricardo Darín mostrou um afiado 'timing' cômico no excelente Um Conto Chinês. Na pele de um ranzinza e pragmático vendedor, o experiente ator argentino se tornou a alma do longa dirigido e roteirizado por Sebastián Borensztein. Numa comédia que flerta constantemente com o absurdo, Darín interpreta Roberto, o dono de uma loja de ferragens que vê a sua metódica rotina virar de cabeça para baixo quando um chinês (Ignacio Huang) é "abandonado" perto da sua loja. Inicialmente relutante, ele resolve hospedar o assustado asiático na sua casa, sem saber que aquele solitário homem poderia mudar a sua vida de uma vez por todas. Impecável ao explorar as diferenças culturais e as falhas de comunicação entre o argentino e o chinês, o longa arranca sinceras risadas ao compor esta improvável parceria. Entrosados em cena, Darín e Huang seguram o filme sem qualquer dificuldade, dando vida a uma relação de amizade marcada pelas constantes brigas e pela crescente cumplicidade entre os dois. Em suma, Um Conto Chinês é uma comédia original e despretensiosa que se tornou um dos grandes sucessos comerciais da carreira de Ricardo Darín, levando mais de um milhão de pessoas aos cinemas argentinos. 

- Truman (2016)


Conduzido com enorme sutileza pelo diretor espanhol Cesc Gay (O que os Homens Falam), Truman se desvencilha dos melodramas fáceis ao narrar uma comovente história de afeto e amizade. Mesmo flertando com elementos recorrentes dentro do gênero, o longa estrelado pelo astro latino Ricardo Darín (Relatos Selvagens) cativa pela objetividade com que acompanha a jornada de um paciente terminal disposto a encarar a morte de peito aberto. Arrancando risos e lágrimas de maneira honesta, esta intensa comédia dramática mostra rara inspiração ao narrar o reencontro de dois amigos unidos para uma dolorosa e absolutamente sensível despedida. Uma prova que, nas mãos de realizadores talentosos, até uma premissa aparentemente requentada pode ganhar uma roupagem altamente singular. Em mais uma comovente história de amizade, Darín interpreta Julian, um ator sarcástico portador de uma doença terminal. Ciente da sua condição, o pragmático homem decide encontrar um lugar para o seu querido cão Truman, um simpático dog alemão. Ele, porém, é pego de surpresa com a visita do seu velho amigo Tomás (Javier Camara), um homem otimista que decide convencê-lo a retomar o tratamento. Embalado pela excelente química entre Darín e Camara, o longa nos brinda com uma intimista história de amizade, um relação marcada pelos diálogos francos, pelo afiado senso de humor e pela condução naturalista do diretor Cesc Gay. Leia a nossa opinião completa aqui

Merecem Menção

- Elefante Branco (2012)


Estrelado por Ricardo Darin, o drama Elefante Branco é um visceral relato sobre a desigualdade social enraizada em boa parte dos países latino americanos. Embora se passe na periferia de Buenos Aires, na Argentina, o diretor Pablo Trapero esbanja categoria ao universalizar os conflitos narrados no longa, transformando o seu drama numa espécie de grito de socorro em defesa dos menos favorecidos. Apostando em uma narrativa crua, que ressalta com frieza a miséria e a violência presente dentro desta comunidade, a película impressiona pela complexidade dos seus personagens e pela maneira com que apresenta a deterioração deles diante desta realidade completamente desigual. 

- Relatos Selvagens (2014)


Cínico, corrosivo e absolutamente afiado, Relatos Selvagens empolga ao promover uma ousada sátira sobre a vingança. Conduzida com extrema inspiração por Damián Szifron (Tempo de Valentes), responsável não só pela direção, como também pelo roteiro, o longa flutua entre os gêneros ao apresentar um recorte de seis histórias motivadas pelo revanchismo e pela fúria. Apostando num humor-negro refinado, que se mostra impecavelmente presente em todas as passagens, o realizador encontra no temperamento explosivo dos argentinos uma alternativa precisa para reproduzir a inconsequência dos nossos atos perante as injustiças da vida. Isso sem economizar na violência, na originalidade e no vigor de suas fábulas sociais. Darín, aqui, surge no melhor dos cinco contos apresentados, a explosão de fúria de um especialista em dinamites num daqueles dias em que nada parece dar certo. Leia a nossa opinião completa aqui

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