sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Guardiões da Galáxia

Quem não arrisca, não conquista

Se você quer saber o porquê do sucesso dos filmes da Marvel, assista a Guardiões da Galáxia e terá a sua resposta. Enquanto a maioria absoluta das concorrentes recorre à zona de conforto, repetindo fórmulas que já se mostraram rentáveis, a "casa das ideias" alimenta uma inquietação criativa que segue nos surpreendendo. Desde a improvável escolha em abrir os trabalhos com o expressivo Homem de Ferro (2008), passando pela opção de se consolidar através de Os Vingadores (2012) e chegando ao tom épico de Capitão América - O Soldado Invernal, cada lançamento mostra a capacidade do estúdio em se reinventar. Nenhuma delas, no entanto, se compara ao risco desta nova e empolgante empreitada. Apostando no carisma e na excentricidade deste desconhecido supergrupo, a Marvel supera todas as expectativas ao encontrar a alternativa perfeita para conseguir ampliar o seu universo cinematográfico.




Lançados em 1969 pela Marvel Comics, os personagens criados pela dupla Arnold Drake e Gene Colan são daqueles que nem os fãs mais ardorosos deram muita atenção. Como explicamos no nosso especial sobre os Guardiões da Galáxia, o supergrupo não teve grande êxito na época e só voltou a ganhar importância no ano de 2008, quando Dan Abnett e Andy Lanning reiniciaram a franquia em Os Guardiões da Galáxia (Vol. 2). Arco que, aliás, é o utilizado nesta adaptação. Com um visual todo particular e uma atmosfera completamente distinta da apresentada em Os Vingadores, Kevin Feige e a sua turma de produtores não tiveram dúvidas em utiliza-los para unir o universo cósmico e terráqueo da franquia. Uma complicada missão, que acabou sendo muito bem conduzida nas mãos do diretor James Gunn, do elogiado Seres Rastejantes, e da roteirista estreante Nicole Perman.


Somos então apresentados ao saqueador Peter Quill (Chris Pratt), um egocêntrico terráqueo que leva a sua vida como caçador de recompensas na galáxia. Vivendo da venda de relíquias furtadas, Quill entra no rastro do temido Ronan - O Acusador (Lee Pace) quando rouba uma enigmática esfera. Tentando escapar das garras dos aliados de Ronan, incluindo ai a poderosa Nebula (Karen Gillian) e o guerreiro Korath (Djimou Houson), Quill acaba preso. Buscando negociar o artefato, o autointitulado Senhor das Estrelas resolve se aliar a quatro anti-heróis, cada um com objetivos completamente distintos. Com a ajuda da sombria Gamora (Zoe Saldana), filha adotiva de Thanos (Josh Brolin) e ex-aliada de Ronan, do verborrágico e destruidor Drax (Dave Bautista), do insano guaxinim Rocket Racoon (Bradley Cooper) e do seu fiel escudeiro Groot (Vin Diesel), Quill se vê em um dilema ao perceber que o Acusador é mais perigoso do que parece. É ai que o quinteto terá de deixar o seus interesses particulares de lado para lutar por um grandioso bem maior.


Demonstrando perspicácia ao apresentar essa série de novos personagens, o empolgante argumento assinado por Gunn e Perman não perde tempo com pequenos detalhes. Diferente da maioria dos filmes de origem, esta adaptação apresenta o supergrupo de forma extremamente ágil, sem apelar para grandes introduções ou descartáveis flashbacks. Destacando de forma objetiva os verdadeiros interesses dos personagens, o roteiro desenvolve este arco de forma concisa e impecável, apostando no humor e nas grandiosas cenas de ação para conquistar o público. Sem querer revelar muito, as referências ao universo Marvel e a cultura pop em geral são geniais, assim como as excelentes gags e os envolventes diálogos.


Enfatizando todo o carisma dos personagens, com destaque para hilária relação entre Quill, Rocket e Groot, aqui o humor não é utilizado como um alívio, mas sim como parte integrante da história. Sem perder a mão nos momentos mais densos, que ganham espaço com cenas sensíveis e de ótimo gosto, Gunn demonstra completa perícia ao conduzir a latente química do grupo, permitindo que cada um dos inusitados heróis tenha o seu lugar ao sol. Um resultado realmente redondo, bem encaixado, que apaga até mesmo os pequenos problemas envolvendo o desenvolvimento das motivações do performático Ronan.


