domingo, 6 de agosto de 2017

Top 10 (Grandes Trilogias Cinematográficas)


Neste final de semana chegou aos cinemas Planeta dos Macacos: A Guerra (leia a nossa crítica), o desfecho de uma das poucas novas trilogias realmente relevantes. Indo de encontro a maioria das franquias "pipocas", que se desenvolvem na base do lucro e dos interesses comerciais, o reboot deste clássico sessentista surpreendeu a todos ao se revelar uma poderosa história de origem, uma trilogia sólida que atinge o seu ápice neste elogiado último longa. Sem grande alarde, Planeta dos Macacos: A Origem (2011) conquistou o público e a crítica ao mostrar o começo do fim, um filme tecnicamente primoroso que tornou justificável o retorno a um universo tão explorado. Quando a franquia foi parar nas mãos do talentoso Matt Reeves, entretanto, o novo Planeta dos Macacos alcançou um novo patamar com os excepcionais O Confronto (2014) e A Guerra (2017). Mais do que um bem realizado blockbuster distópico, a saga de César voltou a dialogar com o inventivo tom crítico do longa original, culminando em duas produções épicas, emocionalmente densas e brilhantemente concebidas. Com a estreia de Planeta dos Macacos: A Guerra e o desfecho desta imponente franquia, neste Top 10 iremos listar outras dez grandes trilogias da história da Sétima Arte. Nesta seleção reunirei as sagas com começo, meio e fim, portanto deixarei de fora as franquias que se estenderam além do necessário, entre elas as Trilogias Shrek, Piratas do Caribe, Alien e Exterminador do Futuro. Além disso, irei prezar também pela qualidade individual das produções, o que explica, por exemplo, a ausência da Trilogia Matrix e da Trilogia da Vingança, dois casos em que um dos longas é muito superior ao demais títulos da saga. Sem mais explicações, começamos com...


10º Trilogia Cornetto

Todo Mundo Quase Morto (2004), Chumbo Grosso (2007) e Heróis de Ressaca (2013)
Da mente criativa de Edgar Wright, a empolgante Trilogia Cornetto conquistou os fãs de um Cinema mais pop ao levar o 'bromance' para o universo fantástico. Unidas por uma embalagem do sorvete Corneto, a franquia estrelada por Simon Pegg e Nick Frost já chegou causando frisson com o incrível Todo Mundo Quase Morto (2004). Um dos pilares da retomada dos filmes de zumbi, o longa, uma paródia inspirada nos clássicos de George Romero, arrancou inúmeras risadas ao acompanhar as desventuras de um par de amigos diante de um apocalipse zumbi. Um filmaço que introduziu este talentoso realizador ao mundo da Sétima Arte. Impulsionado pelo êxito da película, Wright voltou a sua mira para o gênero 'buddy cop movie' no satírico Chumbo Grosso (2007). Numa mistura de Bad Boys com Além da Imaginação, o engraçadíssimo longa se revelou uma grande surpresa ao narrar as desventuras de um policial 'workaholic' (Pegg) obrigado a trabalhar com um oficial desleixado (Frost) em uma misteriosa cidadezinha. Um filme empolgante recheado de divertidas referências ao cinema de ação. O desfecho da trilogia Corneto, entretanto, viria a acontecer somente seis anos mais tarde com o corajoso Heróis de Ressaca (2013). Numa mistura de Invasores de Corpos (1978) com Eles Vivem (1988), Edgar Wright invadiu o cultuado terreno do Sci-Fi ao acompanhar as desventuras de um grupo de amigos quarentão diante uma enigmática invasão alienígena. Embora um degrau abaixo dos demais filmes da saga, o terceiro filme manteve a essência da trilogia ao zoar com um popular subgênero, a pontuando com uma obra irreverente, astuta e recheada de hilárias sequências de ação.

9º Trilogia Indiana Jones

Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989)
Da dobradinha George Lucas\Steven Spielberg, a Trilogia Indiana Jones colocou um gênero de volta no mapa ao acompanhar as intrépidas aventuras do arqueólogo mais conhecido do Cinema. Após brilhar como o mercenário Han Solo em Star Wars, Harrison Ford escreveu seu nome no universo pop ao viver o audacioso Indiana Jones no fantástico Os Caçadores da Arca Perdida (1981). Recheado de momentos memoráveis, como não citar, por exemplo, a icônica sequência da fuga ao som da magnífica trilha John Williams, o longa se tornou um sucesso de público e crítica ao equilibrar história e fantasia numa trama envolvendo nazistas, expedições e um milenar objeto superpoderoso. Ainda mais aventuresco que o original, Indiana e o Templo da Perdição (1984) chegou para transformar Harrison Ford num dos maiores astros da década de 1980. Com uma premissa envolvendo magia negra, escravidão, crianças e cérebros de macaco, o longa manteve o elevado nível da série ao entregar uma série de memoráveis sequências de ação, momentos inusitadamente sombrios que ainda hoje são lembrados pelos fãs da Cultura Pop. Mesmo recebido de maneira menos "amistosa pela crítica", o longa superou novamente a barreira dos US$ 300 milhões nas bilheterias ao redor do mundo, preparando o terreno para o épico terceiro filme, o excelente Indiana Jones e A Última Cruzada (1989). De longe o filme mais imponente da saga, o desfecho da trilogia deu a Jones um parceiro de peso, a astuta figura paterna vivida pelo ótimo Sean Connery, uma relação instável que só elevou o nível desta empolgante aventura. Tendo novamente a Segunda Guerra como pano de fundo, o lucrativo terceiro filme arrematou a jornada do arqueólogo com enorme categoria, mostrando o melhor do cinema dos anos oitenta numa aventura engraçada, empolgante e visualmente grandiosa. Um desfecho à altura da trilogia.

