quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Dez grandes filmes que (quase) passaram despercebidos no Brasil em 2017



Mais um final de ano se aproximando e chegou a hora de começarmos o nosso balanço sobre o melhor do cinema em 2017. E que ano positivo para Sétima Arte. Me arrisco a dizer que, desde 2013, não tínhamos uma "safra" tão criativa e corajosa. Perdidos em meio aos imponentes blockbusters, entretanto, alguns ótimos títulos não conseguiram grande destaque nos cinemas brasileiros. E nem tão pouco aqui no blog Cinemaniac. Neste artigo especial, portanto, decidi escrever sobre dez destes filmes que não conquistaram o reconhecimento merecido, mas, graças ao veloz (e abrangente) mercado VOD, alcançaram um público maior que o possibilitado pelo "claustrofóbico" circuito artístico. Vale frisar que, como de costume aqui no Cinemaniac, as nossas listas de final de ano seguem o calendário nacional, reunindo os longas lançados nos cinemas brasileiros (ou diretamente via streaming) em 2017. Dito isso, começamos com...

- Eu, Daniel Blake (Bilheteria Brasil: US$ 183 mil)


Um verdadeiro soco no estômago, Eu, Daniel Blake esbanja universalidade ao escancarar o descaso do Estado para com o povo. Por mais que a trama se passe na Inglaterra, o longa dirigido pelo experiente Ken Loach (Kes, Ventos de Liberdade) reflete sobre problemas indiscutivelmente comuns ao expor a indignidade por trás da políticas assistencialistas. Reconhecido pelo seu olhar humano, o realizador irlandês revela através do seu protagonista, o pacato Daniel, o quão degradante se tornou a busca pelos direitos mais básicos de qualquer cidadão. Impulsionado pelo soberbo trabalho do carismático Dave Johns, magnífico ao traduzir o cansaço e a revolta de um trabalhador cinquentão envolvido numa inglória jornada na luta por um seguro doença, Loach enche a tela de sentimento ao mostrar o impacto da burocracia e do desdém estatal na rotina de um homem com "muito a oferecer". Por mais que o foco esteja na figura de Daniel, o realizador é cuidadoso ao ampliar o escopo da trama, reforçando o aspecto social da sua película ao se aprofundar em temas como a desigualdade, o desemprego e o desespero dos cidadãos "abandonados" pelo governo. 


Por trás de temas tão dolorosos, entretanto, Ken Loach fascina ao realçar a solidariedade entre os desfavorecidos. Embora pese a mão em alguns momentos, um alternativa compreensível, principalmente, quando o assunto é a maneira "fria" com que o longa pinta os representantes do Estado, o diretor é astuto ao extrair o melhor dos seus humanos protagonistas, ao mostrar o esforço deles para seguir de cabeça erguida diante da carência de recursos financeiros. Da relação terna entre Daniel e a aflita mãe solteira vivida pela expressiva Hayley Squires, aliás, nascem alguns dos momentos mais marcantes do longa, muito em função da sensibilidade de Loach ao reproduzir o estado de espírito dos seus personagens.  Impecável ao valorizar a doçura por trás de uma premissa naturalmente amarga, Eu, Daniel Blake é, em sua essência mais pura, um filme sobre a amizade. Um retrato realístico sobre dois indivíduos que, diante do descaso governamental, uniram as suas forças em busca de direitos básicos como o respeito, o conforto e a dignidade. Uma produção rara. 

- O Zoológico de Varsóvia (Lançado direto em VOD)



