sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Lucy

Uma surtada e empolgante aula de biologia

Imagine você uma grande aula sobre a origem da vida, estrelada por uma superpoderosa Scarlett Johansson e dirigida pelo mestre do cinema de ação francês Luc Besson (O Profissional). Pois bem, por mais inusitada que pareça, essa definição é precisa ao resumir Lucy. Um filme vendido como um thriller de ação convencional, mas que, na verdade, surpreende pela abordagem cientifica e pela atmosfera reflexiva que o cerca. Ainda que sempre mantenha o pé dentro do gênero, oferecendo o frenesi esperado pelos fãs, o longa com toques 'gore' traça uma série de inspirados questionamentos sobre a realidade humana. Em outras palavras, sente na poltrona, ligue seu cérebro e curta essa imprevisível viagem. 

Apostando no grande talento da atriz Scarlett Johansson (Capitão América 2 - O Soldado Invernal), numa fase realmente espetacular, Luc Besson se mostra ambicioso ao fugir da estética comercial do cinema de ação que o consagrou com as franquias Taxi, Carga Explosiva e Busca Implacável. Ainda que o longa se apoie nos principais elementos do gênero, incluindo o ótimo antagonista vivido por Min-sik Choi (Oldboy), as empolgantes perseguições e o ritmo ágil, essa jornada de vingança acaba em segundo plano perante um bem maior. Se aprofundando em temas como o potencial cerebral, as funções de uma célula e os limites do corpo humano, o realizador francês constrói um complexo roteiro para narrar a história de Lucy (Johansson). Uma jovem que, durante a estadia na China, entra na mira do crime organizado após ser enganada por um novo namorado.


Obrigada a fazer uma entrega para o violento Mr. Jang (Min-sik Choi), o poderoso chefão da máfia local, Lucy é sequestrada e forçada a transportar um saco com uma nova e poderosa droga dentro do seu estômago. Após a cirurgia, no entanto, as coisas saem do controle quando a substância entra em contato com o DNA de Lucy, dando a ela a possibilidade de explorar muito mais do que os 10% da capacidade cerebral usada pelos humanos. Adquirindo poderes espetaculares, entre eles a telecinese, a manipulação da mente e a aptidão para adquirir conhecimento de forma instantânea, Lucy inicia uma corrida contra o tempo para impedir que a droga se espalhe pelo seu organismo. Para isso, ela precisará encontrar o figurão que a colocou nessa situação e um professor especialista no estudo neurológico (Morgan Freeman).


Se concentrando na evolução da capacidade neurológica de Lucy, didaticamente evidenciada a cada salto de porcentagem, o diretor francês se apoia na Teoria da Evolução para explicar as improváveis novas habilidades da jovem. Ainda que se baseie numa tese infundada, já que não existe comprovação cientifica envolvendo o uso limitado do nosso cérebro, o roteiro é criativo ao abordar os mistérios sobre a nossa existência. Traçando um interessante paralelo com o desenvolvimento primata, o que explica a escolha do nome Lucy, Besson aproveita a capacidade cerebral da personagem para questionar também a atual involução do ser-humano. Por mais que a trama tente associar a evolução de Lucy aos golfinhos, mamíferos reconhecidos pela inteligência sobre-humana, o diretor francês é perspicaz ao utilizar a internet como o verdadeiro parâmetro dos poderes dela. Explorando de maneira original o senso comum de que estamos sempre conectados, com amplo acesso à comunicação, o filme critica a nossa incapacidade de evoluir através dos adventos tecnológicos. Prova disso é que a cada novo upgrade cerebral, Lucy parece mais conectada, mais sedenta por informação, mais onipresente, encarando o conhecimento como o caminho para a salvação. Nada melhor, aliás, do que colocar a China como o grande cenário para essa história, justamente um país que segue censurando o acesso à rede mundial de computadores.


Apesar da falta de lógica acerca dos "poderes" da jovem, Besson é hábil ao brincar com esses inexplorados limites cerebrais. Utilizando de forma concisa a figura do professor, num eficiente desempenho de Morgan Freeman, as explicações sobre os efeitos da droga são intercaladas à trama de forma objetiva e extremamente sagaz. Com um invejável trabalho no aspecto visual, vide as inúmeras cenas em diferentes Eras, os super-poderes e a impactante desconstrução de Lucy, o longa carrega também um curioso tom documental, no melhor estilo National Geographic. Tanto que num determinado momento, a situação dela é genialmente comparada a de um inofensivo cervo perto da morte. Originalidade que, diga-se de passagem, é potencializada pela a magnética interpretação de Scarlett Johansson. Conseguindo mostrar completa naturalidade em cena, a atriz interioriza toda a complexidade de sua personagem, indo do pavor inocente à frieza voraz de forma irretocável. Méritos para Luc Besson, que acerta não só nas elegantes cenas de ação, como também nos momentos mais emblemáticos envolvendo Lucy.


Evidenciando o poder do conhecimento, Lucy é um original e bem executado trabalho que deve surpreender o espectador. Não sei dizer, porém, se positivamente ou não. Optando por se distanciar do tom comercial do gênero que o consagrou, Luc Besson transforma um aparente thriller de ação em uma surtada e ambiciosa aula sobre a complexidade do cérebro humano. Ou seja, para aqueles que esperavam encontrar uma Viúva Negra com super-poderes, chutando o traseiro de seus inimigos, a decepção pode ser grande. Por outro lado, para os espectadores mais abertos a novidade e a reflexão, Lucy desponta como um dos filmes mais interessantes desse ano. E, talvez, um dos mais criativos do realizador francês desde O Quinto Elemento (1997).


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