8º Trilogia Cavaleiro das Trevas

Batman Begins (2005), Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012).
Responsável por tirar o Homem-Morcego do fundo do poço após Joel Schumacher destruir a imagem do anti-herói em Batman e Robin (1997), a Trilogia Cavaleiro das Trevas se tornou um marco dentro do gênero ao mostrar que os filmes de super-heróis poderiam ser densos e adultos. Sob a batuta do cultuado Christopher Nolan, um dos realizadores mais jovens a conquistar este status junto ao grande público, Batman Begins retomou a confiança dos fragilizados fãs de Bruce Wayne ao investir num suspense de ação intimista e revelador. Mais do que simplesmente dar um novo rosto ao herói, Nolan conseguiu resgatar a imagem de Bruce Wayne, se aprofundar nos seus medos e conflitos mais enraizados, fazendo de Batman Begins um exemplar perfeito dos tais filmes de origem. Foi no segundo do longa da franquia, entretanto, que o diretor britânico colocou de vez o seu nome na história da Sétima Arte. Elevando o patamar dos filmes de super-herói para um nível nunca antes visto, Batman: O Cavaleiro das Trevas se tornou um marco, ainda hoje o melhor filme da história deste segmento. Com um Coringa anárquico, a estrondosa performance do saudoso Heather Ledger e um clima de tensão raríssimo dentro do gênero, Nolan nos brindou com o Poderoso Chefão dos filmes de herói, um Batman empolgante e memorável. Embora o o último ato da trilogia tenha ficado um pouco aquém do segundo filme (cá entre nós, qual filme não ficaria), Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge conseguiu arrematar a jornada do Batman de Christian Bale com energia e solidez. Mesmo sendo o título mais irregular da saga, o terceiro filme manteve o elevado padrão da série ao investir numa premissa engenhosa, num vilão impactante e num clímax épico. Em outras palavras, um arremate com a audaciosa assinatura de Christopher Nolan.

7º Trilogia Capitão América

Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), Capitão América: O Soldado Invernal (2014) e Capitão América: Guerra Civil (2016)
Essa é uma trilogia que surgiu sem grandes pretensões, parecia caminhar por um terreno mais seguro, mas rendeu dois dos melhores filmes da saga Vingadores. Disposto a estabelecer o poderoso Universo Marvel após o sucesso de Homem de Ferro (2008), Kevin Feige não se precipitou ao erguer a base desta celebrada franquia. Após tirar do papel o divertido O Incrível Hulk e o ótimo Thor, a então Marvel Studios resolveu introduzir o líder do Vingadores no aventuresco Capitão América: O Primeiro Vingador. De longe um dos títulos mais fiéis ao espírito das histórias em quadrinhos, o diretor Joe Johnston conseguiu capturar a essência altruísta do inocente Steve Rogers, criando um filme sólido, terno e esteticamente marcante. Uma obra que, apesar da sua inegável ingenuidade, conseguiu introduzir temas espinhosos que seriam decisivos mais a frente, entre eles o forte idealismo do herói, a sua crença no sistema e a sua crescente desconfiança. Um tema que seria brilhantemente explorado no fantástico Capitão América: O Soldado Invernal (2014), o filme mais denso do Universo Marvel. Trazendo a espionagem para a franquia, o longa dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo atraiu a atenção do público e da crítica ao provar que a Marvel sabia fazer filmes mais adultos. Com implacáveis sequências de ação, um vilão cerebral e um arco central extremamente humano, O Soldado Invernal bagunçou as estruturas do MCU numa película ousada e intensa. O ápice da trilogia, entretanto, se deu mais recentemente no épico Capitão América:Guerra Civil. Reunindo a maior parte dos Vingadores, o longa empolgou ao finalizar a transformação de Steve Rogers e ao estabelecer a épica rixa com o genial Tony Stark. Indo além das espetaculares sequências de ação, o terceiro longa conseguiu tirar o máximo deste sólido arco, mostrando a coragem necessária ao modificar de vez as estruturas da franquia. E isso sem precisar abrir mão da popular fórmula Marvel.