Propondo uma série de referências aos clássicos do gênero, de Star Wars a O Vingador do Futuro, Gunn demonstra originalidade estética ao apresentar este novo universo cósmico da Marvel. Apostando num tom quase setentista, que se torna evidente graças à marcante trilha sonora, repleta de clássicos da época, o visual de Guardiões da Galáxia é uma das mais belos e inventivos já concebidos pelo estúdio. Enfatizando as cores, o belo trabalho de maquiagem e a iluminada fotografia assinada por Ben Davis, o aspecto exótico do supergrupo se reflete de forma ímpar na atmosfera visual do longa. A começar pelo belo trabalho na construção dos grandiosos cenários, com destaque para o ar futurista\clean de Xandar, o visual obscuro e sombrio da nave de Ronan e o tumultuado e colorido recanto do Colecionador (Benicio del Toro). Um visual estiloso e excêntrico que em nenhum momento se mostra exagerado ou caricato.


Como se não bastasse isso, o resultado é ainda mais empolgante graças as gigantescas batalhas. Fazendo um belo uso do 3-D, que não se resume a objetos arremessados na tela, Gunn é habilidoso ao arquitetar não só os embates mais coreografados, valorizando a impressionante entrega física de Zoe Saldana e Dave Bautista, como também os impactantes takes aéreos. O clímax, por exemplo, comprova o esforço dos realizadores em apresentar algo realmente genuíno. Melhor ainda, no entanto, é a construção visual de todos os personagens. Cada um dos guardiões tem a sua característica marcante, um elaborado cuidado estético que só amplia o carisma e os traços de suas respectivas personalidades. Desde os olhos vermelhos da máscara de Quill, passando pela bela textura do corpo de Drax e chegando a impressionante concepção de Groot, o detalhismo dos protagonistas chama a atenção, sendo primorosamente explorados por Gunn. Com destaque para o medieval Ronan, visualmente o mais impactante antagonista já desenvolvido pela Marvel.


Por falar nos personagens, o excelente elenco se torna a principal cereja do bolo desta adaptação. Embalados pela já citada ótima química, o quinteto de protagonistas se entrega de corpo, voz e alma aos estranhos personagens. A começar pelo carismático Chris Pratt, uma escolha precisa para dar vida ao egocêntrico e teimoso Peter Quill. Demonstrando uma afiada veia cômica, o ator brilha na instável relação com falastrão Rocket Racoon, voz de Bradley Cooper. Já Zoe Saldana mostra porque está no elenco de três das mais poderosas franquias atuais: Star Trek, Avatar e Guardiões da Galáxia. Desfilando a sua usual versatilidade, Saldana não decepciona como a guardiã mais complexa. A grande surpresa, no entanto, fica pelo ex-lutador Dave Bautista. Apesar da sua brutal força física, muito bem explorada por Gunn, o personagem diverte pelo tom eloquente e rebuscado do seu Drax. Por fim, Vin Diesel faz um cuidadoso trabalho com o encantador Groot. Ainda que só diga "Eu sou Groot" durante a película, cada frase ganha uma entonação diferente, imprimindo as emoções da fantástica árvore humanoide. Vale destacar ainda as boas presenças de Michael Rooker (Yonda), Lee Pace (Ronan) e Karen Gillan (Nebula), trio que rouba a cena sempre que está nela.


Superando as elevadas expectativas em torno do projeto, Guardiões da Galáxia comprova a recorrente ousadia presente nos trabalhos da Marvel Studios. Transformando o supergrupo b dos quadrinhos em um avassalador sucesso de público e crítica, James Gunn nos apresenta uma obra exótica e original, completamente distante do que vem sendo produzido dentro do gênero. Equilibrando de forma primorosa ação, comédia, aventura e o ótimo repertório musical, esta adaptação é um tiro certeiro capaz de reunir toda a essência da Marvel em um mesmo longa.

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