quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Pais e Filhos

O que vale mais: a ligação genética ou a conexão afetiva?


Vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes em 2013, País e Filhos pode ser considerado um daqueles trabalhos que se vende fácil. Afinal, é impossível não se conectar com o drama de uma família, que após criar o seu primogênito por seis anos, descobre que ele não é o seu verdadeiro filho. Explorando toda a universalidade desse polêmico tema, o longa japonês dirigido por Hirokazy Koreeda parte de uma premissa mais elaborada, para só ai discutir situações recorrentes envolvendo todo o processo de construção familiar. Sob um pragmático ponto de vista asiático, que surpreende pela sua objetividade, o drama levanta de forma contida e singela todos os dilemas sobre as responsabilidades na relação envolvendo pais e filhos. Melhor ainda, porém, é a forma crível como a obra apresenta essa relação no diferente estilo de vida asiático. Pelo menos, para nós ocidentais.

Por mais que a sinopse possa sugerir, eu diria que Pais e Filhos se destaca por ser uma obra extremamente direta. Apesar dos questionamentos complexos, e dos dilemas envolvendo o rumo de dois jovens, Koreeda evita ao máximo que o longa se transforme em um dramalhão. Com argumento assinado pelo próprio diretor, a trama narra a história da sólida família Nonomiya, formada pelo bem sucedido pai Ryota (Masaharu Fukuyama), pela dedicada esposa Midori (Machiko Ono) e pelo cativante menino Keita (Keita Ninomiya). Apostando em um criação rígida, e repleta de preocupações com o futuro de Keita, Ryota acaba dedicando mais tempo ao trabalho do que a própria família. Apesar de sempre demonstrar um carinho pelo filho, Ryota parece um tanto quanto preocupado com a falta de aptidão do garoto para algumas simples tarefas, principalmente, para as aulas de piano. Alimentando o sonho de coloca-lo em uma grande escola, Ryota e sua esposa acabam sendo surpreendidos com a notícia de que Keita não é o seu filho. Na verdade, por uma falha do hospital, o seu verdadeiro primogênito, Ryusei (Shôgen Hwang), foi trocado em plena maternidade sendo criado por uma humilde família de comerciantes. Pelo bem humorado Yudai Saik (Lily Franky) e por sua esposa Yukari Saiki (Yoko Maki). Assombrados por esta inesperada novidade, Ryota e Midori precisam tomar uma devastadora decisão: seguir criado o pequeno Keita, ou troca-lo por seu verdadeiro filho.


Se apoiando no poderoso roteiro, é ótima a opção do diretor Hirokazy Koreeda em não se prender somente ao dilema envolvendo a troca dos bebês. Além de abordar com extremo pragmatismo este tema, o filme amplia a discussão sobre processo de criação e como ele - naturalmente - é passado de pai pra filho. Com um olhar asiático, a trama escapa das soluções mais óbvias e acaba surpreendendo pelas atitudes de seus personagens. Na verdade, ao centrar as atenções no personagem Ryota, destacando inclusive o passado desse homem junto ao seu pai, o longa evidencia a responsabilidade da figura paterna em meio ao processo de formação da criança. Com destaque para o impacto que esta escolha, entre a ligação afetiva ou a conexão sanguínea, pode proporcionar na estrutura familiar. Apesar da narrativa um pouco lenta, principalmente na hora inicial, a forma sóbria com a qual os protagonistas lidam com o tema chama a atenção. Esqueça então todo o costumeiro excesso de lágrimas que, aqui no ocidente, inundam os longas do gênero. Ao invés de se prender às lamentações, o roteiro reforça a praticidade japonesa e busca propor uma complexa reflexão a partir desta situação naturalmente espinhosa. Somado a isso, ao contrastar a riqueza com a humildade, colocando as crianças em meio a esses dois mundos, as opções da trama se tornam ainda mais evidentes. É muito atrativo para nós ocidentais, aliás, a forma como o realizador ressalta a estrutura da tradicionalista familiar japonesa e todas as suas particularidades. Preocupado em explorar temas como o respeito à hierarquia, a submissão feminina e a disciplina oriental, é muito bom o trabalho da direção no que diz respeito a condução do elenco, com destaque para as boas e críveis atuações do time de jovens atores.


Por falar no elenco, cabe a figura paterna vivida por Masaharu Fukuyama a grande responsabilidade por boa parte da densidade dramática do longa. Através de um personagem extremamente contido, que não se permite errar, o ator simboliza bem toda a sobriedade que ronda a projeção, com um desempenho intenso e linear. A figura paterna sisuda, no entanto, acaba sendo contrastada pelo cativante desempenho de Keita Ninomiya. Esbanjando carisma ao longo do filme, Keita demonstra grande química com Fukuyama, tornando crível o complexo relacionamento dos dois. Com grande sensibilidade, o pequeno ator se torna peça-chave para os momentos mais tocantes do longa. Assim como Keita, o pequeno Shôgen Hwang também tem um eficiente desempenho como o jovem Ryusei. Diferente do tom mais singelo de Keita, Shôgen interpreta uma típica criança como ninguém. É inquieto, brincalhão e extremamente questionador, se posicionando de forma contrária a esta troca de família. Além desse trio, vale citar as atuações de Machiko Ono, contida como a quase submissa esposa de Ryota e de Lily Franky, o carismático chefe da família Saik. 


Vale destacar também que o clima sóbrio não se deve somente a atitude dos personagens. Para contribuir com esta atmosfera, a trilha sonora simples e a bela fotografia em tons claros, quase sempre pouco chamativa, evidencia que o foco esta voltado para o dilema envolvendo as crianças, principalmente os que cercam o fofo e carismático Keita. Apostando no poder universal de sua trama e na opção de fugir dos melodramas, Pais e Filhos propõe uma singela reflexão sobre os dilemas envolvendo o processo de criação e o papel de um pai. Um trabalho tocante e simples, que, apesar do tom contido, emociona pelo surpreendente rumo que dá a sua trama. E por mais complexos que sejam os dilemas levantados pelo diretor Hirokazy Koreeda, o longa deixa claro que, sob o ponto de vista infantil, as respostas são bem mais óbvias e simples.

2 comentários:

Reinaldo Glioche disse...

Infelizmente ainda não vi, mas sua crítica reforça a impressão de que estou deixando passar um belo filme. O verei, infelizmente, talvez não seja no cinema. Apesar da fácil identificação que o tema propõe, creio que Koreeda seja um dos poucos cineastas no mundo a potencializar esse conflito. Spielberg, que não à toa comprou os direitos para uma refilmagem americana, com um pouco mais de sentimentalismo, talvez seja outro capaz de tirar muito dessa premissa.
abs

thicarvalho disse...

Essa foi a impressão que tive. Em qualquer outra mão o filme não terá o mesmo impacto. Acredito que aqui no Ocidente será impossível essa abordagem fria dos japoneses. Abs.

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