quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Um Senhor Estagiário

Um revigorante encontro de gerações


Como é bom ver Robert De Niro de volta aos grandes trabalhos. Sob a batuta da veterana em comédias açucaradas Nancy Meyers (O Amor Não Tira Férias, Simplesmente Complicado), o astro de Touro Indomável e Taxi Driver entrega facilmente a sua melhor performance desde O Lado Bom da Vida (2012) no adorável O Senhor Estagiário. Dividindo a tela com a magnética Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada), De Niro desfila a sua veia cômica ao protagonizar um revigorante encontro de gerações entre um setentão cheio de vida e uma independente 'workaholic'. Arrancando honestas risadas ao brincar com este choque cultural, Meyers comove ao construir uma relação quase fraternal entre chefe e empregado, dando contornos ainda mais sensíveis a uma premissa naturalmente divertida.


Se distanciando de alguns dos clichês mais recorrentes do gênero, o argumento também assinado por Nancy Meyers é impecável ao desenvolver estes dois tipos tão diferentes. A começar pelo ativo Ben Whittaker (De Niro), um idoso boa praça que procurou se reinventar após a morte de sua esposa. Já aposentado, ele tentou encontrar em viagens, nos filhos e em pequenos passatempos uma forma de ocupar o seu tempo livre. Nada, porém, parecia o bastante para que ele conseguisse preencher o vazio que havia tomado a sua rotina. Enquanto Ben lamentava a falta do que fazer, a atarefada Jules (Hathaway) não conseguia encontrar mais brechas na sua agenda. Criadora de um bem sucedido site de vendas de roupas, a independente mulher viu os seus negócios prosperarem rapidamente, comandando com entusiasmo e dinâmica a sua moderna empresa. Os caminhos de Ben e Jules se cruzam, no entanto, quando a empresa dela resolve abrir um programa de estágio sênior, oferecendo ao veterano a chance que ele precisava para voltar a atividade. Ainda que relutante, a executiva se vê obrigada a tê-lo como o seu assistente pessoal, mesmo sem ver muita função nesta contratação. Aos poucos, porém, os dois começam a se aproximar, principalmente quando Jules passa a enxergar na vivência de Ben o suporte que precisava para os momentos de crise.


Por mais que Ben seja o grande chamariz da trama, numa hilária incursão a uma realidade tecnológica completamente distante da sua geração, Nancy Meyers mostra realmente um belíssimo trabalho na construção da bem sucedida Jules. Propondo uma bem vinda inversão nos rótulos, já que o papel de "dona de casa" fica para o zeloso marido vivido pelo apenas esforçado Anders Holms, a realizadora vai bem além dos clichês feministas ao acompanhar a luta da protagonista pra conciliar a rotina profissional com a vida em família. Discutindo de maneira sagaz os dilemas da mulher moderna, numa pertinente crítica àqueles que ainda questionam a independência feminina, o bem humorado argumento é igualmente inspirado ao aproximar Ben e Jules. Através de diálogos sensíveis, ágeis e divertidos, a dinâmica relação entre os dois ganha contornos quase fraternais, numa sincera e comovente troca de experiências, tornando esta amizade algo absolutamente agradável para o espectador. Nos dois primeiros atos, aliás, a trama flui com impressionante leveza, arrancando inúmeras risadas ao explorar também a interação do estagiário setentão com os seus novos companheiros de trabalho. Méritos para o competente elenco de apoio, liderado pelo engraçadíssimo Adam Devine, pelo simpático Zack Pearlman, pela expressiva Christina Scherer e pela sempre competente Rene Russo. 


Na transição para a metade final do longa, no entanto, o argumento perde ritmo ao recorrer aos velhos clichês das comédias românticas. Mesmo abordando os dilemas familiares de Jules com maturidade, a desnecessária virada na trama no último ato não se mostra tão convincente, esbarrando em soluções menos inspiradas e insossas. Deslizes que só não comprometem graças a sutileza de Meyers ao lidar com as questões femininas e as impecáveis atuações da dupla de protagonistas. Distante do "piloto automático", Robert De Niro adiciona uma elevada dose de energia ao ativo Ben. Tirando um belo proveito do competente roteiro, que foge do lugar comum ao explorar este encontro de gerações, o veterano ator brilha ao compor este vigoroso personagem, um homem classudo disposto a buscar novas experiências, comovendo e divertindo com a mesma naturalidade. Enquanto De Niro reencontra o caminho das boas atuações, Anne Hathaway mostra o seu reconhecido carisma ao traduzir os dilemas da mulher moderna. Dando vida a uma espécie de "Mark Zuckerberg de saias", a atriz constrói uma chefe fascinante, explorando com extrema sensibilidade o misto de determinação e fragilidade da protagonista. Todo o conflito intimo de Jules é precisamente guiado por Hathaway, criando uma personagem recheada de interessantes camadas.


Recheado de momentos divertidos, De Niro conhecendo o novo ambiente de trabalho ao som de 'All About that Bass' é impagável, Um Senhor Estagiário é um daqueles 'feel good movies' gostosos de assistir. Conduzido com impressionante fluidez pela experiente Nancy Meyers, este cativante encontro de gerações nos conquista com um texto afiado e preciosas atuações, defendendo através das lições de um estagiário setentão que na vida não existe idade para se reinventar.

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