segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Paradoxo Cloverfield - The Cloverfield Paradox

Quando o marketing é melhor que o filme

Com o triunfo do instigante Rua Cloverfield, 10 (2016) e a promessa de uma franquia inovadora capaz de se sustentar em projetos independentes, O Paradoxo Cloverfield (antes conhecido como The God's Particle) ganhou um status até então inédito dentro da série. Cercado de expectativas, o longa produzido por J.J Abrams ganhou forma em sigilo, reunindo um elenco promissor no que surgia como o título mais ambicioso do selo. Aos poucos, porém, o mistério perdeu força. Num momento em que o 'hype' parece ser uma peça chave para o êxito comercial de um blockbuster, a falta de um material de divulgação mais consistente fez com que o Sci-Fi caísse no esquecimento, levantando uma série de dúvidas sobre a qualidade do material apresentado. Eis que, numa sacada de mestre, Abrams mostrou porque se tornou referência quando o assunto é o marketing em torno dos seus trabalhos. Num dos eventos esportivos\televisivos mais populares do mundo, o Supebowl, a Netflix atestou a sua ousadia empresarial a anunciar que The Cloverfield Paradox (no original) seria lançado no seu serviço de streaming logo após o término da partida. Naquele momento, com um teaser de poucos segundos, a companhia (e o filme por consequência) voltou as manchetes nos principais sites de cultura pop, eclipsando a campanha de produções do porte de Missão: Impossível - Fallout e Solo: Uma História Star Wars. Um trabalho de divulgação exemplar que, indiscutivelmente, se revelou bem melhor que o próprio filme em si. De longe o título mais fraco da trilogia, a ficção científica dirigida por Julius Onah peca ao subaproveitar os seus próprios conceitos, esvaziando algumas boas premissas em prol de personagens rasos, um roteiro recheado de soluções ilógicas e um clima de tensão que sustenta majoritariamente pelos predicados técnicos da película. Ainda assim estamos diante de uma obra com a marca Cloverfield, um filme com o suspense e o senso de entretenimento que ajudaram a dar relevância a esta curiosa franquia. 


Confesso que, diante da péssima recepção da crítica internacional, as minhas expectativas estavam lá baixo com relação ao nível de qualidade de O Paradoxo Cloverfield. O que, de certa forma, pode explicar a minha condescendência com o filme como um todo. Por mais que as falhas sejam nítidas e interfiram em todos os aspectos da obra, o longa se arrisca ao tentar algo diferente, se distanciando dos lineares dois primeiros títulos ao transitar por temas bem mais complexos. Influenciado por referências dentro do segmento, entre eles o clássico Alien: O Oitavo Passageiro, o cult Sunshine: Alerta Solar e o impactante Gravidade, o roteiro assinado por Oren Uziel (Anjos da Lei 2) não foge da raia quando o assunto é as questões mais truncadas, preenchendo a trama com conceitos naturalmente reconhecíveis aos olhos dos fãs do gênero Sci-Fi. Sem querer revelar muito, o 'plot twist' defendido por Julius Onah é genuíno e satisfatório, principalmente pela maneira audaciosa com que o argumento tenta explorar uma das teorias mais espinhosas da física. Eu disse tenta, porque as falhas de execução e a falta de lógica impedem que o longa alcance o patamar dos seus antecessores. Na verdade, apesar da já citada ambição em torno do projeto, a impressão que fica com meia hora de fita é que ninguém parece levar o tema muito a sério. Os diálogos são recorrentemente fracos, os alívios cômicos pessimamente empregados, as reações dos personagens são por vezes esdrúxulas. E que desperdício de elenco. Um erro que, diga-se de passagem, tem se repetido em alguns títulos do gênero, vide os recentes Alien: Covenant e Passageiros. 


Na trama, diante de uma crise energética de grandes proporções, algumas das principais nações do mundo, entre elas o Brasil (risos irônicos), se uniram numa missão para lançar na órbita da Terra um dispostivo que geraria uma fonte capaz de solucionar este problema. Comandado pelo sensato Kiel (David Oyelowo), a equipe formada pela dedicada Hamilton (Gugu Mbatha-Raw), pelo irritadiço Schmidt (Daniel Brühl), pelo sensato Monk (John Ortiz), pelo abobalhado Mundy (Chris O'Dowd), pelo nervoso Volkov (Aksel Hennie) e pela genial Tam (Ziyi Zhang) vinha encontrando problemas para estabilizar o equipamento. Diante dos crescentes conflitos na Terra, o grupo, após anos de tentativas frustradas, consegue testar o aparelho pela primeira vez. Após segundos de êxtase, entretanto, eles descobrem que o nosso planeta desapareceu no universo, o que só reforça o clima de paranoia e desespero dentro da nave. 


