sexta-feira, 25 de julho de 2014

Planeta dos Macacos - O Confronto

Somos todos irracionais?

Continuação do elogiado reboot do clássico de 1968, Planeta dos Macacos - O Confronto é um daqueles elaborados trabalhos que se fantasiam de blockbuster. Apresentando uma série de contextualizadas reflexões sobre a natureza humana, o longa dirigido por Matt Reeves (Cloverfield - O Monstro) alia primor técnico e narrativo ao conduzir uma eletrizante trama, daquelas que mais parecem um barril de pólvora prestes a explodir. Ainda que o humanizado macaco César, numa recriação digital extremamente realista, seja novamente um dos pontos altos, a grande surpresa fica pelo impressionante Koba. Sem medo de errar, um dos vilões mais impactantes da última década. 

Seguindo os episódios acontecidos em Planeta dos Macacos - A Origem, o roteiro assinado pelo trio Rick Jaffa, Amanda Silver e Mark Bomback se passa dez anos após a grande rebelião primata. Devastados por um vírus mortal, que foi desenvolvido a partir de testes laboratoriais com os próprios macacos, os humanos foram praticamente dizimados da face da Terra. Liderados por Dreyfus (Gary Oldman), os sobreviventes tentam encontrar uma fonte de energia para suprir o alojamento do grupo. Entre eles está Malcolm (Jason Clarke), braço direito de Dreyfus, e um dos homens fortes junto aos resistentes. Disposto a reativar uma usina próxima, Malcolm e o seu filho Alexander (Kodi Smit-McPhee) decidem estudar as condições desta represa. 


Lá, eles descobrem que o território está habitado por César (Andy Serkis) e pelo grupo de evoluídos macacos que fugiram de San Francisco. Mais maduro a frente desta sociedade primata, César parece disposto a esquecer dos traumas do passado, permitindo que os humanos possam utilizar a área. Essa atitude, no entanto, gera a desconfiança de Koba (Toby Kebbell), o seu braço direito, e de muitos macacos que seguiam desconfiando dos humanos. Temendo uma grande guerra, César decide dar um voto de confiança a Malcolm, mesmo sabendo que qualquer pequena crise poderia ser o estopim para reativar a velha rixa entre macacos e humanos. Afinal de contas, as feridas do passado ainda não estavam tão cicatrizadas.


Com uma grande premissa em mãos, Matt Reeves mostra grande habilidade na reconstrução desta rivalidade. De um lado temos os humanos ávidos por sobrevivência. Do outro, os cada vez mais fortalecidos macacos. E no meio de tudo isso César, um primata que conheceu o melhor e o pior dessas duas realidades. Trabalhando muito bem a complexidade deste argumento, o roteiro levanta precisas e recorrentes reflexões envolvendo a sociedade atual. Sob o prisma dos macacos, que construíram uma sociedade extremamente humanizada, questões sociais e politicas são muito bem abordadas, funcionando como um elo para toda a trama. Se aproveitando com brilhantismo das consequências do primeiro longa, toda a visão preconceituosa dos primatas em relação aos humanos é desenvolvida com destreza, contrastando de forma impecável com o nítido lado humano de César. Esse embate ideológico, aliás, ganha enormes proporções dentro do roteiro, expondo todas as falhas do nosso modo de vida social.


Utilizando com prerícia esse contextualizado roteiro, Reeves permite que todas as subtramas coincidam num impactante clímax, digno dos melhores filmes da franquia. Apresentando uma intensa narrativa, com poucos momentos mais afetuosos, ainda que a trama se concentre nos primatas, os personagens humanos são realmente bem aproveitados. Sem se aprofundar no passado de cada um deles, a trama revela somente o necessário para entendermos o motivo de suas ações. Ainda que as precisas atuações de Gary Oldman, Jason Clarke e Keri Russel sejam destacáveis, o lado humano da história não tem o mesmo peso em relação ao antecessor, o que, na verdade, se revela um dos grandes acertos do longa. Se concentrando muito mais no ponto de vista primata, potencializado pelo impressionante trabalho visual na construção dos macacos, as atuações digitais de Andy Serkis (César), Toby Kebbell (Koba), Judy Greer (Cornélia) e Karin Konoval (Maurice) levantam - novamente - o debate sobre o futuro deste recurso no cinema.


Apesar dos méritos narrativos, Planeta dos Macacos - O Confronto é um filme melhor em função do pioneiro trabalho visual. Assim como no expressivo primeiro longa, toda a verossimilhança na construção dos primatas é impecável. Mesmo sabendo da utilização dos recursos digitais, a todo momento nos perguntamos se aqueles macacos são realmente reais. O bebê macaco então nem se fala. Como se não bastasse toda essa realística concepção, com destaque para a textura dos pelos, as cicatrizes e a movimentação, a expressividade de cada um deles é o grande destaque do longa. Por mais de uma vez, Reeves faz questão de se concentrar no olhar de cada um deles, permitindo que eles falem mais do que mil palavras. Uma grande sacada, diga-se de passagem, já que eles se comunicam muito mais com os olhos, do que por palavras ou gestos. Méritos para o impressionante desempenho de Andy Serkis, que depois do Smeagol de O Senhor dos Anéis e do King Kong de Peter Jackson, apresenta aqui o seu melhor trabalho junto à técnica de captura de movimentos. 


Enquanto César parece ainda mais forte e evoluído do que no original, Koba é um antagonista à altura do líder primata. Dissimulado, corajoso e violento, o visual dark deste macaco rouba a cena em muitos momentos. E não paramos por ai. Toda a construção visual da devastada San Francisco chama a atenção, assim como as empolgantes cenas de ação. Ver macacos, com metralhadoras, em cima de cavalos é realmente uma experiência ímpar. Por outro lado, o único deslize fica pelo pouco explorado 3-D, que até funciona em momentos pontuais, mas se mostra aquém ao já apresentado nos grandes blockbusters. Se visualmente o trabalho é impecável, no aspecto sonoro o longa também chama a atenção. Além da empolgante trilha assinada por Michael Giacchino (UP - Altas Aventuras), que remete a um estilo mais clássico, a captura de som se mostra irrepreensível, fazendo com que o espectador se sinta no meio desta rivalidade entre macacos e humanos. 


Ainda que se apoie em algumas concessões típicas do "Cinema Pipoca", Planeta dos Macacos - O Confronto empolga não só pelo apuro técnico, mas - principalmente - pelo impacto e a tensão de sua trama. Visualmente significante, esta continuação comprova que um blockbuster pode sim ser contextualizado. Isso porque ao colocar primatas e humanos em lados opostos, o longa evidencia a irracionalidade e a intolerância cada vez mais presente dentro da nossa sociedade. Sejamos evoluídos, ou não. 


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