Caos, morte, opressão. Numa época em que velhos fantasmas surgem para nos assombrar novamente, O Zoológico de Varsóvia se revela um relato não só urgente, como necessário. Embora se renda à concessões bem típicas do gênero, o longa dirigido por Niki Caro (Encantadora de Baleias) mostra pulso ao expor sob um prisma humano e naturalmente impactante a dor e a destruição imposta pelos nazista em solo polonês durante a Segunda Guerra Mundial. Inspirada em extraordinários fatos reais, a realizadora neozelandesa se esquiva do teor reverencial ao reproduzir a altruísta jornada do casal Jan e Antonina Zabinski, ampliando o escopo da trama ao não se sentir presa aos feitos dos dois. Mesmo limitada pelo baixo orçamento para uma produção de guerra, Caro é incisiva ao pintar um retrato desesperançoso sobre o conflito, ao realçar a impotência e o medo dos personagens diante do autoritarismo, oferecendo uma visão macro sobre o tema ao preencher a película com sequências devastadoras e genuinamente comoventes. Na verdade, ao ir além do heroísmo e da resiliência, O Zoológico de Varsóvia ganha relevância ao lembrar dos que se foram, da crueldade e da violência imposta pelo totalitarismo, usando a História para evitarmos que os erros do passado ecoem no futuro. Esteticamente refinado, o longa se comprova enquanto relato histórico ao encontrar a luz num momento de trevas, nos brindando com um retrato comovente e revoltante sobre dois heróis da vida real. Mais do que simplesmente reverenciar os feitos do casal, Niki Caro eleva o senso de plenitude do longa ao mostrar o melhor e o pior do ser humano, ao revelar a resiliência de um povo dominado pela tirania, mostrando que a esperança pode brotar dos mais dizimados solos. O resultado é uma obra tocante que, mesmo sem ser brilhante, nos lembra dos horrores da guerra sob um prisma tenso, íntimo e tragicamente sugestivo. E não podemos esquecer disso.

- Loving (Lançado direto em VOD)



Quem me acompanha aqui no Cinemaniac sabe que eu sou um grande fã do versátil diretor Jeff Nichols. Uma das vozes mais autorais e relevantes da nova geração em Hollywood, o norte-americano transita entre os gêneros com enorme desenvoltura, o que tem se tornado evidente na sua multifacetada filmografia. Um exímio contador de histórias, Nichols é o tipo de realizador que se encanta pela natureza humana dos seus personagens, pela pureza dos sentimentos, independente do gênero em que o filme esteja inserido. Foi assim no thriller dramático Separados Pelo Sangue (2007), no suspense psicológico O Abrigo (2011), no romance aventureiro Amor Bandido (2012), no Sci-Fi Destino Especial (2016) e no seu mais recente trabalho, o dramático Loving (2016). No projeto mais maduro da sua carreira, Nichols entrou no radar da Academia com um relato comedido sobre uma revoltante história real, um filme elegante e extremamente sensível sobre a faceta mais suja do preconceito racial. Recheado de momentos visualmente belos, Loving, como o próprio título sugere, fascina ao exaltar o amor por trás de um cenário recheado de ódio e preconceito. Indo de encontro aos geralmente solenes filmes do gênero, Jeff Nichols abre mão do teor reverencial ao realçar o elemento humano presente neste relato real, mostrando que pessoas comuns também podem protagonizar grandes histórias. E que filmaço. Um filme que, apesar das extraordinárias atuações do intenso Joel Edgerton e da indicada ao Oscar Ruth Negga, também foi lançado diretamente via streaming. Loving, inclusive, por bem pouco não entrou na minha lista de melhores filmes de 2017. Bem pouco mesmo.

- O Apartamento (Bilheteria não divulgada)



Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, O Apartamento atesta a força do cinema do iraniano Asghar Farhadi. Assim como no seu primeiro grande sucesso, o excelente A Separação, o realizador instiga ao mostrar a realidade da sociedade local, colocando frente a frente tradição e a modernidade num suspense dramático recheado de nuances. Apesar da universalidade da obra saltar aos olhos, Farhadi tece um profundo comentário sobre a realidade do seu país ao narrar as desventuras de um casal de atores, os intensos Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini, que, após uma misteriosa invasão ao seu novo apartamento, precisam conviver com as consequências do crime. Com um argumento recheado de questões humanas em mãos, Farhadi extrai a tensão da rotina ao desvendar o impacto da situação no estado de espírito dos "desconstruídos" protagonistas. Impecável ao mostrar a face mais moderna do Irã, o realizador é habilidoso ao, num primeiro momento, realçar o aspecto mais universal da trama, ao diluir as barreiras culturais entre o Ocidente e o Oriente. Os personagens são esclarecidos e independentes, a religião praticamente não é citada. Os clichês, aqui, não têm vez. Com o avançar da trama, entretanto, Farhadi fascina ao evidenciar também o (enraizado) lado mais retrógrado da sociedade iraniana, que gradativamente toma conta da tela até o sufocante último ato. Concentrado na figura do pacífico marido, o diretor é incisivo ao traduzir o seu processo de deterioração emocional, expondo os dualismos presentes na sociedade iraniana ao trazer para o centro da trama temas como a infidelidade, o desrespeito à figura da mulher e a honra masculina. O resultado é um clímax primoroso, um desfecho tenso e inquietante que instiga ao tratar o tradicionalismo sob um prisma íntimo e quase implícito. Imersivo e impactante, O Apartamento é um filme raro, um suspense envolvente que não se contenta com respostas fáceis. 

