sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mad Max - Estrada da Fúria

Imprevisível em todos os sentidos

O hiato de trinta anos valeu a pena. Após exatas três décadas, o setentão diretor George Miller volta a saga que o consagrou no empolgante Mad Max: Estrada da Fúria. Num trabalho repleto de vigor, capaz de fazer inveja a qualquer grande nome do cinema de ação atual, o experiente realizador australiano traz contornos imprevisíveis ao mais novo capitulo da série, mostrando absoluta perícia ao construir uma sequência frenética, insana e brilhantemente explosiva. Se mantendo fiel a trilogia original, Miller, no entanto, não se contenta somente com as sufocantes perseguições concebidas no melhor estilo 'old school', demonstrando rara ousadia ao não só propor interessantes reflexões através deste bizarro cenário, mas também ao alterar de maneira corajosa o 'status quo' desta franquia. E em meio ao (justo) frenesi em torno de sucessos como Vingadores: A Era de Ultron e Velozes e Furiosos 7, Max, Furiosa e sua turma transformam um aparentemente descartável remake num espetáculo de pura intensidade visual e narrativa.

Dialogando diretamente com a extravagante estética pós-apocalíptica de Mad Max 2: A Caçada Continua (1981), Estrada da Fúria não perde tempo com explicações banais envolvendo a cronologia deste quarto capítulo e a evidente troca de protagonistas. Trazendo o competente Tom Hardy (o Bane de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge) no papel que revelou o astro Mel Gibson, o argumento assinado por George Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris impressiona pela forma como fala a partir das poderosas imagens. Através de um processo de pré-produção extremamente perfeccionista, Miller resolveu desenhar quadro a quadro os principais momentos do filme, criando um 'storyboard' que acabou servindo como uma rigorosa base para a realização desta continuação. Evitando os discursos desnecessários e os momentos de maior amenidade, durante a primeira metade da trama poucos diálogos são trocados, o longa faz questão de manter o pé no acelerador do início ao fim, ganhando contornos épicos graças as avassaladoras e praticamente ininterruptas sequências de ação. Antes de falar mais sobre elas, porém, é preciso destacar a estupenda fotografia do experiente John Seale. Vencedor do Oscar pelo drama O Paciente Inglês, o realizador abriu mão de sua aposentadoria para liderar um fantástico trabalho, trazendo cores e movimento para as surtadas perseguições. Na verdade, é a fotografia de Seale um dos grandes trunfos desta nova aventura, capturando como poucos a atmosfera desértica, excêntrica e grandiosa idealizada por Miller.


Neste cenário completamente devastado, onde a água e a gasolina eram os bens mais preciosos, Max Rockatansky (Hardy) parece perdido diante dos traumas de seu passado. Sofrendo com alucinações, o solitário anti-herói vê a sua situação piorar quando é capturado pelo nefasto Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, num vilão visualmente poderoso, mas internamente fragilizado), o tirano líder da Cidadela, uma região marcada pela violência e pela desigualdade social. Retendo as últimas fontes de água e alimento, Joe é tratado como uma espécie de guia espiritual por seus escravos, atraindo a confiança dos seus guerreiros, os 'War Boys', com promessas envolvendo um paraíso que só seria alcançado com sacrifício e dedicação extrema. Todo este poder, no entanto, é desafiado pela Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), uma valente guerreira que trai a confiança do ditador ao ajudar as suas submissas e reclusas "esposas" numa improvável fuga. A bordo de um imponente caminhão tanque, uma verdadeira fortaleza sobre rodas, Furiosa inicia assim uma arriscada fuga pelo deserto, encarando todo o poderio de Immortan Joe e o seu grotesco exército sobre rodas. Mesmo sem confiar um no outro, Max e Furiosa se unem contra este terrível rival, buscando a redenção dos seus respectivos "fantasmas" na tentativa de encontrar uma esperança perante esta desoladora realidade. 


