quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cinemaniac Indica (Sexo, Rock e Confusão)

Imagine uma inusitada mistura de A Felicidade Não se Compra (1946) com Jovens, Loucos e Rebeldes (1993). Sim, apesar dos exageros em torno da comparação, Sexo, Rock e Confusão (1995) traz em sua essência um pouco do otimismo, da rebeldia e da aura 'feel good' destes dois clássicos do cinema norte-americano. Ingênua e descompromissada, a comédia dirigida por Allan Moyle, do elogiado Um Som Diferente (1990), tece um cativante relato sobre a juventude na década de 1990 ao acompanhar as trapalhadas de um desajustado grupo de funcionários de uma popular loja de discos. No embalo do radiante elenco e da afiada trilha sonora, Moyle construiu uma película cheia de energia, de boas intenções, mas que na época do lançamento foi detonada pela crítica e esnobada pelo público americano. Um fracasso que até me parece explicável, já que o filme carrega consigo uma deslocada ‘vibe’ oitentista, uma pegada incompatível com o que vinha sendo produzido no gênero naquele ano, vide os expoentes As Patricinhas de Beverly Hills e O Diário de um Adolescente. O fato é que o filme envelheceu muito bem e me parece uma ótima pedida para os fãs de uma envolvente comédia musical. 



Com roteiro assinado por Carol Heikkinen, Sexo, Rock e Confusão narra as desventuras do confiante Lucas (Rory Cochrane), o gerente da queria loja de discos Empire Records. Empolgado com a possibilidade de fechar a loja pela primeira vez, ele é pego de surpresa ao se deparar com um documento de venda do estabelecimento em que trabalhava. Acreditando que o seu chefe, o bondoso Joe (Anthony LaPaglia), estivesse passando por apuros financeiros, o bem intencionado Lucas resolve arriscar e decide apostar todo o dinheiro guardado no cofre da loja numa mesa de dados em Las Vegas. Obviamente os seus planos não saem como o esperado, principalmente quando ele descobre que os nove mil dólares seriam utilizados para impedir o não fechamento da Empire Discos. Ciente do seu erro, Lucas resolve encarar as consequências ao lado dos outros funcionários, entre eles o apaixonado A.J (Johnny Whitworth), a depressiva Debra (Robin Tunney), o carismático Mark (Ethan Embry), a iludida Corey (Liv Tyler) e a fogosa Gina (Renée Zellweger), sem saber que este poderia ser o último dia de trabalho para este carismático grupo de amigos.


Fazendo um criativo uso da linguagem de videoclipe, vide os cortes rápidos, a ritmada montagem e a massiva presença da trilha sonora, Allan Moyle mostra uma bem vinda despretensão ao investigar as nuances deste entrosado grupo de jovens. Ainda que sob um viés ágil e superficial, o realizador é habilidoso ao traduzir os dilemas dos seus singulares personagens, nos dando a possibilidade de criar uma sincera conexão com eles. Por trás dos diálogos irreverentes e da aparente irresponsabilidade dos protagonistas, Moyle consegue ir além da comédia de erros e encontra espaço para transitar com propriedade por conflitos inerentes ao seu público alvo. Sob um ponto de vista leve e vibrante, o argumento fala, por exemplo, sobre o amor não correspondido, sobre a crise de identidade, sobre a pressão familiar, sobre as inseguranças quanto ao futuro e até mesmo sobre a depressão na juventude. Melhor ainda, aliás, é a maneira intimista com que o diretor realça o senso de cumplicidade e a particularidade dos personagens. Com uma câmera sempre móvel em mãos, Moyle arranca sinceras risadas ao reproduzir tanto as trapalhadas deste grupo, quanto os momentos mais singelos, transformando a Empire Records no cenário perfeito para um 'mise en scene' envolvente e naturalmente acolhedor.


Curiosamente, apesar das impiedosas críticas, o longa ajudou a popularizar a carreira de alguns talentosos atores. A começar pelo ótimo Rory Cochrane, que recentemente voltou aos holofotes no elogiado Aliança do Crime. Reconhecido por sua atuação no reflexivo Jovens, Loucos e Rebeldes, o ator absorve com categoria a confiança do seu Lucas, um tipo cativante capaz de colocar tudo a perder por suas bisonhas convicções. No mesmo nível do seu parceiro de cena, a então jovem Renée Zellweger rouba a cena com a fogosa Gina, uma figura de aparência estereotipada que rende algumas das mais sinceras e vigorosas sequências do longa. Assim como ela, aliás, a expressiva Robin Tunney transforma a problemática Debra no elemento mais interessante da película. Dirigida com sutileza por Allan Moyle, a atriz traduz os tormentos da sua vendedora com sagacidade e uma pitada de sarcasmo, conseguindo parecer sóbria sem destoar da proposta bem humorada da película. Para muitos, porém, Sexo, Rock e Confusão ficou conhecido por representar um dos primeiros grandes papéis da estonteante Liv Tyler. Na pele da espevitada Corey, a filha do roqueiro Steve Tyler não encontra maiores dificuldades para reproduzir os anseios da sua personagem, uma jovem que sonha em ter a primeira relação sexual com um decadente rockstar. Por fim, no melhor estilo George Bailey, o personagem símbolo de A Felicidade Não se Compra, Anthony LaPaglia cumpre a sua missão ao tornar crível o zelo do seu Joe, um homem compreensivo que mesmo nos momentos de maior irritação consegue enxergar as boas intenções daqueles que o cercam.


Impulsionado pela seleta trilha sonora rock and roll, que transita dos clássicos (AC\DC, Jimmy Hendrix, Dire Straits e Buggles) à hits tipicamente noventistas (Cranberries, Quicksand, Dishwalla e Sponge) com enorme originalidade, Sexo, Rock e Confusão se revela uma comédia despretensiosa recheada de figuras cativantes e momentos adoráveis. Trazendo consigo uma bem vinda aura positiva, o longa nos faz enxergar os dilemas e o espírito livre dos seus personagens numa premissa marcada pela sinceridade e pela cumplicidade. 

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