terça-feira, 3 de outubro de 2017

Do fracasso ao triunfo! O que faz de Blade Runner um dos filmes cult mais populares do universo Sci-Fi


Poucos filmes combinam também com o rótulo cult quanto Blade Runner: O Caçador de Androides. Embora hoje esteja entre os mais populares representantes do universo Sci-Fi, o longa dirigido por Ridley Scott custou a conquistar este status. Lançado em 1982, a visionária película estrelada por Harrison Ford sofreu diante da incompreensão coletiva. Numa época em que o escapismo imperava no cinemão hollywoodiano, os executivos da Warner recusaram a alegoria pessimista e reflexiva sobre a nossa relação com as novas tecnologias proposta pelo realizador britânico. Com controle sobre o tão comentado processo criativo, o estúdio resolveu apostar num contraditório novo corte final, se insurgindo contra a mensagem defendida por Scott ao realçar puramente a ação, culminando num desfecho didático, adocicado e "fabricado" às custas dos dois primeiros atos. Assim como boa parte dos representantes do segmento cult, a versão cinematográfica de Blade Runner foi recebida com frieza pela crítica e esnobada pelo público da época. Algo, entretanto, pulsava no projeto.




Como se não bastasse o vanguardismo visual de Ridley Scott e a poética discussão acerca da nossa existência, a película ganhou "nova vida" com o advento do 'home vídeo'. O filme virou objeto de estudo, de instigantes debates. Seria Deckard um replicante? Ou apenas o primeiro a enxergar a humanidade nos androides? Nos anos seguintes, duas novas versões (1992 e 2007) adicionaram ainda mais peso ao longa, justamente por resgatarem o material original proposto pelo diretor britânico. Antes deslocado, Blade Runner passou a fazer cada vez mais sentido nos anos 1990 e 2000. Impulsionado pelo avanço tecnológico e pelas mudanças sócio-políticas, o Sci-Fi ganhou um novo significado junto ao público. Ainda hoje, aliás, mesmo após inúmeras "revisões", eu me surpreendo ao encontrar novas brechas, um detalhe escondido, uma possível nova pista, reinterpretando os símbolos idealizados por Scott numa obra que insiste em não se esgotar. O que fica claro com o lançamento de Blade Runner 2049, continuação que chega aos cinemas com a difícil missão de respeitar\ampliar o legado do seu antecessor. Mesmo após o fracasso comercial do original, a Warner resolveu revisitar o universo criado por Philip K. Dick movida pelo status adquirido pelo longa nos últimos vinte anos, reforçando o impacto cultural e a influência desta "marca" numa sequência que desde o seu anúncio já causava um grande frisson. Neste artigo, portanto, iremos (tentar) analisar os predicados de Blade Runner e alguns dos motivos que ajudaram a transforma-lo num dos filmes cult mais populares da ficção-científica.


E o primeiro ponto, obviamente, fica pela universalidade com que o roteiro assinado pela dupla Hampton Fancher e David Peoples transita por temas ao mesmo tempo complexos e indiscutivelmente atuais. Sem a pretensão de "reinventar a roda", Blade Runner é cuidadoso ao propor o debate filosófico em torno da existência humana, colocando o dedo na ferida ao discorrer sobre o tempo, as memórias e o que nos define enquanto ser pensante. Na sua camada mais periférica, o longa sugere um instigante debate ético ao questionar o perigo de se "brincar" de Deus e a nossa arrogante\predatória\perversa relação com as novas tecnologias. No filme, os replicantes (a representação do 'hi-tech') são criados para trabalhos braçais, são caçados quando não funcionam e "nascem" com prazo de validade. Neste cenário, a Corporação Tyrell surge como o símbolo da nossa pretensa superioridade, da crença que a criação humana é simplesmente descartável, como se a tecnologia estivesse somente disponível para o nosso bel prazer. À medida que a trama avança, entretanto, percebemos que, tal qual Deckard e Roy Batty (Rutger Hauer), somos "apenas" peões, peças movidas por um 'status quo' amoral e opressivo. Embora sigamos insistindo em não enxergar a realidade, o fato é que a tecnologia se transformou num "algo" quase onipresente. Aplicativos, algorítmos e dispositivos virtuais fizeram os androides parecerem criatura obsoletas, guiando os nosso caminhos, armazenando as nossas memórias, moldando os nossos pensamentos, monitorando os nossos passos. Na verdade, por mais que a distopia idealizada por Philip K. Dick e pintada em tela por Ridley Scott não tenha "a rigor" se concretizado, é nítido que a mensagem final defendida por Blade Runner segue assustadoramente contemporânea. Um vislumbre de futuro à frente do seu tempo que, três décadas depois, continua dizendo muito sobre a nossa péssima interação num ambiente cada vez mais "regido" pela tecnologia.