- Colossal (Bilheteria não divulgada)



Um dos filmes mais criativos de 2017, Colossal faz um primoroso uso dos simbolismos ao discutir os conflitos de uma mulher à beira do caos. Transitando com sagacidade entre a fantasia e a realidade, o longa dirigido e roteirizado pelo Nacho Vigalondo surpreende ao misturar comédia, drama e suspense com rara originalidade. Embora peque por alguns problemas narrativos, principalmente quando o assunto é o desenvolvimento dos personagens de apoio, o realizador espanhol compensa ao investir pesado no denso subtexto. Por mais que num primeiro momento o argumento flerte com o humor mais escapista, Vigalondo mostra inesperada destreza ao mudar o tom da sua película, ao explorar os conflitos por trás da aparição de um gigantesco monstro. Impulsionado pela magnífica performance de Anne Hathaway, magnética na pele de uma mulher alcoólatra abandonada pelo seu insensível namorado (Dan Stevens, positivamente detestável), o curioso longa é inteligente ao traduzir os dilemas da protagonista, criando um inusitado paralelo entre ela a a monstruosa criatura.


Numa sacada de mestre, o diretor usa o viés metafórico da premissa em prol do desenvolvimento da personagem, se distanciando habilmente do elemento fantasioso ao falar sobre temas como o alcoolismo, a violência doméstica e os perigos em torno de um relacionamento abusivo. Pintado inicialmente como um mero interesse amoroso, o complexo amigo de infância vivido por Jason Sudeikis (excelente) cresce de maneira assustadora em cena, reforçando o viés realístico da trama ao potencializar os problemas da protagonista. Sem querer revelar muito, o realizador é genial ao explorar o sentimento de culpa de uma mulher agredida sob um prisma realmente fantástico, culminando num clímax libertador e naturalmente empolgante. Dito isso, com ironia e ousadia, Colossal empolga ao, em sua essência mais pura, defender o 'girl power' num contexto bem mais mundano e realístico. Que grata surpresa! Curiosamente, entretanto, o subestimado longa passou em branco também nos EUA, faturando pouco mais de US$ 3 milhões. 

- Silêncio (Bilheteria Brasil US$ 318 mil)



E só mesmo um mestre como Martin Scorsese para tirar um filme como Silêncio do papel. Maniqueísmos à parte, o longa estrelado (com intensidade) por Andrew Garfield e Adam Driver inquieta ao levantar uma série de preciosas questões sobre a fé dentro de um contexto desesperançoso. Embora o foco esteja no Cristianismo, mais precisamente na perseguição aos missionários jesuítas em solo japonês durante o século XVII, o roteiro inspirado na obra de Shûsaku Endô propõe uma reflexão original envolvendo a nossa relação com o sagrado. Por mais que narrativamente o filme não seja tão acessível assim, o ritmo lento e o confessional teor contemplativo soam cansativos em alguns momentos, o diretor exibe a sua particular visão religiosa ao revelar o quão tênue é a linha entre a fé e o fanatismo, entre o ato de crer e o ato de querer. Em meio aos inúmeros questionamentos religiosos, aliás, Scorsese é particularmente cuidadoso ao refletir também sobre a face mais incoerente do conflito, ao revelar o rastro de sangue causado por instituições regidas por dogmas tão pacíficos e amorosos. Além disso, o veterano tece um corajoso comentário sobre a força da fé em tempos de crise, uma percepção intimista e compreensiva que não aceita qualquer julgamento quanto ao destino dos seus personagens e quanto àqueles que optam por manifestar as suas crenças de maneira silenciosa. O resultado é um último ato denso e humano que, combinado com a iluminada fotografia tropical de Rodrigo Prieto, o imersivo desenho de som florestal e a sucessão de magistrais planos abertos, transforma Silêncio numa das obras mais pessoais, imponentes e falhas da carreira de Martin Scorsese.

