sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Artista

Flertando aparentemente com o passado, longa se mostra um dos mais inovadores trabalhos dos últimos anos

Narrando um dos maiores medos nos bastidores da transição do Cinema Mudo para o Falado, O Artista é uma prova viva de que o passado e o contemporâneo podem coexistir dentro da sétima arte. Não se engane pela aparência envelhecida, mudo e em película preta e branca. O Artista é uma obra incrivelmente inovadora, que apesar de flertar com o "velho" cinema, não se esquece do atual, nos brindando com um trabalho original e intensamente cativante. Méritos para o grande elenco e para a direção de Michel Hazanavicius, que utiliza o "velho" como recurso, encontrando soluções criativas para superar a falta do advento da fala. Não é por menos que o longa foi o grande vencedor da última edição do Globo de Ouro, e chega ao Oscar como um dos favoritos à Melhor Filme do último ano.

Se passando durante a década de 1920, O Artista narra a história de George Valentin (Jean Dujardin), um astro de ação do cinema mudo, que colecionava fama e sucessos em todos os seus trabalhos. Justamente numa dessas pré-estreias, Valentin acaba esbarrando em Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma bela jovem que de cara chama a atenção do astro. Coincidências a parte, Peppy é escolhida como uma das coadjuvantes do novo trabalho de Valentin, e com a ajuda do ator passa a ganhar o seu espaço no mundo do cinema. O que Valentin não sabe, é que o seu reinado está perto de ruir, principalmente quando surge o cinema falado. Com problemas nesta transição, ele terá de lutar contra o orgulho, e muitas outras dificuldades, para tentar voltar a ser estrela em meio a este novo recurso cinematográfico.


Conseguindo ser extremamente fiel a toda estética do clássico cinema mudo, que se apoiava na expressividade e na poderosa trilha sonora, O Artista tem como grande êxito o ritmo que consegue dar à trama. Mesmo apresentando este "ar" envelhecido, o longa tem uma edição rápida e original, que consegue suprir bem a ausência do recurso da fala. Apostando em cenas repletas de simbolismo, é interessante ver como o diretor Michel Hazanavicius encontra soluções inteligentes para facilitar a compreensão do espectador, obviamente acostumado ao cinema falado. Desde recursos interessantes de montagem, como a ascensão meteórica de Peppy Miller através dos créditos de seus filmes, até momentos de maior sensibilidade, como nos muitos conflitos sonoros por qual passa o personagem de Valentin, tudo contribui para o bom andamento do filme e para o empolgante desfecho da trama.

Destaque para o roteiro assinado pelo próprio Michel Hazanavicius, que não se apega ao óbvio e consegue criar um arco intrigante no desenvolvimento dos seus personagens. Presando pela objetividade e sinceridade, a história é narrada sem grandes voltas, de forma tradicional, mas visivelmente eficiente. Sabendo explorar com fidelidade um dos grandes temores na transição do cinema mudo para o falado, o roteiro destaca com precisão os muitos conflitos internos de Valentim, abrindo espaço para cenas impactantes, diga-se de passagem, muito bem dirigidas por Hazanavicius. Com direitos a takes expressivos, repleto de metáforas, o diretor consegue evidenciar os transtornos do personagem nesta transição do cinema. Vale destacar ainda a excelente trilha sonora composta por Ludovic Bource, que funciona como uma espécie de protagonista em muitos momentos do filme, acrescentando ainda mais sentimentos à bela história contada em O Artista.

Como boa parte dos grandes filmes do Cinema Mudo, no entanto, O Artista se torna uma obra prima graças a empolgante atuação do elenco, mais precisamente da dupla Jean Dujardin e Bérenice Bejo. Pouco conhecidos no cenário internacional, os dois brindam o espectador com atuações envolventes, repletas de energia e expressividade. Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Ator de Drama, Dujardin tem uma interpretação tocante, conseguindo fluir do canastrão astro George Valentin à uma problemática e temperamental ex-estrela de Hollywood. Mostrando ótima química com o ator, Bérenice Bejo dá um sopro de vida ao filme. Diferente da grande maioria dos longas mudos, onde as damas eram geralmente moças indefesas objetos de desejo para os galãs, aqui vemos uma personagem forte e decidida, muito bem interpretada pela atriz francesa. Além da dupla, O Artista apresenta ainda apresenta boas atuações dos conhecidos John Goodman (Os Flinstones) e James Cromwell (O Porquinho Atrapalhado), e do cachorro de Valentin, que infelizmente não foi creditado, mas tem uma das melhores performances caninas que o cinema já viu.

Envolvente do inicio ao fim, O Artista é um daqueles filmes raros, um longa que mesmo se apoiando numa estética ultrapassada consegue trazer algo de novo ao cinema atual. Sem a pretensão de representar uma ode ao clássico, apesar das aparências, o longa se destaca como uma obra verdadeiramente vanguardista, encontrando no passado uma fórmula que ainda se mostra extremamente atual. Infelizmente, uma obra de arte que não teve o espaço merecido, muito em função da adesão popular às novas tecnologias cinematográficas. Numa referência ao próprio filme, podemos dizer que O Artista se torna uma espécie de George Valentim em meio ao cinema atual, repleto de efeitos digitais e do tão lucrativo 3-d.


3 comentários:

Juliano disse...

"Numa referência ao próprio filme, podemos dizer que O Artista se torna uma espécie de George Valentim em meio ao cinema atual, repleto de efeitos digitais e do tão lucrativo 3-d."
Boa sacada! Assisti hoje e curti muito.

Isabela Guedes disse...

Thiago, já repecurti o teu blog no Blog do Rádio Carioca, a Memória do Rádio Esportivo na internet.

Um abraço,

Isabela Guedes- jornalista e amante da Rádio Nacional.

http://blogdoradiocarioca.blogspot.com

thicarvalho disse...

Valeu Juliano, volte sempre. Mto Obrigado Isabela, tb estou sempre de olho no seu blog. abs gente e mais uma vez obrigado pelas visitas.

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