segunda-feira, 9 de junho de 2014

Cinemaniac Indica (Pelos Olhos de Maisie)

Abordando a separação matrimonial sob o ponto de vista infantil, Pelos Olhos de Maisie é um daqueles trabalhos que não deveriam passar despercebidos pelo grande público. Dirigido pela dupla Scott McGehee e David Siegel, o longa investe numa abordagem inocente ao revelar o impacto de um divórcio e da consequente ausência dos pais na rotina de uma carente criança. Contando com a cativante atuação da jovem Onata Aprile, que consegue ofuscar a sempre talentosa Juliane Moore, o drama é preciso ao construir esta história a partir de tipos extremamente multidimensionais, valorizados pelo expressivo elenco e pelo surpreendente trabalho da direção.

Baseado no livro homônimo assinado por Henry James, a trama publicada originalmente no ano de 1897 se mostra precisamente atual em sua versão cinematográfica. Apostando no lado humano e falho dos seus personagens, que em nenhum momento são condenados ou taxados por suas atitudes, o longa narra a história da pequena Maisie (Onata Aprile), uma carismática e afetuosa criança que se vê perdida em meio ao litígio de seus pais: a rockstar Sussana (Juliane Moore) e o empresário Baele (Steve Coogan). Em meio as brigas pela guarda da jovem, a Corte acaba decidindo que Maisie tenha os seus cuidados divididos entre os dois. Disposta a revogar esta decisão, Sussanna resolve construir uma relação de fachada com o barman Lincoln (Alexander Skarsgård), na tentativa de melhorar a sua imagem junto à justiça norte-americana. Em meio a este doloroso processo, Maisie tem a sua vida frustrada pelos seus ausentes e relapsos pais, que parecem se preocupar muito mais com os seus respectivos trabalhos do que com os cuidados da filha. Fato que a aproxima, ainda mais, da sua babá Margo (Joanna Vanderham), uma jovem que mantinha um relacionamento secreto com o pai da menina.


Com base nesta complexa trama, os diretores Scott McGehee e David Siegel mostram um cuidado todo especial na condução do drama envolvendo a jovem Maisie. Sem se tornar cafona ou piegas, a jornada da menina é abordada com extrema sensibilidade, valorizada pela fotografia alegre, pela trilha sonora suave e pela sutileza com que a dupla de realizadores constrói a trama a partir do seu ingênuo ponto de vista. Isso, claro, sem esquecer dos dilemas mais sérios em torno do divórcio, incluindo os embates entre os egocêntricos pais e o reflexo desta postura na rotina dos envolvidos neste batalha judicial. O que mais impressiona no longa, no entanto, é a capacidade dos diretores em não julgar as atitudes dos seus personagens. Ainda que evidencie todos os equívocos dos pais, que em alguns momentos beiram a negligência, o roteiro faz questão de deixar claro que eles são apenas humanos e falhos, abdicando por completo da unidimensionalidade. Méritos também para o crível desempenho da dupla Juliane Moore e Steve Coogan, convincente ao ressaltar que os efeitos do divórcio não abatem somente a pequena Maisie. Opção que, aliás, abafa algumas das escorregadas do roteiro, principalmente na forçada solução envolvendo os personagens Margot e Lincoln.


Promovendo uma interessante reflexão no espectador,  Pelos Olhos de Maisie é um retrato sensível e tocante sobre a confusão que o divórcio e a ausência dos pais pode proporcionar na cabeça de uma criança. Afinal de contas, sob o olhar infantil, nem todo dinheiro do mundo pode substituir a importância do simples afeto. 

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