Mostrando um senso estético cada vez mais raro no cinema atual, George Miller impressiona ao construir um longa recheado de momentos espetaculares, daqueles que sufocam o espectador ao longo das envolventes duas horas de projeção. Embalado por uma câmera sempre nervosa, que traz ainda mais aceleração às dinâmicas perseguições, o realizador australiano é absolutamente original ao compor as bem coreografadas sequências de ação, que em nenhum momento se tornam redundantes ou exageradamente violentas. Desde a espetacular correria durante uma tempestade de areia, passando pela tensa fuga em um atoleiro, todos estes momentos são impecavelmente particulares, mantendo o clima de imprevisibilidade sempre em alta. Fugindo dos efeitos digitais, que pontuam habilmente duas ou três cenas, Miller opta pelos bons e velhos efeitos práticos, que só trazem mais veracidade as exóticas e explosivas batalhas rodadas no deserto da Namíbia. Mais uma vez, aliás, chama a atenção o detalhismo visual envolvendo a estilizada atmosfera pós-apocalíptica concebida pelo australiano. Usando e abusando dos tipos bizarros, o diretor é brilhante ao brincar com as possibilidades do cinema atual, promovendo um trabalho caprichadíssimo na criação dos inusitados personagens, dos elaborados cenários e das verdadeiras máquinas de combate que são os carros. Na verdade, além dos angustiantes e bailantes ataques aéreos dos 'war boys', vale destacar a opressão vertiginosa da Cidadela, o caminhão tanque de Furiosa e o visual da deformada trupe de guerreiros liderada por Immortan.


O grande diferencial deste reboot, no entanto, fica pelas reflexões sociais propostas por George Miller. Apesar do longa ser guiado pelas surtadas perseguições, que embalam a trama desde o primeiro minuto, o diretor australiano não só desenvolve com precisão o bem resolvido argumento, como também enxerga uma possibilidade de modificar o 'status quo' da franquia. Inicialmente se concentrando na figura de Max, que surge em cena completamente atormentado por sombrios devaneios, pouco a pouco o inspirado roteiro vai se aproximando da figura da Furiosa, evidenciando as suas verdadeiras intenções de maneira gradativa. Ainda que Tom Hardy entregue uma performance certeira, crescendo habilmente à medida que o seu personagem passa a ter um motivo para lutar, é Charlize Theron o principal acerto deste longa. Expressiva desde a sua primeira aparição, a carismática atriz sul-africana é a força motora desta película, impressionando tanto nas sequências mais físicas, quanto nos momentos mais intensos. Sem querer revelar muito, Miller encontra nela o estopim para a sua tacada de mestre, questionando de maneira contundente o papel da mulher dentro da nossa sociedade. O mesmo, aliás, acontece com Nicolas Hoult, que faz do seu Nux um personagem realmente relevante. Dando vida a um devotado 'war boy', que parece disposto ao sacrifício em nome do paraíso prometido, o jovem ator comove ao mostrar os perigos em torno da manipulação, numa evidente crítica aos extremistas religiosos atuais. Esta continuação, aliás, sentiu na própria pele as consequências deste fanatismo, já que o longa teve que voltar pra gaveta após o trágico atentado de 11\09, justamente no momento em que Miller tinha tudo engatilhado para dar início a produção.


Contando ainda com a fantástica trilha sonora do holandês Junkie XL, que ganha corpo num extravagante carro amplificador liderado por um ensandecido e pirotécnico guitarrista, Estrada da Fúria nada contra a corrente ao comprovar que alguns 'remakes' podem sim ser necessários. Fazendo um competente uso do 3-D, que apesar de convertido amplia o senso de loucura em torno da trama, e do primoroso design de som, que faz o ronco dos motores ecoar de maneira avassaladora, a eletrizante nova aventura de Max Rockatansky evidencia que em alguns poucos casos o bom gosto e o bizarro podem "acelerar" lado a lado. Trazendo um surpreendente frescor a este longa, que nem de longe se resume as magníficas sequências de ação, George Miller mostra fôlego ao liderar esta trabalhosa continuação, dando uma verdadeira aula de cinema ao construir uma aventura engajada, empolgante e - acima de tudo - surtada. E numa época em que muitos executivos discutem a viabilidade de uma mulher estrelar um blockbuster de ação, o experiente diretor australiano se posiciona à frente da concorrência ao fazer do novo Mad Max - pasmem vocês - uma honesta ode ao 'girl power' e ao feminismo. Uma daquelas peças que só poderiam ser pregadas por um experiente realizador, daqueles com energia de sobra para brincar com as expectativas e produzir um material visceral e genuinamente ousado.

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