terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas


Filme apresenta retrato leve e sensível sobre o drama de mulheres negras na luta pelos direitos raciais

Um dos principais concorrentes ao Oscar 2012, Histórias Cruzadas chegou aos cinemas brasileiros cercado de expectativas pelo seu ótimo desempenho lá fora. Mesmo abordando um dos temas mais complicados para a sociedade americana, o longa opta por explorar com sensibilidade surpreendente o drama das mulheres negras no Mississípi, durante a década de 1960, no auge da luta pela igualdade racial. Sem fugir dos temas logicamente mais duros, o filme dirigido e roteirizado pelo inexperiente Tate Taylor aposta em uma narrativa delicada e na grande atuação do elenco para se tornar uma das grandes surpresas do ano de 2011.

Baseado na obra literária de Kathryn Stockett, The Help no original, trata a temática do racismo sob o ponto de vistas das babás negras, que durante este período, deixavam seus lares, suas vidas, para se responsabilizar pela educação das crianças brancas. Mesmo com essa importante função, muitas delas ainda sofriam com a desigualdade racial, sendo constantemente humilhadas pelas patroas brancas. Incomodada com esta situação, e de olho em um emprego como escritora em Nova Iorque, a promissora jornalista Eugenie Sketter (Emma Stone) resolve escrever um livro para mostrar a relação dessas mulheres com as famílias brancas da cidade de Jacksons. Mesmo temendo por represarias, Sketter consegue algumas adesões, como as das empregadas Abbie (Viola Davis) e Menny (Octavia Spencer), que cansadas de tanta humilhação, resolvem contar os seus dramas no trabalho para elite branca do Mississípi. 

Apesar da trama ter como foco central o drama das empregadas negras, o longa não esquece de outros temas, ressaltando histórias que só contribuem para o acréscimo de ritmo a trama. Com personagens bem definidos, mas sem grandes nuances de personalidade, o roteiro também assinado por Tate Taylor não se prende apenas à questão racial e aborda diferentes conflitos. Como, por exemplo, os de Celia Lee Foot (Jessica Chastain), uma jovem excluída após roubar o namorado da principal líder feminina dessa elite branca (Bryce Dallas Howard), ou então o da própria Sketter (Emma Stone), que além de conviver com a doença da mãe, tem que lidar com certo preconceito pelo seu estilo independente. Situações que narradas de uma forma bastante tradicional, acabam se cruzando com extrema naturalidade durante as quase 2 horas e meia de projeção, dando leveza e consistência ao andamento da trama. 

Vale ressaltar, aliás, o belo trabalho de Tate Taylor, que apesar da pouca experiência na direção consegue dar um ar sutil à toda história, mesmo sem fugir dos temas mais complexos. Com a mão certeira tanto nas cenas mais dramáticas, emocionantes e sutis, como naquelas de alívio cômico, habilmente utilizadas ao longo da trama, o diretor consegue, por mais incrível que pareça, dar uma visão leve ao longa. Fato que também se deve a bela fotografia, já que boa parte das cenas são rodadas durante o dia, realçando a bucólica paisagem do Mississípi. Vale destacar também a direção de arte do longa, que com fidelidade história, consegue retratar um pouco do estilo daquela sociedade, desde os figurinos impecáveis, até a reconstrução da pequena e conservadora cidade de Jackson's.

Mas se Vidas Cruzadas conquistou o posto de uma das grandes surpresas de 2011, isso se deve ao seu poderoso elenco feminino. Apesar do principal nome ser o da queridinha Emma Stone, o foco das atenções se volta para Viola Davis, e mais uma vez ela não decepciona. Na pele da vibrante Abbie, Viola consegue uma atuação contida e emocionante que, inclusive, já lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática. O filme conta ainda com a surpreendente atuação de Octavia Spencer (Um Jantar para Idiotas) - vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante - que na pele da também babá Menny, equilibra muito bem o drama e a comédia, e com a talentosa Jessica Chastain, encantadora a cada aparição como a espevitada Celia Lee Foot. Destaques também para a sempre competente Bryce Dallas Howard (A Dama na àgua), certeira e revoltante na pele da antagonista Hilly, para a experiente Sissy Spacek, e claro, para Emma Stone (Zumbilandia), que mais uma vez dispensa comentários. 

Com atuações primorosas, uma direção de arte extremamente fiel, trilha sonora envolvente e  pouquíssimos deslizes, Histórias Cruzadas explica ao longo das duas horas e vinte de projeção porque se tornou uma das grandes sensações do ano que terminou, ocupando por três semanas a lideranças nas bilheterias norte-americanas. Uma obra original, vibrante e simples, que apesar do clima leve, faz um retrato fiel e contextualizado sobre o preconceito racial que existiu, e ainda vigora, em muitos lugares do mundo.


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