A discussão proposta por Ridley Scott, no entanto, não ficou reduzida ao debate homem x máquina. Na sua camada mais profunda, Blade Runner esquece o futuro e se volta para o passado, refletindo sobre a nossa natureza pretensamente superior diante do desconhecido. Numa proposta completamente coerente com a história da civilização humana, o roteiro é inteligente ao associar a figura dos replicantes aos povos subjugados. Na visão proposta pelo realizador britânico, a Terra está em colapso, saturada diante da superpopulação, da carência de recursos naturais e do consumismo. Neste cenário, uma parcela da população humana\colonizadora partiu em busca de novos planetas, deixando os "restos" para renegados, estrangeiros e os miseráveis. Os androides, aqui, surgem então como o escravo de outrora, a mão de obra colonizadora explorada à força de maneira cruel e desumana. Assim como os indígenas nos séculos XV e XVI, os negros nos séculos XVII, XVIII e XIX e os judeus no século XX, os replicantes são "separados" para o trabalho sujo. Os que se "adaptam" as perversas regras são aceitos\sobrevivem. Os que se rebelam são caçados. O desconhecido é descartável. Qualquer semelhança, definitivamente, não é mera coincidência. Mais do que levantar algumas instigantes questões morais envolvendo a nossa relação com as novas tecnologias, Scott é particularmente feroz ao apontar a sua mira para o ser humano, para o preconceito, a violência e o desrespeito às minorias. Na versão idealizada pelo diretor e que só viria a ganhar forma em 2007, os homens são os grandes antagonistas e os principais responsáveis pela derrocada dos centros urbanos. Nas entrelinhas, inclusive, o roteiro reforça o seu visionarismo ao expor alguns dos problemas mais comuns na atualidade, entre eles a solidão, o isolamento social, a perda da esperança e a desigualdade, mostrando porque Blade Runner se mantém tão fascinante mesmo trinta anos após o seu lançamento.

Ridley Scott e Philip K. Dick
O triunfo do Caçador de Androides, no entanto, não ficou reduzido ao aspecto temático da película. Em meio às inúmeras discussões filosóficas dissecadas acima, o longa reforçou o seu status cult ao se tornar a primeira adaptação cinematográfica inspirada na obra de Philip K. Dick. Responsável por alguns dos mais respeitados clássicos literários da ficção-científica, o escritor norte-americano ganhou voz nas telas grandes a partir da década de 1980, principalmente após a adaptação do livro Androides Sonham com Carneiros Elétricos? (1968). Nas mãos de Ridley Scott, a obra ganhou uma releitura de respeito que, após padecer diante dos interesses comerciais dos executivos da Warner, só pôde ser apreciada em sua máxima potência quase duas décadas seguintes. Num daqueles trágicos golpes do destino, entretanto, Dick não conseguiu ver o legado dos seus contos no cinema, já que o autor faleceu em maio de 1982, alguns meses antes do lançamento de Blade Runner, aos 53 anos, vítima de um infarto. Curiosamente, porém, mesmo após o fracasso comercial do filme, o escritor se tornou "fonte" para alguns das mais criativas produções nos anos seguintes, entre elas O Vingador do Futuro (1990), Assassinos Cibernéticos (1995), Minority Report: A Nova Lei (2002), O Homem Duplo (2006) e o recente Os Agentes do Destino (2011). Um mérito que, indiscutivelmente, se deve ao impacto do trabalho de Ridley Scott e ao triunfo do filme no mercado doméstico.


É impossível escrever sobre Blade Runner, aliás, e não citar a influência visual do longa sobre outras importantes obras da Sétima Arte. Embora a distopia pintada por Ridley Scott não fosse completamente original, títulos como o expressionista Metrópolis (1927), por exemplo, já falavam sobre a presença de uma IA numa sociedade caótica, o longa se tornou referência no desenvolvimento do cenário cyberpunk. Um dos mais populares subgêneros da ficção-científica, o conceito ganhou forma no início dos anos 1980 com escritores como William Gibson (Burning Chrome, Neuromancer), Bruce Sterling, mas foi devidamente popularizado graças a visão de futuro pintada neste verdadeiro fenômeno cult. Numa proposta sombria e ousada, o realizador britânico estabeleceu os paradigmas do segmento ao investir num cenário urbano caótico e vibrante, um ambiente populoso em que o 'hi-tech' dividia espaço com a decadência humana. Fazendo um primoroso uso dos planos contemplativos, Scott mostrou esmero ao traduzir a presença das máquinas (carros voadores, androides, imponentes peças publicitárias) neste cenário, reforçando a nossa pequenez diante deste ambiente virtualizado. Impulsionado pela reluzente fotografia soturna de Jordan Cronenweth, o realizador subverteu a estrutura visual do cinema 'noir' ao explorar elementos como a chuva, a fumaça e a iluminação, enchendo a tela de estilo ao realçar o aspecto mais sombrio\pessimista do roteiro. Na composição do cenário macro, entretanto, Scott mostrou a sua reconhecida engenhosidade ao apostar em cores mais vibrantes, no hoje renovado uso do neon, criando um contraste original que viria a ditar o tom de algumas das principais obras do gênero.


Na verdade, ao influenciar títulos do quilate do livro Neuromancer (1984), dos animes Akira (1988) e Ghost in The Shell (1995), e dos filmes Matrix (1999), Eu, Robô (2004), Ex_Machina (2014) e o recente Vigilante do Amanhã (2017), Blade Runner se tornou parte integrante da cultura pop moderna, mantendo o seu legado junto às novas gerações ao comprovar a atemporalidade (estética e narrativa) da obra de Ridley Scott. No final das contas, após flertar com o fracasso e o esquecimento na época do lançamento, O Caçador de Androides se estabeleceu como um dos 'hits' cult mais populares da história da Sétima Arte, uma inquietante pérola do cinema Sci-Fi que, merecidamente, NÃO "se perdeu no tempo como lágrimas na chuva".

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