quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Descompensada

Apatow em versão unissex

Reconhecido por seus masculinos 'bromances', entre eles O Virgem de 40 Anos, Ligeiramente Grávidos e Tá Rindo do Que?, o diretor Judd Apatow se rende às fórmulas mais universais do gênero no irreverente Descompensada. Não, não espere uma película adocicada no estilo Uma Linda Mulher ou O Diário de Bridget Jones. Liderado pela nova sensação do humor norte-americano, a escrachada Amy Schumer, o longa arranca generosas risadas ao acompanhar as desventuras sentimentais de uma instável e poligâmica jornalista diante de um inesperado romance. Apesar da estrutura narrativa tradicional, Apatow foge do lugar comum ao construir uma comédia romântica unissex, uma obra atual impulsionada pelo entrosado elenco, pelo afiado texto, pelas impagáveis gags e pelas inúmeras aparições especiais. Quando resolve se levar a sério demais, no entanto, Descompensada perde parte da sua essência atrevida, o que não reduz o potencial de entretenimento desta desbocada história de amor.



Com roteiro assinado pela própria Amy Schumer, Descompensada brinca com os arquétipos ao inverter os papéis neste curioso romance. Ainda que não seja propriamente uma novidade no gênero, enquanto a protagonista feminina se torna o elo prático e "mulherengo" da relação, o representante masculino vive o tipo romântico dedicado, culminando assim num casal único e inegavelmente cativante.  Na trama, seguindo os conselhos do seu irresponsável pai (Colin Quinn, hilário), a bem sucedida Amy (Amy Schumer) cresceu acreditando nos relacionamentos breves e vazios. Irônica e boêmia, a jovem vivia um caso "moderno" com o bombado Steven (John Cena, igualmente engraçado) sem se preocupar muito com temas como fidelidade e futuro. Tudo muda, no entanto, quando ela é escalada para entrevistar o afável Aaron (Bill Hader), um médico de sucesso reconhecido por suas cirurgias em grandes estrelas do esporte. Inicialmente incomodada com a pauta, Amy logo se "aproxima" sexualmente do simpático doutor. Para a sua surpresa, no entanto, ela passa a experimentar uma inesperada atração por ele, colocando as suas crenças em cheque ao iniciar uma curiosa relação amorosa. 


Apesar da roupagem mais ácida e atual, Descompensada repete a estrutura narrativa de alguns dos mais "empoeirados" representantes do gênero. A rigor, está tudo aqui. Temos a esperta introdução da protagonista, a inesperada reaproximação entre os pombinhos, a fase de bonança, as inevitáveis crises, a ruptura e a tão aguardada reconciliação. Simples assim. A diferença é que essa é uma comédia romântica dirigida por Judd Apatow e roteirizada por Amy Schumer. Indo além dos clichês adocicados, que marcam presença na trama dentro do convencional ultimo ato, a dupla preenche estas previsíveis fórmulas com um recheio mais apimentado, uma mistura de diálogos afiados, com gags incorretas e espirituosos personagens. A começar pela própria Amy. Sem um pingo de moralismo, o longa nos apresenta a uma mulher moderna e independente que esconde na sua agitada vida sexual uma dose de descompromisso e imaturidade. Na verdade, por trás da aparente confiança da protagonista, existe uma mulher insegura e vulnerável, sentimentos que são desvendados à medida que ela inicia o caso com o compreensivo Aaron. Neste sentido, aliás, é preciso elogiar também o cuidado do roteiro ao explorar os marcantes relacionamentos de Amy. Com diálogos ágeis e improvisados, o argumento não se reduz a história de amor da protagonista, permitindo que a personagem crie uma sólida e divertida conexão com os marcantes personagens de apoio, entre eles o sentimental Steven, o poligâmico pai e a sua madura irmã, figuras que ajudam a moldar a irreverente jornada de amadurecimento de Amy. 


Por falar em irreverência, Descompensada sobra na turma no que diz respeito ao humor. Ainda que algumas das piadas se estendam mais do que o necessário, Apatow e Schumer mostram uma implacável veia cômica, principalmente nos irônicos diálogos e nas inusitadas gags. Sem querer revelar muito, a sequência da discussão no cinema é hilária, assim como o metafórico discurso pró-infidelidade defendido pelo pai na fantástica cena de abertura. Nos momentos em que resolve ser levar a sério, no entanto, o longa perde em ritmo e comicidade. Na transição do segundo para o último ato, inclusive, o realizador se rende exageradamente às fórmulas mais convencionais, entregando um clímax bonitinho, mas morno. Menos mal que, nos momentos mais sentimentais, o talentoso elenco mostra recurso e nos faz crer nas nuances dos seus personagens.


No seu primeiro grande papel em Hollywood, Amy Schumer esbanja carisma e 'timing' cômico ao dar vida a sua errática personagem. Completamente à vontade em cena, a revelação do SNL transita pelas emoções da repórter com absoluta propriedade, criando um tipo vibrante e engraçadíssimo. No mesmo nível da sua parceira de cena, Bill Hader investe numa performance mais contida e sensível, arrancando sinceras risadas com o médico pacato "engolido" pelo furacão Amy. Curiosamente, aliás, Hader tem se dedicado parte da sua carreira cinematográfica à estes personagens mais sutis, vide as suas excelentes atuações nos ótimos Dois Lados do Amor (2013), Irmãos Desastre (2014) e Maggie tem um Plano (2015). Quem rouba a cena, no entanto, é a 'oscarizada' Brie Larson. Antes de brilhar em O Quarto de Jack, a atriz absorve a prudência da irmã mais nova sem precisar soar chata ou mal humorada, criando uma personagem humana e radiante. 


Contando ainda com hilárias participações especiais, entre elas a do astro da NBA Lebron James, impagável ao interpretar uma versão própria mais sovina e articulada, Descompensada é uma comédia romântica desavergonhada e universal. Mesmo dialogando com alguns dos temas mais recorrentes na sua filmografia, incluindo a imaturidade e a aproximação entre opostos, Judd Apatow investe numa abordagem feminina ao acompanhar a jornada de uma descompromissada mulher às avessas com a sua própria rebeldia. 

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