quarta-feira, 30 de julho de 2014

Cinemaniac Indica (A Aventura de Kon-Tiki)


Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013, A Aventura de Kon-Tiki é a prova da grande versatilidade do cinema Europeu. Contando com um belíssimo trabalho de fotografia, os diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg demonstram um grande respeito ao recontar a incrível jornada do explorador norueguês Thor Heyerdahl. Valorizando os simbolismos e as incertezas em torno do futuro dos personagens, o longa empolga ao reproduzir o aspecto sonhador em torno dos anseios dos seis aventureiros tripulantes.



Baseado em uma incrível história real, que foi dignamente registrada e venceu o Oscar de Melhor Documentário em 1950, o longa acompanha a obstinação do teórico norueguês Thor Heyerdahl (Pål Sverre Valheim Hagen). Um homem que, após anos de estudo do modo de vida e da cultura da Polinésia, levanta uma polêmica teoria. Segundo a sua tese, o povo polinésio não foi colonizado pelos asiáticos, mas sim pelos sul-americanos. Apesar da distância de mais de 8.000 Km entre os continentes, Thor acreditava que os antigos habitantes de Tiki conseguiram atravessar o oceano Pacífico a bordo de rudimentares balsas. Lutando para publicar o seu estudo, ele esbarra na desconfiança dos principais teóricos. Percebendo que a sua tese estava prestes a ser desacreditada, o escritor decide tomar uma drástica medida: refazer a viagem do Peru à Polinésia a bordo de uma jangada. Sem encontrar marinheiros dispostos a tal feito, Thor resolve reunir um grupo de cinco inexperientes "tripulantes", entre eles um engenheiro dono de uma empresa de geladeiras (Anders Baasmo Christiansen) e um cinegrafista (Gustaf Skarsgård), para iniciar a viagem que mudaria as suas respectivas vidas.


Evitando se prender ao aspecto realístico em torno da viagem, os diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg dão um tom quase lúdico a obra. Ciente da grandeza e do pioneirismo destes seis tripulantes, a dupla de realizadores opta por ressaltar o idealismo e o aspecto sonhador por trás das atitudes do inusitado capitão. Ainda que o impecável trabalho de maquiagem e a expressiva fotografia, assinada por Geir Hartly Andreassen, tornem a história mais crível, o longa parece se encantar com o viés aventureiro em torno desta incrível jornada. Se concentrando na figura do sonhador Thor, que larga família e filhos para tentar concretizar a sua tese, o roteiro assinado por Petter Skavlan é eficiente ao mostrar os motivos que levaram os outros "marinheiros" a esta missão quase suicida. Mesmo sem se concentrar no aspecto dramático envolvendo a convivência dos seis tripulantes, a trama aumenta o mito, mas não esquece os fatos. Realçando a desconfiança dos marujos em relação às convicções de Thor, o argumento é preciso ao construir estes interessantes dilemas,  que crescem gradativamente à medida que a viagem encontra os seus primeiros obstáculos. Quase sempre carregado de simbolismos e de elementos abstratos, o roteiro encontra soluções criativas para resolver muitos destes problemas. A fé de Thor nos antepassados de Tiki, por exemplo, é utilizada com destreza, assim como os precisos flashbacks.


Ainda que o roteiro seja realmente eficiente, é o aspecto visual o grande destaque em A Aventura de Kon-Tiki. Com um escasso orçamento para filmes do gênero, cerca de US$ 15 milhões, Rønning e Sandberg demonstram habilidade na construção desta aventura. Embalado pelo ótimo argumento, a dupla de diretores é criativa ao construir todas as cenas marítimas. Explorando as possibilidades envolvendo os perigos do oceano, como tubarões, baleias, águas-vivas e tempestades, os realizadores criam cenas realmente empolgantes. Ainda que não goste de comparações, as cenas são tão impactantes quanto as apresentadas no caríssimo As Aventuras de Pi, que ostentou um orçamento de US$ 127 milhões e praticamente quebrou a empresa de efeitos visuais Rhythm e Hues. 


Encontrando soluções emblemáticas para conduzir a transição temporal, a cena em que a câmera passeia pela estratosfera é realmente simbólica, os dois diretores criam tensão, emoção e divertem na medida certa. Vale lembrar, inclusive, ambos já estão escalados para comandar a quinta continuação da franquia Piratas do Caribe. Voltando ao filme, como se não bastasse o bom trabalho visual, Rønning e Sandberg mostram sensibilidade na condução do elenco. Contando com um bom time de atores em mãos, com destaque para o magnético Pål Sverre Hagen, o elenco contribui para que o espectador se sinta inserido nesta insólita viagem através do pacífico. 


Sem deixar de lado as consequências desta viagem, sejam elas positivas ou negativas, A Aventura de Kon-Tiki é acima de tudo uma ode ao espírito indomável dos pioneiros tripulantes. Respeitando o tamanho dos incríveis feitos de Thor, o longa abraça a aventura ao sair em defesa da valorização dos nossos sonhos. Apesar de ter perdido o Globo de Ouro e o Oscar para o elogiado Amour, essa aventura de 8.000 Km merece um lugar de destaque entre as grandes produções atuais da Europa. 

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