segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cinemaniac Indica (Os Olhos de Julia)

Tecnicamente criativo, longa peca nos detalhes mas ainda assim assusta

Produzido por Guillermo del Toro, o mesmo de O Orfanato e O Labirinto do Fauno e do recente Círculo de Fogo, Os Olhos de Julia é um daqueles filmes que se propõe a fazer algo diferente. Mesmo tendo passado quase que despercebido pelo Brasil, o longa dirigido por Guillem Morales cria um suspense sufocante, que explora com primor a temática central da trama: a cegueira. Apesar desta originalidade técnica,  o roteiro apresenta algumas deslizadas, que graças ao ótimo elenco, a boa direção e ao dedo de Del Toro não prejudicam o resultado final deste eficiente suspense.

É interessante ver a perícia do jovem diretor Guillem Morales que, apesar da pouca experiência, mostra originalidade na tentativa de mostrar a cegueira através das câmeras. Enquanto o brasileiro Fernando Meireles, no super elogiado Ensaio sobre a Cegueira, optou por cores mais claras e imagens quase brancas, Morales opta pela estética da escuridão. Enquanto a personagem de Julia (Belen Rueda) apresenta uma cegueira parcial, o diretor aposta em imagens turvas e nubladas pra demonstrar a deficiência sob o ponto de vista do espectador. Já quando ela passa pela cirurgia, e fica sem enxergar, a câmera passa a não focar mais nos personagens. A partir dai todos os integrantes deixa de ter face, quase sempre filmados do pescoço pra baixo, levando a perspectiva plena da cegueira para o espectador. Este recurso, aliás, tem muito haver com o teor da trama, e bem explorado pelo diretor, cria cenas sufocantes. Além da técnica, Morales mostra ousadia na parte final da trama, criando um antagonista perturbador que promove algumas cenas de grande impacto visual.


Com o roteiro assinado pelo próprio Morales, ao lado de Orion Paulo, Os Olhos de Julia conta a história da personagem que dá nome ao filme (Belen Rueda), uma observadora do espaço, portadora de uma rara doença degenerativa que, aos poucos, vai diminuindo a qualidade da visão. A situação só piora quando Julia descobre que sua irmã gêmea, também portadora da mesma doença, se suicidou. Visivelmente atordoada com a situação, Julia não acredita que a irmã tenha tirado a própria vida, e começa a desconfiar que alguém a assassinou.  Apesar da descrença de seu marido Isacs (Lluis Homar) e da policia, Julia parte numa investigação particular, e acaba descobrindo que ela não estava tão sozinha quanto parecia e que a cegueira pode trazer um senso de percepção extremamente perigoso.

Explorando bem esta espécie de metáfora sobre a maior percepção do cego, por mais incrível que pareça, as falhas do roteiro não atrapalham o desenvolvimento da trama, que é bem resolvida e guarda boas surpresas ao longo do filme. Os problemas estão nos pequenos detalhes, que pecam pela obviedade para dar liga a trama. São situações que podem nem chamar tanto a atenção, mas para os olhares mais atentos, vão causar certo incomodo. Como pode, por exemplo, uma mulher recém-operada que vem se sentindo perseguida, optar por deixar o hospital para ficar sozinha na casa da irmã que acabou de se suicidar. Decisões como essas, que acabam tornando a trama óbvia em alguns momentos, o que felizmente não toma maiores proporções graças a qualidade do elenco.


Principalmente de Belen Rueda, atriz que já trabalhou com Del Toro em O Orfanato e aqui repete a ótima atuação. Conseguindo adicionar tensão ao seu personagem, Rueda promove uma interessante mistura entre fragilidade e força, que acaba sendo destacada na hora final do filme.  A atriz vai bem também nas partes mais dramáticas, mostrando boa química com seu "marido" Luis Omár (Abraços Partidos). Outro grande destaque da trama fica pelo talentoso antagonista Dani Codina, que mesmo com a pouca experiencia, cria um personagem assustador e protagoniza ótimas cenas com Belen Rueda.

Tecnicamente bem filmado, Os Olhos de Julia deixa a feliz sensação que ainda existem realizadores que buscam fazer algo diferente. Mesmo com algumas falhas no roteiro, o longa é eficiente na arte de criar um clima, promove tensão e mostra por que Guillermo Del Toro é hoje um dos cineastas mais cultuados. Suspense de encher os olhos, com o perdão do trocadilho. 

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