domingo, 29 de junho de 2014

Como Treinar o seu Dragão 2

Soluço e os dilemas do amadurecimento precoce. 

Repetindo toda a ousadia temática do original, Como Treinar o seu Dragão 2 entra para o seleto grupo das continuações que conseguem se igualar ao seu antecessor. Flutuando entre os gêneros com extrema sensibilidade, a animação novamente dirigida por Dean DeBlois é perfeita ao nos apresentar a evolução comportamental de Soluço e sua turma. Embalado pela empolgante construção digital, com direito a um primoroso uso do 3-D, o longa é uma precisa e corajosa fábula sobre os dilemas e as inseguranças envolvendo a precoce chegada da vida adulta. 

Deixando de lado a pegada mais bem humorada das produções do estúdio DreamWorks, Como Treinar o seu Dragão 2 demonstra grande perícia na forma como equilibra os gêneros. Explorando a aventura, o humor e o drama na medida certa, esta continuação encanta pelas decisões ousadas que permeiam a trama. Cinco anos após os acontecimentos do original, Soluço e sua turma conseguiram levar os dragões para a carismática Berk. Com a perfeita existência entre humanos e dragões, Soluço parece relutar aos pedidos do pai em se tornar o líder de toda aldeia. Ao invés de se preparar para atender esse pedido de Stoik, Soluço e o fúria da noite Banguela dedicam boa parte do seu dia para mapear os arredores de sua aldeia.


Contando com a ajuda de sua namorada Astrid, Soluço acaba se deparando com uma misteriosa caverna repleta de dragões. Lá, ele reencontra Valka, sua desaparecida mãe que dedicou boa parte da sua vida para proteger a existência dos dragões. Enquanto alimenta a possibilidade de unir os pais, o perigoso vilão Drago Bludvist surge para atrapalhar todos os planos de Soluço. Apesar de Drago não medir forças para capturar e controlar dragões, na tentativa de construir o mais temido exército do mundo, Soluço parece convicto da possibilidade de convencer o temido vilão da bondade de todos os dragões. O que ele não sabe é que Drago tem planos ainda maiores, que colocarão em risco não só as suas vidas, como principalmente o período de paz dentro da ilha de Berk.


Se o primeiro longa surpreendeu ao nos apresentar uma bela história de tolerância e amizade, o roteiro desta continuação, assinado também por Dean DeBlois, levanta temas bem mais inerentes a essa transição da adolescência para a fase adulta. Abrindo espaço para o desenvolvimento de todos os seus carismáticos personagens, incluindo a entrada do divertido caçador Eret, a trama aposta em soluções extremamente corajosas para nos apresentar a evolução de Soluço. Ainda que o humor e as impactantes sequências aéreas estejam novamente presentes, esta continuação se concentra em momentos mais sensíveis, muitas vezes dramáticos, que só contribuem para o desenvolvimento de temas extremamente recorrentes na precoce juventude atual. Sem a preocupação de fazer rir e empolgar a todo o instante, DeBlois abre espaço para interessantes diálogos e momentos que priorizam o vínculo afetivo entre os personagens. Essa opção, aliás, não só traz mais densidade a história, como também transforma a jornada de Soluço em algo realmente significativo para o espectador.


E isso acontece, claro, sem que toda a preocupação com a estética visual seja deixada de lado. Mantendo os empolgantes takes aéreos, que ganham ainda mais brilhantismo com o primoroso 3-D e as incríveis sequências em primeira pessoa, a construção dos personagens e das exóticas paisagens parecem ainda mais detalhada. Todo o "envelhecimento" dos protagonistas é muito bem concebido, com direito a pequenos cuidados na concepção física de cada um deles. Esmero, diga-se de passagem, já presente no original. A grande diferença nesta continuação, porém, fica pela exploração de uma gama maior de paisagens. Com um belo uso das cores, que não perdem o seu impacto nem mesmo no 3-D, esses cenários acrescentam muito mais do que no original e contribuem para um certo tom épico presente no longa. Méritos, também, para a precisa trilha sonora composta por John Powell, novamente funcional não só nos momentos mais agitados, como também nas cenas mais singelas. A cena em que Valka praticamente baila com os dragões, por exemplo, é apenas uma das provas da perfeita coexistência entre trilha-sonora e animação.


Apostando em uma narrativa arrojada, voltada para crianças e adultos, Como Treinar o seu Dragão 2 é uma daquelas animações que proporcionam uma série de sensações no espectador. Nos sentimos crianças com os voos de Banguela, nos encantamos com o amor entre Stoiko e Valka, nos emocionamos com os dramas envolvendo os desafios de Soluço e, acima de tudo, nos empolgamos com 1 hora e 45 minutos de uma comovente e perspicaz fábula sobre o amadurecimento.

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