quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Dois Caras Legais

Uma fantástica comédia de erros

Responsável pelo mais ousado lançamento da Marvel Studios, o incompreendido Homem de Ferro 3 (2013), Shane Black coloca a sua sagacidade novamente em evidência no hilário Dois Caras Legais. Sem se levar a sério por um segundo sequer, o roteirista do aclamado Máquina Mortífera (1987) resolve rir do gênero que o consagrou, o popular 'buddy cop movie', ao construir uma comédia de ação incorreta, envolvente e recheada de absurdos. Numa combinação propositalmente inusitada, Black mostra uma improvável coesão narrativa ao trabalhar com ingredientes totalmente contrastantes, misturando elementos do cinema 'noir', uma generosa dose de humor negro e uma pitada de familiaridade ao narrar as desventuras de uma dupla de desastrados detetives envolvidos numa perigosa conspiração. E como se não bastasse isso, em duas fantásticas performances, os astros Ryan Gosling e Russel Crowe resolvem abraçar a zoeira defendida pelo argumento com total desprendimento, esbanjando uma invejável química e um afiado 'timing' cômico ao dar o dinamismo necessário para a construção desta impagável comédia de erros. 


Com vigor e irreverência, o argumento assinado pelo próprio Shane Black, ao lado de Anthony Bagarozzi, é inicialmente impecável ao estabelecer os cômicos e antagônicos protagonistas. De um lado temos o sarcástico Jackson Healy (Crowe), um detetive turrão que ganhava a vida protegendo os seus contratantes das "companhias" indesejadas. Sem um pingo de vaidade, mas com um integro senso de justiça, o brutamonte era conhecido pelo seu temperamento agressivo, principalmente quando se deparava com a corrupção de menores e\ou inocentes. Já do outro lado da trama está o atrapalhado Holland March (Gosling), um investigador particular medroso que escondia na sua bem sucedida aparência alguns dos seus problemas, entre eles o vício em álcool, o baixo intelecto e a delicada situação financeira. Pai da esperta Holly (Angourie Rice), uma pré-adolescente precoce que parecia a voz da razão na família, ele mantinha o seu padrão de vida graças a casos aparentemente sem risco, enrolando as suas clientes com a intenção de faturar cada vez mais. As rotinas de Hearly e March, no entanto, mudam drasticamente quando eles cruzam o caminho de Amelia (Margaret Qualley), uma jovem que desaparece após se envolver com o submundo da indústria pornográfica. Após um início problemático, os dois detetives resolvem aparar as arestas e se unir para solucionar este nebuloso caso, sem saber que estariam se metendo numa grande e perigosa enrascada.


Com personagens tão bem estabelecidos em mãos, Shane Black é igualmente habilidoso ao introduzir o clima de mistério em torno do sumiço de Amelia. Apesar do tom descompromissado da trama, o realizador faz um criativo uso dos elementos do cinema 'noir', entre eles a narrativa em off, a ambiguidade moral e a ênfase do clima conspiratório, permitindo que a hilária investigação se torne naturalmente instigante aos olhos do público. Mesmo sem grandes surpresas e\ou reviravoltas, o roteiro esbanja perspicácia ao acompanhar os atrapalhados passos da dupla de protagonista, arrancando sucessivas risadas à medida que os dois se veem presos a um caso de grandes proporções.  Assim como no seu primeiro trabalho na direção, o ácido Beijos e Tiros (2005), Black se volta para o subgênero 'buddy cop' com extremo bom humor, brincando com as fórmulas e os clichês ao criar uma comédia de erros dinâmica e essencialmente engraçada. Sem querer revelar muito, a maneira propositalmente conveniente com que as pistas cruzam o caminho dos detetives é realmente divertida e realça a bizarra inaptidão da dupla diante desta complexa investigação. Melhor ainda, aliás, são as ágeis e empolgantes cenas de ação. Com criatividade, presença de espírito e um inegável apuro estético, Black é particularmente sagaz ao destacar o absurdo por trás das atitudes dos personagens, principalmente do atrapalhado March, nos brindando com uma série de cenas insanas e um clímax absolutamente impagável. 


Quanto ao humor, aliás, Dois Caras Legais é primoroso do início ao fim. Impulsionado pelos afiados diálogos, que com inteligência e fluidez enfatizam a estupidez e a inocência dos detetives, Shane Black é versátil ao explorar não só as incorretas gags verbais, como também as inusitadas piadas físicas, permitindo que o clima de zoeira dite o tom desta crescente e desastrada parceria. Méritos que, logicamente, precisam ser divididos com a dupla Ryan Gosling e Russel Crowe. Um dos nomes mais talentosos de sua geração, o astro do cultuado Drive (2011) mostra uma magnífica veia cômica ao absorver o misto de burrice, medo e vaidade de Holland March. Sem se levar a sério por um segundo sequer, o ator cativa ao interiorizar tanto os espontâneos trejeitos assustados do protagonista, quanto a sua inabilidade nos momentos mais corpulentos, se tornando parte fundamental do 'mise en scene' criado por Black. Se Gosling encarna com perfeição o rótulo bem humorado da dupla, Crowe mostra uma inexplorada dose ironia ao traduzir o sarcasmo do linha dura Jackson Healy. Com um vozeirão grave e uma aparência agressiva, o australiano cria uma imagem inicialmente segura, 'bad-ass', mas que se desmonta em cena à medida que o seu personagem não se revela tão astuto assim.


Indo de encontro à performance extravagante do seu parceiro de cena, Russel Crowe é mais sutil, debochado, principalmente quando se depara com as idiotices de March. Deste contraste, aliás, nascem algumas das mais engraçadas sequências da trama, potencializadas pelo magnífico entrosamento entre os protagonistas e pela habilidade de Shane Black ao explorar as diferenças entre os dois. Quem rouba a cena, porém, é a magnética Angourie Rice. Extremamente à vontade em cena, a promissora atriz não se intimida ao dividir a tela com dois veteranos e adiciona uma convincente dose de doçura ao longa. Com inocência e um excepcional tempo de comédia, ela traduz a esperteza da sua personagem com rara espontaneidade e se torna uma das grandes surpresas do roteiro. A exótica relação paternal entre March e Holly, por exemplo, rende momentos genuinamente divertidos, a maioria deles envolvendo a precocidade dela diante da imbecilidade dele. Por outro lado, apesar do tom familiar funcionar ao longo da trama, a quase onipresença da jovem dentro do último ato soa exagerada e se revela um dos poucos deslizes de Black ao longo da película.



Contando ainda com o carismático elenco de apoio (Matt Bommer está excelente), com a vibrante fotografia do veterano Philippe Rousselot (Esperança e Glória) e com o incrível trabalho da equipe de direção de arte, impecável ao traduzir o fervor de cores, o visual extravagante e a psicodélica ambientação da década de 1970, Dois Caras Legais é a comédia do ano. Um filme saboroso marcado pelas afinadas atuações, pela agilidade do texto e pelo nítido amadurecimento de Shane Black ao se apropriar do humor politicamente incorreto com uma dose a mais de sagacidade e refinamento. 

2 comentários:

Natalia Souza disse...

Adorei seu blog e resenha! :D Dois Caras Legais superou as minhas expectativas ❤️ O ritmo da historia nos captura a todo o momento. Quero vê-la novamente! Se vocês são amantes dos filmes de detetives, este é um que não devem deixar de ver. :)

thicarvalho disse...

Valeu pele visita e pelos elogios Natalia. Olha, Os Dois Caras Legais é uma das melhores comédias recentes de Hollywood. Baita filme. Engraçadíssimo.

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