sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Meu Amigo, O Dragão

Lúdico e sensível, longa reúne a quintessência dos estúdios Disney 

Eclipsado por outros grandes lançamentos do gênero, entre eles o aclamado Mogli: O Menino Lobo, o desprezado O Bom Gigante Amigo e o recente O Lar das Crianças Peculiares, Meu Amigo, O Dragão é uma daquelas "sorrateiras" pequenas grandes aventuras que remetem diretamente à nossa infância. Numa bem-vinda atualização do musical homônimo lançado em 1977, o remake dirigido e roteirizado por David Lowery (Amor Fora da Lei) enche a tela de emoção e virtuosismo estético ao acompanhar a singela parceria entre um jovem órfão e um solitário dragão. Conduzido com elegância e extrema sutileza, o longa absorve a quintessência dos estúdios Disney ao investir numa premissa lúdica e mágica, uma obra honesta guiada por temas como a amizade, a bravura e a importância do núcleo familiar. E isso, pasmem vocês, sem soar piegas ou datado. No melhor estilo E.T: O Extraterrestre (1982) e O Gigante de Ferro (1999), Lowery é preciso ao se concentrar no ponto de vista infantil, encontrando nos promissores Oakes Fegley e Oona Laurence o misto de carisma e empolgação necessários para dar liga a esta fascinante película.



No que diz respeito ao aspecto narrativo, Meu Amigo, O Dragão se revela uma obra simples e sucinta. Apesar da estrutura tradicional e da presença de alguns clichês, o argumento assinado por David Lowery e Toby Halbrooks é cuidadoso ao realçar os sentimentos dos personagens e o vínculo entre eles, permitindo que o público crie uma conexão quase que instantânea com o assustado Pete e o gigantesco Elliot. Um elo que, inegavelmente, é facilitado pela impactante sequência de abertura, uma introdução densa e emotiva que não só aproxima os protagonistas com espantosa agilidade, como também revela o tom da película como um todo. Na trama, após um traumático episódio, o pequeno Pete (Fegley) se vê perdido em uma perigosa floresta. Sozinho, ele é pego de surpresa ao conhecer o majestoso Elliot, um dragão afetuoso e amedrontado que resolve proteger o seu mais novo amigo. Levando uma vida selvagem e aventureira ao lado da simpática criatura, Pete se depara com um passado não muito distante ao conhecer a guarda florestal Grace (Bryce Dallas Howard), uma mulher determinada que lutava contra a ação de uma madeireira local. Intrigado com a presença dela, o garoto se descuida e acaba descoberto pela pequena Natalie (Laurence), a enteada de Grace. Contra a vontade, Pete é levado da floresta e internado num hospital local. Atordoado com o sumiço do amigo, Elliot resolve deixar o seu seguro esconderijo e partir para a cidade, sem saber que a sua desajeitada presença poderia colocar em risco esta improvável parceria. 



Evitando subestimar a inteligência do público, principalmente a dos mais jovens, a nova versão de Meu Amigo, O Dragão é suficientemente madura ao explorar as emoções em torno da trama. Apesar da proposta nostalgicamente aventureira, a refilmagem não se precipita ao arquitetar os conflitos dos protagonistas, mostrando cadência ao passear por temas como a amizade, a solidão e a carência familiar. Dividido em três atos bem definidos, o longa é inicialmente impecável ao construir a sincera relação entre Pete e Elliot. Com fluidez e entusiasmo, David Lowery esbanja doçura ao evidenciar a conexão entre os amigos, resgatando a aura mágica das produções Disney ao investir em sequências encantadoras, vibrantes e visualmente poderosas. Impulsionado pelos diálogos objetivos e pela expressividade dos jovens atores, o realizador é igualmente habilidoso ao conduzir o processo de ressocialização do pequeno órfão. Sempre sob o ponto de vista infantil, o argumento é sutil ao valorizar a importância do núcleo familiar, um assunto que ganha força com a introdução da afetuosa Grace e da inteligente Natalie. Ainda que breve e concisa, a relação entre a guarda florestal e o sobrevivente se aprofunda o bastante nos dilemas afetivos do protagonista, ressaltando o impacto da ausência paterna na rotina do corajoso Pete. Por diversas vezes, inclusive, Lowery abre espaço para cenas levemente intimistas, pequenos momentos embalados pela tocante trilha sonora, pela aconchegante fotografia e pelos elegantes enquadramentos.