- Z: A Cidade Perdida (Bilheteria Brasil US$ 106 mil)



Um filme à moda antiga, Z: A Cidade Perdida leva o cinema para o meio da selva ao seguir os inquietos passos do reconhecido explorado Percivall Fawcett. Resgatando a imponência de alguns dos mais imponentes títulos do gênero, entre eles Aguirre, A Cólera dos Deuses (1972), Fitzcarraldo (1982), 1942: A Conquista do Paraíso (1992), Apocalypto (2007) e mais recentemente o laureado O Regresso (2015), o intenso longa dirigido por James Gray (Era uma Vez em Nova Iorque) fascina ao capturar o espírito desbravador do determinado protagonista. Reconhecido pela sua condução elegante, o realizador nova-iorquino esbanja realismo ao revelar o lado mais vil e perigoso da natureza selvagem. Embora íntimos e visualmente belos, seus impactantes enquadramentos mostram os obstáculos enfrentados pelo grupo de Fawcett, seus planos permitem que o público experimente o desconforto e a deterioração dos envolvidos durante quase duas décadas de expedições pela Amazônia no início do século XX. Ponto para a fotografia iluminada, texturizada e tropicalmente feroz de Darius Khondji (Okja). Nem só de estética, porém, vive Z.


Apesar dos indiscutíveis predicados visuais, James Gray se aprofunda na persona de Fawcett, escancarando não só a sua coragem e tenacidade, como também o seu orgulho e a sua perigosa busca por reconhecimento. Impulsionado pela densa performance de Charlie Hunnam, o diretor\roteirista é sensível ao traduzir as motivações do personagem, ao desvendar o pior e o melhor do desbravador, ao ressaltar que o mesmo homem que se insurgia contra a ignorância dos ingleses para com a cultura indígena defendia uma visão retrógrada quando o assunto era a igualdade feminina. Uma abordagem multidimensional que, ao longo da obstinada jornada de Fawcett, escancara o quão tênue pode ser a linha entre um sonho e uma obsessão. Contando ainda com diálogos marcantes, personagens cativantes (Sienna Miller e Robert Pattison estão ótimos) e um respeitoso subtexto envolvendo a causa indígena, Z: A Cidade Perdida está entre os grandes filmes de 2017. Uma obra que, entretanto, tal qual a tão cobiçada Z, se perdeu diante dos opressivos blockbusters. Outro que por pouco não entrou na minha lista de melhores filmes do ano.

- O Castelo de Vidro (Bilheteria Brasil US$ 158 mil)



Embora falho em diversos pontos, O Castelo de Vidro é o tipo de filme que nos seus momentos mais inspirados alcança um grau de intimismo realmente singular. Inspirado numa comovente história real, o longa dirigido e roteirizado por Destin Daniel Cretton (Temporário 12) encanta ao narrar o processo de criação de uma criança numa disfuncional família norte-americana. Adaptação do livro homônimo escrito por Jeanette Wells, a película acompanha os passos da escritora\jornalista (Brie Larson, excelente) em várias fases da sua vida, se concentrando na sua relação com os seus três irmãos, a sua mãe, a pintora relapsa Rose (Naomi Watts), e o seu pai, o alcoólatra carismático Rex (Whoodi Harrelson, intenso). Com uma linha narrativa não linear, Cretton, num primeiro momento, é sutil ao traduzir a inusitada infância de Jeanette (vivida nesta fase pelas cativantes Chandler Head e Ella Anderson). Apesar da rústica fotografia ensolarada passar um impressão otimista, o roteiro não poupa o espectador ao investigar o melhor e pior deste estilo de vida, realçando não só o forte elo entre os personagens, como também o impacto da dependência e da (in)consequente falta de recursos na rotina das crianças. Com elegância e delicadeza, Cretton brilha ao construir o estreito vínculo entre pai e filha, nos brindando com cenas ternas e naturalmente comoventes.