Sustentado por uma série de soluções narrativas bizarras, daquelas que o próprio roteiro nem se dá ao trabalho de justificar, O Paradoxo Cloverfield se revela o tipo de filme que exige uma generosa dose de descompromisso do público. E isso é uma pena já que, por diversas vezes, o longa apresenta ingredientes bons o bastante para fisgar a nossa atenção. Num primeiro momento, por exemplo, Julius Onah é sucinto ao sugerir um promissor duelo geopolítico entre os tripulantes, um dilema denso que, sabe-se lá porque, logo é esquecido dentro da trama. Não demora muito, porém, para percebermos o desleixo do realizador quando o assunto é a construção dos personagens e do elo entre eles. Embora os diversificados arquétipos sejam bem estabelecidos, a película falha ao não valorizar os conflitos internos, as relações mais íntimas e o esforço mútuo na luta para a estabilização do dispositivo. Os mais de dois anos no espaço em nenhum momento ficam impressos em tela. Além de rasos, a maior parte dos tripulantes soa descartável aos olhos do público, uma falha irreparável num thriller de sobrevivência. No momento em que o argumento se concentra na jornada emocional da intensa Hamilton, entretanto, o Sci-Fi faz jus ao gênero ao trazer o fator humano para o centro da trama. O único elemento bem trabalhado do começo ao fim dentro da história, o arco da protagonista está à altura do selo Cloverfield, um predicado valorizado pela magnética presença da talentosa Gugu Mbatha-Raw. Sem querer revelar muito, a interação entre ela e a enigmática personagem vivida pela competente Elizabeth Debicki sustenta a história nos dois últimos atos, reparando os excessos no que diz respeito a utilização do elemento Sci-Fi dentro da trama. 


É aqui, aliás, que The Cloverfield Paradox se torna realmente divisivo. Por mais que o 'plot twist' busque a sua lógica num intrigante conceito físico, Julius Onah o faz com enorme inverossimilhança cientifica, investindo em soluções narrativas frágeis e\ou absurdas. O que fica bem claro, por exemplo, na inusitada sequência envolvendo um braço ambulante, um momento conceitualmente mal resolvido que só ajuda a fortalecer a atmosfera de descompromisso que cerca o longa. Somado a isso, ao longo do segundo ato o roteiro tenta tirar do papel uma espécie de ameaça invisível, uma "presença" inicialmente promissora, vide o clima de paranoia em torno do atormentado Volkov, mas que é simplesmente abandonada na segunda metade da película. Por diversas vezes, inclusive, a impressão que fica é que o errático roteiro parece não confiar no seu próprio (e subaproveitado) potencial, já que para cada acerto do longa existe um grande tropeço. Ainda assim, na transição para o último ato, The Cloverfield Paradox ganha vigor extra no momento que se concentra nas suas qualidades. Após descartar as peças irrelevantes e os pífios alívios cômicos, Onah compensa ao reforçar os conflitos entre os protagonistas, ao trocar as explicações científicas pelo viés humano, um elemento potencializado pelo interessante arco terrestre do personagem vivido por Roger Davies. Num todo, aliás, o realizador faz um criterioso uso do imersivo cenário ao construir um 'mise en scene' ágil e dinâmico realçando o clima de tensão ao apostar em fluídos 'traking shots' e em nervosos planos fechados. Além disso, mesmo limitado pelo orçamento, ele investe em efeitos visuais bem resolvidos, tornando as pontuais cenas espaciais bem dignas. 


No final das contas, embora pense alto, The Cloverfield Paradox se revela uma ficção científica disfuncional, um filme com inúmeros equívocos (a maioria deles narrativos) que se contenta em construir uma relevante protagonista e uma explicação ao menos plausível para a origem da misteriosa criatura que invadiu os EUA há uma década. Uma justificativa genérica, mas coerente, diferente da maioria das soluções pensadas pelo roteiro.

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