quarta-feira, 22 de abril de 2015

Não Olhe para Trás

No ritmo dos Beatles, longa dá contornos bem humorados a típica história de redenção

Após dar vida a um decadente ator em O Último Ato, Al Pacino volta aos cinemas brasileiros com a cativante "dramédia" Não Olhe para Trás. Demonstrando inegável vigor aos 74 anos, o astro de O Poderoso Chefão desfila a sua reconhecida versatilidade ao interpretar uma extravagante estrela do rock em busca da redenção pessoal. Evitando se apoiar exclusivamente na radiante performance do ator, num daqueles papeis completamente distantes da sua zona de conforto, o diretor e roteirista Dan Folgeman (Amor a Toda Prova) mostra categoria ao lidar com os melodramas em torno desta história, fugindo do lugar comum ao torna-los sensíveis e extremamente bem humorados. Ainda que o longa requente algumas das populares fórmulas deste agridoce gênero, com direito a pequenas forçadas de barra, o realizador evita ser condescendente com a figura do músico, encontrando no afinado elenco e na impecável trilha sonora um agradável caminho para contar a jornada de um homem que encontrou numa carta a força para recomeçar.



Inspirado num incrível episódio na vida do músico Steve Tiltson, que foi surpreendido ao receber em 2010, quarenta anos depois do endereçamento, uma carta escrita pelo ex-beatle John Lenon, Folgeman teve a original ideia de colocar este fato como o estopim de uma trama fictícia. Através de um argumento realmente bem resolvido, conhecemos então o carismático e envelhecido astro do rock Danny Collins (Pacino). Levando uma vida completamente desregrada, com direito ao abuso nas drogas e no álcool, o acomodado cantor seguia fazendo sucesso junto ao seu público, botando os mais velhos pra dançar com os hits de uma discografia bem sucedida. Contando com o suporte do amigo e empresário Frank (Christopher Plummer), Danny mostrava a sua energia durante uma grande turnê pelos EUA, conseguindo manter uma vida de luxo em sua gigantesca mansão. Tudo muda, no entanto, quando no dia do seu aniversário o músico toma conhecimento da tal carta, um conselho de Lenon após uma entrevista dada por ele na década de 1970. Fã assumido dos Beatles, Collins passa a cogitar qual seria o rumo do seu trabalho se tivesse acontecido o encontro, repensando assim a vida profissional e também a pessoal. Disposto a sair do marasmo que tomou a sua rotina, o astro do rock resolve partir para New Jersey para reatar a relação com o seu único filho (Bobby Cannavale), buscando nesta reaproximação a inspiração para voltar a ser o artista autoral do início de sua carreira.


Seguindo uma linha narrativa aparentemente recorrente dentro do gênero, Dan Folgeman esbanja categoria ao compor magnético Danny Collins. Numa excêntrica mistura de Elton John com Rod Stewart e Tony Stark, o cantor vivido por Al Pacino se distancia dos clichês envolvendo os astros do rock, ganhando uma aura malandra, alto astral, mas carregada emocionalmente. Um daqueles tipos magnéticos, que se mostra ora centralizador, ora obstinado, fazendo com que todos os outros cedam naturalmente às suas vontades. Na verdade, ainda que a relação de Collins com o filho vá do ódio à tolerância de maneira conveniente, é a aura encantadora do músico que traz credibilidade a estas situações, evitando que a aproximação dele com alguns dos personagens possa parecer acelerada ou artificial. Além disso, explorando com inspiração o bom humor do cantor, que pontua brilhantemente não só as sequências mais leves, mas principalmente as mais emotivas, Folgeman encontra na descontração uma alternativa sagaz para amenizar os melodramas, tornando humanas e extremamente honestas as cenas mais sentimentais. O mais legal, no entanto, fica pela forma habilidosa com que o roteiro trabalha as expectativas em torno das atitudes dos personagens, nem sempre oferecendo o que o público esperava ver. Se inicialmente o argumento parece seguir um rumo ligeiramente previsível, pouco a pouco o diretor vai surpreendendo o espectador, culminando com uma inteligente reviravolta e um clímax singelo, angustiante e absolutamente comovente.


A partir deste caprichado argumento, competente ao longo dos envolventes 100 minutos, o elenco nitidamente se torna o ponto alto desta "dramédia". Demonstrando categoria ao tirar o máximo dos seus comandados, o que fica nítido no trabalho com a pequena Giselle Eisenberg (O Ano mais Violento), num incrível desempenho como a elétrica e comunicativa Hope, Folgeman desenrola uma espécie de tapete vermelho para que Al Pacino pudesse brilhar. Surpreendendo ao emprestar a sua voz para algumas das boas canções de Danny Collins, o veterano é impecável ao construir este complexo personagem, caminhando preciosamente pela gangorra de emoções que se torna a vida do músico. Esbanjando química com os seus companheiros de cena, o radiante protagonista compõe ainda uma interessante relação com o seu filho distante.  Contrastando com a vigorosa atuação de Pacino, o competente Bobby Cannavale (Blue Jasmine) nos conquista ao desenvolver um personagem de expressão pesada, que não consegue aceitar a ausência de Danny, mas que se revela um zeloso pai de família. Enquanto Cannavale traz densidade à trama, a experiente Annette Bening (Beleza Americana) parece flutuar com a simpática Mary. Interesse afetivo de Danny, Benning protagoniza uma madura relação com o músico, marcado por diálogos competentes e pelo distanciamento dos clichês. Por falar nos veteranos, o oitentão Christopher Plummer se torna o grande ladrão de cenas deste longa. Com um humor afiado e o seu reconhecido talento no drama, Plummer participa de alguns dos mais interessantes momentos da trama.


Ainda que peque ao não se aprofundar nos dilemas envolvendo a carreira de Danny Collins, principalmente no que diz respeito ao nítido peso na consciência que ele carrega por ter se "corrompido" musicalmente, Não Olhe para Trás surpreende pela forma sóbria com que narra a jornada deste afetado astro do rock. Embalado pela apurada trilha sonora, repleta de clássicos do John Lennon, que complementam com perspicácia boa parte das cenas, Dan Folgeman mostra sensibilidade ao narrar esta história de redenção, evitando ao máximo a condescendência e os melodramas. Entre os erros e acertos do cantor, que seguem se repetindo até a intensa última cena, o longa não esconde as fragilidades, falhas e fraquezas deste astro do rock, mostrando que por trás da personalidade conquistadora, dos carrões de luxo e das roupas extravagantes existe um homem comum em busca do tempo perdido, à procura de um sentido para a sua vida.

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