No momento em que se distancia desta honesta relação, entretanto, O Castelo de Vidro perde parte da sua força. Apesar do seu evidente esforço, Cretton não consegue se aprofundar em todos os conflitos da protagonista, passando com indiscutível pressa por temas e momentos relevantes. Na transição do segundo para o terceiro ato, inclusive, o roteiro deixa uma gigantesca lacuna ao simplesmente dispensar a adolescência da personagem, justamente o período em que as coisas pareceram ter ficado mais complicadas para esta inusitada família. Menos mal que, com maturidade, Harrelson e Larson conseguem revelar com dramaticidade as sequelas deste período, preparando o terreno para o emotivo último ato. Com diálogos fortes e sequências intensas, o diretor consegue extrair o máximo por trás deste reencontro, ao revelar o choque de ideias entre os dois, reforçando a conexão entre pai e filha ao evidenciar que ali, apesar da bebida, das incoerências e dos péssimos exemplos, existia um homem que sabia o que estava dizendo. Em contrapartida, o roteiro peca ao subaproveitar personagens como a fiel figura materna vivida por uma irregular Naomi Watts, o incomodado noivo yuppie interpretado com afinco por Max Greenfield e a relutante irmã mais nova vivida pela magnética Brigette Lundy-Paine, esvaziando alguns interessantes conflitos em prol de um seguro e lacrimoso clímax. Nada que reduza o peso de O Castelo de Vidro, um drama singelo e bem dirigido que, impulsionado pelas cativantes performances do elenco principal, causa um indiscutível fascínio ao realçar a face mais falha e humana de uma particular figura paterna.

- Armas na Mesa (Bilheteria Brasil US$ 15 mil)



Acostumada a dar vida a grandes personagens femininas, a incrível Jessica Chastain (A Hora mais Escura) adicionou outra a sua seleta coleção no ótimo (e subestimado) Armas na Mesa. Conduzido com pulso e elegância pelo experiente diretor John Madden (A Grande Mentira, O Exótico Hotel Marigold) é perspicaz ao, mesmo partindo de uma premissa ficcional, revelar a sujeira por trás do jogo de influências dos lobistas nos bastidores do congresso do EUA. Embora não tenha o cinismo do extraordinário Obrigado Por Fumar, o longa alcança um resultado semelhante ao mostrar o 'modus operandi' dos responsáveis pela manutenção das engrenagens em torno da aprovação (ou não) de uma nova lei. A partir de um tema naturalmente espinhoso, a amplamente debatida política armamentista norte-americana, o roteiro assinado pelo português Johnathan Pereira fascina ao se concentrar no aspecto micro da trama, mais precisamente nas ações da amoral lobista Elizabeth Sloane em prol da aprovação de uma emenda que visava regulamentar com maior rigidez a compra de armas de fogo em solo americano.


Fazendo um interessante uso da montagem não linear, Madden costura o antes e o depois  ao investigar as consequências dos atos de uma mulher disposta a tudo para alcançar os seus objetivos. Através de diálogos afiadíssimos, o realizados nos brinda com um envolvente 'mise en scene', valorizando a relevância dos bem desenvolvidos coadjuvantes ao tentar entender as motivações da enigmática protagonista. Mesmo se escorando em algumas (apressadas) soluções menos inspiradas, principalmente dentro do edificante clímax, Madden é incisivo ao não só construir a face mais imponente e destemida da protagonista, como também ao realçar as suas fragilidades, a sua dor e o vazio que permeia a sua rotina. Na verdade, mesmo nos momentos mais condescendentes, o roteiro é cuidadoso ao seguir o "distorcido" código de ética da personagem, ao expor o melhor e o pior da sua genialidade, dando a Jessica Chastain a possibilidade de construir uma fantástica protagonista. Dito isso, contando ainda com a refinada fotografia de Sebastian Blenkov, com a enérgica trilha sonora de Max Richter e com um talentoso elenco de apoio, capitaneado pelas sólidas interpretações de Mark Strong, Michael Stuhlbarg, Gugu Mbatha-Raw e John Lightow, Armas na Mesa transita habilmente entre o suspense e o drama ao reforçar os contrastes em torno do jogo do poder.

