quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Do Fundo do Baú (Inferno na Torre)

Um dos grande exemplares do cinema catástrofe, Inferno na Torre é um daqueles raros trabalhos que cismam em não envelhecer. Rodado no ano de 1974, o grandioso longa dirigido por John Guillermin (King Kong) se mostra completamente funcional ainda nos dias de hoje, superando as limitações técnica da época ao nos conduzir por um angustiante resgate em um arranha-céu em chamas. Estrelado por nomes do porte de Paul Newman (O Indomado), Steve McQueen (Bullit), William Holden (Crepúsculo dos Deuses), Faye Dunaway (Chinatown), Robert Vaughn (Sete Homens e um Destino), Jeniffer Jones (A Canção de Bernardete) e - ufa! - Fred Astaire (Cinderela em Paris), este clássico do cinema conquista não só pelas vertiginosas sequências de ação, mas principalmente pela forma como explora o fator humano por trás de uma tragédia causada pelo próprio homem. 




Questionando os limites éticos por trás destas imponentes construções, esta gigantesca película nasceu da improvável junção de dois grandes estúdios de Hollywood. Na ânsia de aproveitar o sucesso do igualmente bem sucedido O Destino de Poseidon (1972), a Fox e a Warner resolveram apostar nos seus próprios filmes catástrofes, comprando - respectivamente - os direitos dos livros "The Glass Inferno" e "The Tower". Ciente que as duas obras falavam sobre o mesmo tema, um incêndio em um grande edifício, os dois estúdios resolveram juntar as forças na construção de um épico do gênero, dividindo os custos para tirar do papel uma só história. Missão dada ao roteirista Stirling Silliphant, o mesmo de O Destino de Poseidon, que faz um estupendo trabalho na unificação destas obras. Procurando se manter fiel aos dois livros, Silliphant faz o possível para explorar o melhor de cada um deles, abrindo brechas para uma série de subtramas e mantendo o clímax das duas histórias intactos. Desta forma, num envolvente e intenso longa de 2 h e 45 min, conhecemos o arquiteto Doug Roberts (Newman), um respeitado profissional que dedicou os últimos anos de sua vida na construção do maior prédio do mundo.


Intitulado "The Glass Tower" - numa clara junção dos títulos dos dois livros -, o edifício saiu do papel graças ao investimento de Jim Duncan (Holden), um bem sucedido empreiteiro que estava ansioso pela inauguração da sua obra. Disposto a se aposentar após o término deste novo trabalho, Doug parecia não ver a hora de deixar a cidade grande e tirar umas férias, buscando alternativas para convencer a sua 'workaholic' namorada (Dunaway) a ir junto. Na noite de abertura do arranha-céu, no entanto, ele descobre que Jim e o seu genro (Richard Chamberlain) utilizaram um material mais barato para economizar no orçamento, causando um superaquecimento em vários painéis de energia. Contra a vontade do engenheiro, Jim resolve dar sequência a festa, recebendo a alta cúpula da sociedade em um evento de muito luxo e requinte. Toda a alegria, porém, é abreviada quando um incêndio de gigantescas proporções se estabelece no centro do prédio, isolando grande parte dos convidados no topo da torre. Contando com a ajuda do chefe Mike O'Hallorhan (McQueen), Doug e um grupo de bombeiros terão que agir em diversas frentes para impedir que uma tragédia tire a vida de centenas de inocentes.


Contando com o talento dos astros Paul Newman e Steve McQueen, em duas performances irretocáveis, John Guillermin é brilhante ao explorar a presença destes dois astros de Hollywood. Evitando banalizar o rótulo de herói, o realizador se esforça para colocar os dois contidos protagonistas em situações verossímeis, se aprofundando não só na carga emocional por trás deles, mas também nos seus sufocantes atos de bravura. Abrindo mão dos resgates mirabolantes, os dois atores dividem o protagonismo de maneira orgânica, trazendo uma dose a mais de densidade para esta intensa premissa. Curiosamente, aliás, por exigência de McQueen os dois personagens deveriam ter o mesmo número de diálogos no roteiro, e tanto ele quanto Newman deveriam receber o mesmo salário. Tirando também um baita proveito do extraordinário elenco de apoio, Guillermin demonstra um preciso senso de simultaneidade, permitindo que as várias subtramas se cruzem naturalmente e culminem num clímax digno dos grandes clássicos do gênero. Através de personagens como o trapaceiro Harllee, numa calorosa atuação de Fred Astaire, da altruísta Lisolette, interpretada com elegância por Jennifer Jones, do apaixonado casal Bigelow e Lorrie, que vividos por Robert Wagner e Susan Flannery protagonizam uma das mais arrebatadoras sequências do longa, e do devastado Jim, numa preciosa atuação de William Holden, o diretor faz questão de valorizar o fator humano em meio a tamanha pirotecnia, nos fazendo acreditar no perigo iminente e torcer por cada um dos personagens.


Disponibilizando ao seu público o melhor que a tecnologia da época poderia oferecer, Inferno na Torre comprova ainda hoje os motivos que o levaram a se tornar uma das maiores produções do cinema catástrofe. Recheado de sequências antológicas, com destaque máximo para o plano sequência em que um homem tenta encontrar uma saída em meio ao fogaréu e para o vertiginoso resgate de um elevador panorâmico, John Guillermin se aproveitou da união entre dois dos maiores estúdios hollywoodianos e do suntuoso orçamento para produzir um longa pontuado pela brilhante trilha sonora de John Williams, pelas expressivas atuações e pela elevada dose de tensão possibilitada pelos espetaculares efeitos especiais. Aproveitando o tema, não deixe de ler o nosso especial sobre as grandes catástrofes naturais criadas por Hollywood. 

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