terça-feira, 1 de abril de 2014

Tudo por Justiça

Intensidade e frieza se confundem no realístico novo trabalho do diretor de Coração Louco

Muitos acreditam que o laço de amizade entre irmãos é o mais difícil de ser rompido. Ciente desta crença, o competente diretor Scott Cooper nos apresenta Tudo por Justiça, um intenso e bem concebido drama sobre a relação entre dois irmãos. Vendido erroneamente como um convencional filme de vingança, o longa surpreende pela forma como explora alguns dos problemas envolvendo a atual sociedade norte-americana. Apostando numa estética fria e extremamente crua, Cooper compensa a falta de ação com um roteiro envolvente, marcado por personagens significativos e grandes atuações. No entanto, quem pagou para ver o astro Christian Bale, deve se realmente surpreender com os ótimos desempenhos de Casey Affleck e do assombroso Woody Harrelson. 

E com isso não quero dizer que Bale entrega um trabalho abaixo da sua média. Pelo contrário, já que novamente o astro de Batman e Trapaça mostra porque é considerado um dos melhores da atualidade. Na verdade, os ótimos desempenhos do competente time de atores mostra o quão interessante é o roteiro assinado pelo próprio Scott Copper, ao lado Brad Ingelsby. Na trama, Bale vive Russel, um zeloso trabalhador que tenta dedicar o seu tempo à namorada Lena (Zoe Saldana) e ao irmão Rodney (Casey Affleck). Enquanto trabalha em dois períodos para pagar suas contas, Russel se sente obrigado conviver com as dívidas do irmão, que após servir ao exército no Iraque não consegue se readaptar a pacata vida do interior. Temendo que Rodney se enrolasse com o agiota local John Petty (William Dafoe), Russel resolve pagar parte das dívidas do irmão. Após um trágico acidente de carro, no entanto ele vê a sua vida mudar drasticamente. Após passar um período na prisão, Russel se depara com uma nova e assustadora realidade, principalmente quando seu irmão passa a se envolver com o perigoso Harlan DeGroat (Woody Harrelson) e o violento submundo das lutas clandestinas.


Com base nesta envolvente premissa, Scott Cooper nos apresenta a personagens de aparência fria, mas que guardam uma surpreendente profundidade. A impressão que fica, na verdade, é que nenhum deles é o que demonstra ser. Ainda que a trama realmente tenha um ritmo lento e se estenda além do necessário, o desenvolvimento da densa relação entre os irmãos Russel e Rodney se torna o estopim necessário para prender a atenção do espectador. Apostando na excelente química entre Christian Bale e Casey Affleck, o diretor nos brinda inicialmente com momentos de afetuosidade, de carinho entre os dois, para logo depois nos embrulhar o estômago com uma explosão de realidade. Fazendo um excelente uso da fotografia quase sempre pálida, assinada por Masanobu Takayanagi (O Lado Bom da Vida), Cooper cria uma interessante estética de perigo para os seus personagens. Vide a introdução do assustador DeGroat (Woody Harrelson), numa excelente cena inicial. Melhor ainda, aliás, é a forma como o longa aborda os dilemas do nosso dia a dia. Em meio à jornada de Russel, mesmo que superficialmente, a trama abre espaço para temas atuais no cenário norte-americano, como a separação, o desemprego, a crise econômica e as consequências da guerra. Situações que moldam os personagens e deixam claro o quão injusta pode ser a vida. É só ai, diante dos problemas, que os protagonistas mostram as suas verdadeiras facetas.


Ciente desta carga realística do longa, Scott Cooper aposta em atuações mais contidas. A começar pelo desempenho de Christian Bale, mais uma vez impecável em cena. Em um personagem extremamente expressivo, Bale constrói Russel de forma crível e impactante. Com direito a uma grande evolução em cena, o experiente ator flutua com eficiência entre as emoções do seu personagem. Um grande desempenho que só não é mais impressionante do que o de Casey Affleck. Carregando sempre um aspecto frágil em suas atuações, Affleck repete aqui essa característica marcante de seus personagens. No entanto, é a sua transformação em cena que chama a atenção. Enquanto irmão, Rodney é frágil e deslocado. Já como ex-soldado, Affleck cria um personagem intenso e destemido, que não se esconde de uma boa briga. A cena em que ele tem um rompante de fúria com Bale - sem dúvidas - é uma das melhores do longa. O caçula da família Aflleck, aliás, é seguido de perto por Woody Harrelson. Se o personagem DeGroat não é o dos melhores, principalmente por sua unidimensionalidade, Harrelson compensa com grande entrega. Mantendo aquele ar surtado de seus mais famosos papéis, o ator assusta sempre que está em cena. Mesmo com um típico antagonista em mãos, ele adiciona uma pitada de insanidade que funciona, dando um pouco mais de realidade ao personagem. Vale destacar ainda as boas atuações de William Dafoe, esse sim num tipo interessante, e de Zoe Saldana, impecável como a bela Lena.


Ainda que nomes como os de Sam Sheppard e Forest Whitaker sejam subaproveitados, e que o longa realmente não tenha o ritmo ideal, Tudo por Justiça impressiona por sua maturidade. Apresentando uma narrativa extremamente crível, com personagens muito bem desenvolvidos, Scott Cooper mostra perícia ao conduzir uma obra repleta de dilemas morais. Embalado pela envolvente trilha sonora, com direito a marcante presença da banda Pearl Jam, Cooper é convincente ao mostrar que uma história bem contada pode ser muito mais interessante do que alguns desses vazios e frenéticos filmes ação.


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