- Ao Cair da Noite (Bilheteria Brasil US$ 86 mil)



Uma misteriosa doença. Uma família reclusa num cenário pós-apocalíptico. Um provocador terror psicológico. Marcado pelo seu forte subtexto crítico, Ao Cair da Noite é incisivo ao refletir sobre o impacto do individualismo e da falta de diálogo no cada vez mais agressivo ambiente urbano. Numa proposta singular, o diretor Trey Edward Shults eleva o nível de tensão ao investir numa obra genuinamente sensorial, um suspense que assombra muito mais pela sua mensagem, do que propriamente pelos fatos mostrados em tela. Embora faça um uso ocasional dos populares 'jump scares', o promissor realizador norte-americano esbanja maturidade ao investir numa densa e inteligente, um filme que preza pela relação entre os personagens, pela construção da atmosfera de desconfiança e pelos simbolismos escondidos num argumento marcado pelo seu teor social. Impecável ao reforçar o clima de dúvida em torno dos seus personagens, o argumento assinado pelo próprio Trey Edward Shults narra a história de Paul (Joel Edgerton), um homem precavido que, isolado no meio de uma floresta, lutava arduamente para manter a sua pragmática esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o seu errático filho Travis (Kelvin Harrison Jr) a salvo de uma letal doença transmissível. A rotina do trio, entretanto, muda drasticamente com o surgimento de Will (Christopher Abbott), um pai de família desesperado em busca de água para ele, sua esposa (Riley Keough) e o pequeno filho. Embora relutante, Paul é convencido pela sua mulher a dar um teto para os desabrigados, iniciando assim uma frágil relação de confiança e autoproteção.


Com um roteiro instigante em mãos, Trey Edward Shults mostra pulso narrativo ao realçar o gradativo clima de desconfiança entre os protagonistas. Após dedicar o contextualizador (e nada óbvio) primeiro ato à rotina de Paul e sua família, o diretor é cuidadoso ao introduzir o subtexto social presente no argumento, principalmente com o repentino surgimento do misterioso Will. Sob um prisma imersivo, Shults nos coloca no centro da trama ao estabelecer o crescente clima de paranoia e ao sempre duvidar das reais intenções dos seus personagens. Apesar do clima de aparente segurança tomar conta do segundo ato, o roteiro é astuto ao traduzir o desconforto entre os moradores, a inquietação de Paul diante de uma resposta contraditória, a subserviência de Will perante as ordens do dono da casa ou o incômodo do filho adolescente ao se pegar olhando para o decote da sua nova "hóspede". É na transição para o nervoso último ato, no entanto, que o realizador coloca o dedo na ferida ao questionar os valores morais das duas famílias, ao contestar os seus personagens, ao expor o quão tênue pode ser a linha entre o protagonismo e o antagonismo em meio ao caos. Sem um pingo de concessão, ele não poupa o espectador ao expor a nossa face mais agressiva e incoerente, extraindo o máximo da sua obra num clímax corajoso, reflexivo e naturalmente pessimista. Em suma, indo além destes predicados técnicos, Ao Cair da Noite se revela um suspense psicológico crítico e inquietante. Um filme com múltiplas camadas (e perspectivas) que se distancia das soluções fáceis ao prezar pela solidez narrativa e pela densidade emocional. Uma opção rara que, aqui, só ajuda a embasar os questionamentos pensados pela película.

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Um comentário:

Monica Costa disse...

Excelentes filmes, eu adoro assistir os de Naomi Watts. O filme Referem do Medo me manteve tensa todo o momento, No elenco vemos Naomi Watts,e éste é umo dos melhores filmes de Naomi Watts uma das atrizes mais reconhecidas de Hollywood que fazem uma grande atuação neste filme. Realmente a recomendo.