quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Cinemaniac Indica (A Morte do Super-Herói)

O câncer é hoje um dos grandes desafios para os médicos e, sem dúvidas, uma das doenças que mais tem assolado a população mundial. Consequentemente, assim como nas décadas de 1980 e 1990 dramas sobre a AIDS ganharam um grande espaço dentro da sétima arte, nesta última década filmes envolvendo pacientes com câncer tem conquistado boas abordagens dentro do cinema. Nos últimos anos, longas como Uma Prova de Amor (2009), Biutiful (2010) e 50\50 (2011) abordaram o problema sob perspectivas interessantes, fugindo dos dramalhões e construindo interessantes tramas. E um dos representantes do gênero que mais me agradaram foi A Morte do Super-Herói, um filme inglês do ano de 2011 que analisa a doença sob o ponto de vista de um adolescente, traçando um paralelo entre a sua vida e os heróis das histórias em quadrinhos.

Com um visual que chama a atenção, principalmente por usar a mistura do live-action com a animação, o longa dirigido por Ian Fitzgibbon se torna - verdadeiramente - um interessante filme pela forma como explora as ansiedades de um adolescente comum, em meio a essa complicada doença. Na trama conhecemos Donald (Thomas Brodie-Sangster), um jovem de 15 anos cheio de insegurança e dúvidas. Alimentando uma rebeldia acima da média, o adoecido garoto acaba encontrando uma "válvula de escape" nos quadrinhos e no seu talento para desenhar. Para isso ele cria um herói sem nome, um justiceiro, que mesmo sendo seguido de perto por seus vilões tenta manter a sua rotina de atos heroicos. Todo seu talento e sua rebeldia, porém, colocam Donald em alguns problemas com a polícia, principalmente quando ele resolve pintar alguns de seus personagens em ambientes públicos. Ciente do comportamento do filho, os pais James (Michael McElhatton) e Renata (Sharon Horgan) buscam uma última tentativa de amenizar os problemas do jovem e, temendo o suicídio, contratam o psicólogo Dr. Adrian King (Andy Serkis), um profissional pouco ortodoxo que vai tentar construir uma relação de amizade com o garoto. No entanto, tudo realmente começa a ganhar uma perspectiva na vida de Donald quando ele conhece Shelly (Aisling Loftus) e passa a viver a sua primeira, e talvez última, experiência amorosa. 


Conseguindo explorar muito bem essa rebeldia do jovem, e os consequentes problemas de relacionamentos com os pais, o roteiro assinado por Anthony McCarten, que também é o autor do livro que inspirou o longa, tem como grande sacada o fato de conseguir imprimir uma abordagem extremamente natural sobre a juventude.  Apesar da grave doença e da possibilidade de perder a vida, Donald é tratado como um jovem comum, e como acontece com quase todos os jovens, as incertezas envolvendo a sexualidade acabam se tornando um ponto chave na trama. Nesse ponto, é louvável o tom realista adotado no longa, que não poupa o espectador da possibilidade do pior, já que o próprio personagem resolve viver cada dia como se fosse o último. Inclusive, grande parte dos momentos mais leves da trama estão ligados, justamente, ao futuro sexual do jovem e a possibilidade dele conseguir ter a sua "primeira vez" antes de ver a sua situação piorar. Todas essas inseguranças, aliás, se refletem também no justiceiro construído pelo jovem, um super-herói que parece lutar contra os maiores medos do protagonista. A partir desta interessante metáfora, potencializada pelas criativas inserções animadas, McCarten adiciona novas possibilidades a esta premissa, transformando o filme numa obra de característica bem particular. 


Além da estética diferenciada, o elenco também chama a atenção. O destaque vai para Thomas Brodie-Sangster (Simplesmente Amor), que consegue interpretar um personagem repleto de sentimentos, indo dá fúria ao afeto ao longo da trama. Além dele, vale destacar também a boa atuação do sempre competente Andy Serkis, que aqui vive um psicólogo que se torna uma espécie de confidente do jovem. Somado aos dois, o elenco de apoio apresenta ainda a competente atuação de Michael McElhatton, muito bem na pele do pai de Donald. 


Trazendo uma abordagem interessante para os filmes do gênero, A Morte do Super-herói acima de tudo é um belo retrato sobre como a doença pode influenciar o modo de vida de um jovem. Um longa de linguagem atual, que contextualiza os problema através dos desenhos, refletindo muito bem todas as inseguranças e incertezas que assombram um adolescente com uma doença terminal. Um drama eficiente, que, sem apelar para os melodramas baratos, consegue cativar e acima de tudo emocionar o espectador.

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