terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mato sem Cachorro

Criatividade do diretor Pedro Amorim salva filme da mesmice.

Já vimos essa história várias vezes no cinema. Os personagens também são extremamente corriqueiros, assim como o roteiro não faz muito para fugir do lugar comum. Ainda assim, Mato Sem Cachorro consegue um resultado final interessante. Mesmo sem fugir dos clichês das típicas comédias-românticas, o longa de estreia do diretor Pedro Amorim aplica à estas fórmulas já conhecidas boas doses de cultura pop, eficientes piadas e interessantes sacadas visuais, que dão um toque original a uma trama que já foi contada - de diversas formas - outras vezes. 

Com trama assinada por André Pereira, Pedro Amorim, Malu Miranda e Danilo Gentili, baseada na história de André Pereira e Vitor Leite, o longa narra a vida de Deco (Bruno Gagliasso), um jovem desajeitado que parece viver fechado para o mundo em seu apartamento, na zona sul do Rio de Janeiro, editando videos musicais para conseguir sucesso no youtube. Deco divide o apartamento com seu primo Leléo (Danilo Gentili), um paulista folgado que conseguiu um emprego na cidade. Através de uma das trapalhadas de Leléo, Deco acaba quase atropelando um filhote de cachorro e só não é linchado na rua graças a bela Zoé (Leandra Leal). Os dois partem para o veterinário e lá descobrem que o filhote passa por um distúrbio de sono, e que dificilmente seria adotado. Comovidos, a dupla acaba resolvendo ficar com o filhote e iniciam ali um romance, que logo acaba virando um namoro. Dois anos depois, porém, Zoé parece cansada com a vida estagnada de Deco e resolve terminar, ficando com a posse do Guto - o agora grande cachorro. Incomodado com o abandono, e com o fato de sua ex-namorada começar um relacionamento com um empresário bem sucedido, Deco resolve tomar a primeira atitude extrema de sua vida: sequestrar o seu próprio cão. 


Em cima dessa trama já batida, o diretor Pedro Amorim não esconde as suas inspirações no cinema pipoca hollywoodiano. Pelo contrário, já que ele explora as fórmulas de maior sucesso na atualidade, incluindo o sub-gênero "bromance" - uma forte ligação entre amigos - conseguindo um resultado eficiente, que acerta ao não se levar tanto a sério. Apesar do roteiro apelar para algumas situações já muito batidas, que ainda hoje seguem se repetindo ano após ano, é inegável que a trama tem também seus méritos. Filmes sobre animais são muitos, mas um que escala um cachorro com narcolepsia - ele apaga após qualquer excitação - é realmente engraçado. Melhor ainda é a preocupação dos roteiristas em adicionarem diálogos ligados à cultura pop, com diversas referências interessantes, principalmente a série Caverna do Dragão. Todos esses diálogos funcionam bem com a dupla Danilo Gentili e Bruno Gagliasso, que com uma interessante química acabam construindo uma mistura impensável. Vale destacar também a inusitada trilha sonora, que vai do brega ao atual, brincando com um fenômeno recente da internet: os mashups. Aquelas combinações de músicas diferentes - voz de um ritmo de outro - que quando unidos acabam dando uma roupagem totalmente interessante. Essa situação rende boas sacadas, como criativos números musicais e uma piada - que logicamente não vou revelar - com uma reconhecida cantora. 


A grande questão é que o desenvolvimento da trama não acompanha esses acertos citados acima. Se o diretor Pedro Amorim mostra criatividade ao conduzir o longa, a cena no restaurante português é hilária, o roteiro se apega a piadas batidas em diversos momentos. É sério que alguém ainda acha graça de piadas de anão, de cachorros no cio, ou as de péssimo gosto envolvendo o nado sincronizado. Além disso, as sub-tramas são pouco interessantes. Com exceção do trio de protagonistas, e de algumas participações especiais interessantes, como as de Flavio Migliaccio, Gabriela Duarte, Rafinha Bastos e Felipe Rocha, o elenco de apoio não acrescenta muito a trama.


Por falar no elenco, apesar do esforço de Bruno Gagliasso, é Danilo Gentili o grande destaque do longa. Um dos responsáveis também pelo roteiro, Gentili parece interpretar um personagem bem próximo ao que está acostumado a viver na TV. Se apoiando bem nesses diálogos mais pop, Gentili está muito a vontade interpretando Leléo e rende as melhores piadas do filme. Já Gagliasso, acaba convencendo mesmo sem viver um personagem comum dentro de sua carreira. É lógico que o tipo nerd\desajeitado dele está bem exagerado, mas o ator não decepciona na comédia, conseguindo se manter no nível do seu colega "profissional" de cena. Pra fechar essa trinca, a competente Leandra Leal foi uma escolha certeira. A atriz, sempre versátil, constrói uma boa personagem, uma mulher moderna e dinâmica. Ainda sobre o elenco, as participações de Gabriela Duarte e Felipe Rocha chamam a atenção. Gabriela vive um personagem bem diferente dos que costuma interpretar, uma mulher fogosa e com problemas alcoólicos que realmente diverte. Já Felipe é a principal surpresa do longa. O ator tem boa participação na construção musical, conseguindo ótimos mashups, com direito a misturas extravagantes.


Apesar de irregular, Mato sem Cachorro acerta ao tentar importar as fórmulas mais atuais dentro da comédia-romântica hollywoodiana. Não quero aqui discutir se isso é o ideal, mas em uma época onde cada vez mais "nada se cria, tudo se copia", que pelo menos busque a inspiração nas fórmulas certas. Uma comédia atual, de bom ritmo, que pode representar um caminho a ser seguido dentro do gênero nacional.

  

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