Dentro do cenário urbano, no entanto, o grande trunfo do remake reside na fraternal relação entre Pete e Natalie. Bebendo da fonte dos clássicos oitentistas, a amizade entre os dois rende uma série de novas possibilidades à refilmagem, principalmente no processo de readaptação do jovem e no aventureiro último ato. Em compensação, Lowery deixa a desejar no desenvolvimento dos personagens masculinos, incluindo o madeireiro Gavin (Kevin Urban) e o insosso Jack (Wes Bentley). Enquanto o primeiro representa o tipo de ameaça dispensável, um caçador raso que ao menos não soa unidimensional, o segundo simplesmente não tem qualquer função narrativa. Melhor sorte, porém, teve o veterano Robert Redford. Do alto dos seus 80 anos, o ator se torna uma figura decisiva dentro do último ato ao interpretar um homem que envelheceu defendendo a existência de uma fera mágica na floresta. Por falar nele, o visual do dragão é um dos pontos altos da película. Com traços de alguns clássicos personagens, entre eles o bonachão Sully de Monstros S.A (2001) e o bondoso Falkor de História sem Fim (1984), o simpático Elliot ganha uma aparência atual e imponente, uma concepção digital marcada pela expressividade facial, pela textura palpável e pela movimentação desengonçada. Somado a isso, Lowery é inventivo ao explorar as noções de escala e a iluminada fotografia, permitindo que a interação entre Pete e o dragão renda uma série de magnéticas sequências. Incrementada pelo discreto 3-D, a cena em que os dois amigos brincam na água é de uma beleza radiante. Num todo, aliás, o diretor constrói imagens naturalmente fascinantes, momentos singulares recheados de afeto e virtuosismo estético. 


Melhor ainda, aliás, é o desempenho dos protagonistas infantis. Dono de um carisma natural, o jovem Oakes Fegley esbanja expressividade ao dar vida ao indomável Pete. Impecável nas sequências aventureiras, o pequeno ator surpreende nas cenas mais densas, principalmente nos preciosos momentos mais silenciosos, exibindo maturidade ao traduzir o misto de emoções experimentado pelo órfão. No nível do seu parceiro de set, a talentosa Oona Laurence rouba novamente a cena como a confidente Natalie. Estrela do elogiado drama Nocaute (2015), a atriz absorve a sinceridade da sua personagem com enorme sensibilidade, se tornando a referência para Pete dentro do ambiente civilizado. Juntos, Fegley e Laurence mostram uma excelente química em cena, o que só contribuí para a construção desta afetuosa amizade. Além deles, com uma figura mais "quadrada" em mãos, a bela Bryce Dallas Howard não encontra dificuldade para interpretar a maternal Gracie. Mesmo subaproveitada em alguns momentos, a atuante ruiva nos faz crer no seu apreço pela natureza selvagem do jovem sobrevivente e na repentina aproximação entre os dois. 


Mesmo diante de alguns inegáveis deslizes, entre eles a perceptível queda de rimo no segundo ato e a pressa no arremate de algumas situações dentro do clímax, Meu Amigo, O Dragão é uma daquelas nostálgicas refilmagens que não merecem cair no esquecimento. Apesar da proposta narrativa pouco ousada, David Lowery mostra zelo ao defender a essência dos estúdios Disney num entretenimento familiar marcado pelo visual radiante, pelos carismáticos protagonistas mirins e por defender uma revigorante mensagem de amizade que cisma em não envelhecer.

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