terça-feira, 25 de março de 2014

O Grande Herói

Nem a excessiva propaganda pró-EUA atrapalha esse intenso drama de guerra.


Baseado em uma incrível história real, O Grande Herói não é o primeiro longa, e provavelmente não será o último, sobre a recente investida norte-americana contra o terrorismo afegão. Dirigido pelo competente Peter Berg (O Reino), o drama de guerra tinha tudo para ser mais uma daquelas gratuitas patriotadas produzidas por Hollywood. Pra ser bem sincero, confesso que os primeiros minutos de projeção deixaram essa nítida impressão. Logo nos créditos iniciais, somos apresentados a uma desnecessária propaganda dos SEAL'S, a tropa de elite da Marinha norte-americana. Imagens reais mostravam todo o duro treinamento desses soldados e quanto sofrimento eles poderiam aguentar. Essa ode a perícia dos militares norte-americanos, no entanto, em nenhum momento impede que Berg, e seu ótimo time de comandados, nos apresentem um trabalho tecnicamente qualificado. Principalmente por conseguir capturar a verdadeira essência dos fatos: a busca pela sobrevivência. 

Inspirado no livro Lone Survivor, escrito pelo sobrevivente de guerra Marcus Luttrell, o roteiro assinado pelo próprio Peter Berg narra os detalhes da fracassada Operação Red Wings. Nela, em pleno auge da guerra contra os afegãos, um grupo de soldados de elite dos EUA ficam incumbidos de capturar um dos principais nomes do alto escalão talibã. Sob a liderança do comandante Erik (Eric Bana), os militares Marcus (Mark Wahlberg), Michael (Taylor Kitsch), Danny (Emile Hirsch) e Axe (Ben Foster) partem assim para a missão de reconhecimento e de aproximação à vila de Shah (Yousuf Azami), um dos braços direitos de Osama Bin-Laden. O quarteto, porém, acaba sendo surpreendido pela presença de um idoso e dois jovens afegãos. Ciente de que a missão estava corrompida, os quatro acabam se deparando com um dilema moral. Deveriam matar os três e tentar recuperar a missão, ou libera-los e sofrer com um possível contra-ataque do talibã. Apesar de divididos, os quatro decidem libera-los. O que eles não esperavam é que esta opção os colocaria diante de um ataque maciço das tropas de Shah.


Apesar da propaganda de guerra norte-americana e da exploração do perfil heroico dos soldados, o que não é nenhuma grande surpresa em filmes do gênero, Peter Berg mostra muito respeito e destreza ao adaptar essa impressionante história real. Destacando muito bem todas as nuances dos fatos, o roteiro sugere um falso maniqueísmo, que acaba caindo por terra com o contundente clímax da trama. Mesmo sem se aprofundar nas questões morais evolvendo a morte de inocentes, o roteiro não omite as dúvidas que cercaram a decisão dos marines. Com uma narrativa incisiva e extremamente fluída, o longa se esquiva dos dramalhões, não desperdiçando muito tempo em meio as sufocantes cenas de ação. Como de costume, Berg apresenta um empolgante trabalho nesse sentido, conseguindo levar o espectador para dentro das cenas de batalha. Apostando na paisagem rochosa do Afeganistão, o diretor usa e abusa dos takes em primeira pessoa, das quedas entre os barrancos e da exploração gráfica da violência. Incluindo ai um impactante trabalho de maquiagem, que ressalta de forma verossímil os cortes, as fraturas expostas e os ferimentos à bala sofrido pelos soldados. Tudo isso embasado por um excelente desenho sonoro, que só aumenta a sensação de estarmos em meio ao fogo cruzado, e a belíssima fotografia assinada por Tobias A. Schliessler, que contrasta muito bem com a violência apresentada.


Diferente da grande maioria de seus trabalhos, no entanto, Berg mostra aqui um cuidado maior com o aspecto dramático. Ciente da importância desta história, que se tornou um símbolo de inspiração para milhares de leitores em todo o mundo, o diretor tenta tirar o máximo de emoção de seus comandados. Ainda que os personagens sejam apresentados de forma superficial, o roteiro é eficiente ao evidenciar o lado mais humano de cada um dos soldados em batalha, com direito a uma pequena e bem conduzida dose de humor. Um bom roteiro, que acaba permitindo atuações seguras de todo o elenco. A começar pela excelente entrega de Mark Wahlberg (Ted), que demonstra um excelente desempenho não só no aspecto físico, mas também nos momentos de maior intensidade dramática. Com uma grande responsabilidade em mãos, Wahlberg constrói um Marcus crível e intenso. Ele, aliás, é acompanhado de perto pelo subestimado Ben Foster (Alpha Dog). Demonstrando o seu usual talento para tipos fortes, Foster interpreta um dos personagens mais interessantes da trama. Quem também chama a atenção é o competente Eric Bana (Tróia), que apesar do papel secundário, rouba a cena como o comandante Erik. Vale destacar ainda as presenças de Emile Hirsch (Speed Racer), Taylor Kitsch (John Carter) e Ali Suliman (O Reino), que completam o bem conduzido elenco.


Apesar da excessiva propaganda de guera norte-americana e de alguns pequenos deslizes narrativos - a opção de abrir o longa com uma cena final me pareceu um anti-clímax - O Grande Herói é uma edificante homenagem aos milhares de soldados mortos em conflito. Vide os belos créditos finais. Um longa intenso, de aspecto visceral, que não se perde em meio a parcialidade que (geralmente) acompanha a maioria das produções deste gênero. Até porque, quando necessário, o diretor Peter Berg deixa claro quais são os verdadeiros heróis desta impressionante história real.

Um comentário:

sofia martínez disse...

Eu gosto da opção. A proposta militar baseado em uma história real dirigido por Berg visualmente eficaz. Um drama com uma espécie de estudo da condição humana em uma guerra, ou seja, em uma situação extrema. No entanto, nas mãos do diretor Berg é o que ele faz de melhor, de um monte de trabalho, onde os militares é apenas o paradigma de filmes de ação tal ação. Disse que o filme é baseado em eventos reais. A única coisa é que eles são apresentados de uma forma que parece mais um episódio de Missão Impossível em um campo de batalha, com quatro soldados norte-americanos, concebidos como super-heróis contra um monte de Taliban no Afeganistão, como estranho como cruel. Além disso sobrevivente, tem um culto insalubre de guerra, mas escorregou através de suas situações mais difíceis. Isso dá um tom épico espúria à narrativa: a guerra nos dá heróis cuja base é baseado em matar e matar mais e mais humanos. Só precisa levar um ábaco para manter o controle.

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