sábado, 20 de setembro de 2014

Mesmo se Nada der Certo

Um "feel good movie" de respeito

Voltando a usar a música como pano de fundo de suas histórias, o diretor John Carney (Apenas uma Vez) é novamente certeiro em Se Nada Mais der Certo. Explorando com propriedade a vocação musical do longa, o diretor conduz um daqueles trabalhos capazes de fazer o espectador sorrir de "orelha a orelha" durante as quase duas horas de projeção. Embalado por uma trilha sonora encantadora, construída a partir do surpreendente desempenho vocal da atriz Keira Knightley (Piratas do Caribe), a comédia-romântica se apoia na expressiva atuação de Mark Ruffalo para promover uma crítica sagaz a atual pasteurização do mercado fonográfico.


Se apoiando no humor leve e num clima extremamente otimista, o roteiro assinado pelo próprio Carney narra a história de dois perdedores unidos pelo destino. De um lado temos o produtor musical Dan (Rufallo), um profissional de sucesso na década de 1990, que perdeu tudo ao longo dos anos seguintes. Separado e com dificuldades para criar a sua filha, a problemática Violet (Hailee Steinfeld), Dan conhece o fundo do poço ao ser demitido da gravadora que ele próprio fundou. Do outro temos a bela Gretta (Knightley), uma compositora britânica que se vê perdida em Nova York após ser dispensada pelo namorado, o promissor pop-star Dave Kohl (Adam Levine). Com a ajuda de seu ex-colega de universidade, o músico de rua Steve (James Corden), Gretta ganha a oportunidade de cantar em uma casa noturna. Vagando de bar em bar, o desiludido produtor acaba assistindo essa apresentação, enxergando nela um talento original. Sem recursos próprios, e com as portas dos estúdios fechadas, Dan e Gretta resolvem gravar um álbum ao ar livre, usando como pano de fundo a diversidade da cidade de Nova York.


Ainda que esse argumento não seja realmente tão inovador, as escolhas de Carney dão à trama um grande frescor. Fugindo do óbvio, o longa aposta numa narrativa, inicialmente, não linear, que pouco a pouco vai apresentando os motivos do fracasso de Dan e Gretta, criando um grande vinculo com o espectador. Contando com a latente química dos versáteis Mark Rufallo e Keira Knightley, em dois cativantes desempenhos, o realizador consegue escapar dos clichês que cercam o gênero, demonstrando originalidade ao conduzir essa relação. Apostando em carismáticos coadjuvantes, como o divertido Steve, o longa ganha um peso ainda maior ao abrir espaço para a complexa Violet. Através da ótima atuação de Hailee Steinfeld (Bravura Indômita), que desponta como um das mais promissoras atrizes da atualidade, o diretor encontra nos dilemas dela uma espécie de fuga do "conto de fadas" que cerca Dan e Gretta. Opção que abranda, até mesmo, a superficialidade com que o roteiro relata a relação do produtor com sua ex-esposa, vivida pela ótima Catherine Keener.

O grande diferencial, no entanto, fica pela criatividade de John Carney ao colocar a música no centro das atenções. Muito mais do que uma trilha sonora, as canções assinadas pelo artista independente Gregg Alexander refletem a própria atitude ou o pensamento dos personagens. Elas embalam muito mais do que romances e amizades, mas também um rompimento, uma briga, ou uma reação furiosa. Aqui, em muitos momentos, elas valem mais do que os próprios diálogos. Indo do pop ao indie de forma envolvente, o longa mostra com propriedade o processo de produção musical, criando cenas realmente revigorantes. Com destaque para a incrível "jam session" mental de Dan ao ouvir Gretta cantar. Contando com o entusiasmo de nomes como Cee-Lo Green, Mos Def e o convincente Adam Levine, Carney é também perspicaz ao criticar o atual cenário pop. Enquanto Dan se mostra incomodado com a falta de originalidade, despejando pela janela do carro uma série de demos, Gretta é uma purista sonhadora, que acredita no poder do trabalho autoral. Questionando a figura das gravadoras, e a busca pelo sucesso à qualquer custo, esses temas ganham a proporção exata durante a inusitada jornada dos dois.


Fazendo uma série de certeiras referências, que vão do cinema a música contemporânea, Mesmo se Nada der Certo conquista não só pelo eclético repertório musical, mas também pelas vigorosas atuações, pela eficiente trama e pela diversidade da cidade de Nova York, explorada de forma inventiva pela fotografia de Yaron Orbach. Apesar de se construir através de um clima bem otimista, onde valores como a gratidão e a confiança ainda parecem respeitados, o diretor John Carney demonstra sensibilidade ao narrar um conto de fadas musical em meio ao voraz mundo da indústria fonográfica.


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