6º Trilogia Clássica Star Wars

Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança (1977), Star Wars: Episódio V - O Império Contra-Ataca (1980) e Star Wars: Episódio VI: O Retorno de Jedi (1983)
Elogiar Star Wars é “chover no molhado”. Uma das maiores marcas da cultura pop, a franquia idealizada por George Lucas chegou abalando a indústria do entretenimento com o fantástico Star Wars: Uma Nova Esperança. Introduzindo uma vasta gama de populares personagens, entre eles o heroico Luke Skywalker, a indomável Leia Organa, o carismático Han Solo e o icônico Darth Vader, o aventuresco primeiro longa consolidou a conhecida jornada do herói, uma inesgotável estrutura narrativa ainda hoje recorrente dentro do universo blockbuster. Além disso, com incríveis efeitos visuais, uma incrível construção de mundo e memoráveis sequências de ação, Uma Nova Esperança estabeleceu um dos maiores fenômenos pop, quiçá o maior, da Sétima Arte. Um status de devoção que alcançou um nível nunca antes visto com o lançamento do épico O Império Contra-Ataca, o blockbuster dos blockbusters. Sob a batuta de Irvin Kershner, o segundo longa não só se aprofundou na mitologia Star Wars, como também introduziu uma nova gama de situações, culminando num dos 'plot twists' mais memoráveis do Cinema. Uma sequência densa e sombria que transformou Darth Vader num dos antagonistas mais populares e temidos da cultura pop. A aclamada trilogia clássica, entretanto, chegou ao fim no familiar O Retorno de Jedi. Reconhecidamente o menos inspirado da franquia, a aventura dirigida por Richard Marquand soube amarrar todas as pontas num filme mais leve e descontraído. Embora flerte com soluções mais infantis, o desfecho conseguiu pontuar a jornada do trio Luke, Leia e Han de maneira bem otimista, refletindo a vibe oitentista do cinema pipoca. Um ponto final com alguns deslizes, os ewoks se revelam uma exagerada "concessão comercial", mas que cumpriu o que prometia ao fazer da trilogia clássica um verdadeiro marco na indústria do entretenimento.

5º Trilogia De Volta para o Futuro

De Volta para o Futuro (1985), De Volta para o Futuro 2 (1989) e De Volta para o Futuro 3 (1990)
Uma trilogia com a cara dos anos oitenta, De Volta para o Futuro conquistou uma legião de fãs ao narrar as desventuras intertemporais do intrépido Marty McFly. Conduzido com energia por um dos primeiros grandes "herdeiros" de Steven Spielberg, o excelente Robert Zemeckis, o clássico De Volta para o Futuro (1985) se tornou a pedra fundamental dos filmes de viagem no tempo ao narrar a jornada de um descolado adolescente que se vê em apuros ao voltar para a década de 1950 e perceber que a sua futura mãe está apaixonada por ele. Com uma premissa irreverente, Zemeckis ousou ao transitar por temas inegavelmente tênues, fazendo um primoroso uso do paradoxo temporal ao construir uma aventura perfeita. Um sucesso de público e crítica que rendeu duas outras divertidíssimas sequências. Impulsionado pela magnética performance da dupla Michael J. Fox e Christopher Lloyd, De Volta para o Futuro 2 elevou o nível da brincadeira ao levar a premissa para o futuro, no caso o ano de 2015, construindo uma visão de mundo que ainda hoje faz a festa dos fãs da cultura pop. Com uma premissa ainda mais engenhosa envolvendo o eterno agressor Briff e um almanaque esportivo, Zemeckis esbanjou criatividade ao sugerir um futuro hi-tech com carros voadores, tênis intuitivos e skates planadores, um universo rico que fez de De Volta para o Futuro 2 um dos símbolos da cultura pop oitentista. Sem tempo a perder após o sucesso do segundo longa, De Volta para o Futuro 3 manteve o nível da série ao levar Marty McFly para o Velho Oeste. Se antecipando ao movimento de retomada do gênero western, que aconteceria alguns anos mais tarde com os bem sucedidos Os Imperdoáveis (1992), Tombstone (1993), Maverick (1994) e Rápida e Mortal (1995), Zemeckis prestou uma grande homenagem a nomes como Sergio Leone, John Ford e Clint Eastwood numa aventura mais simples e familiar. Embora sofra uma ligeira queda de ritmo em relação aos seus antecessores, o terceiro filme da franquia conseguiu dar um merecido protagonismo ao excêntrico Doc Brown, unindo o rico universo temporal da franquia numa obra divertida e recheada de inspiradas referências.

4º Trilogia Toy Story

Toy Story (1995), Toy Story 2 (1999), Toy Story 3 (2010)
Um verdadeiro divisor de águas dentro da animação, Toy Story não só se tornou a pedra fundamental do então jovem estúdio Pixar, como também revolucionou o gênero ao introduzir a computação gráfica. Completamente animado digitalmente, o longa dirigido por John Lasseter conquistou o público e a crítica ao nos brindar com uma obra lúdica recheada de adoráveis personagens. A partir de uma premissa fantástica, o realizador investiu numa animação simples e universal, um filme levemente nostálgico sobre a rotina de um grupo de brinquedos quando o seu "dono" não está em casa. Com traços marcantes, um roteiro original e um excepcional senso de humor, Lasseter encantou crianças a adultos ao construir a incrível história de amizade do caubói Woody e do mais novo brinquedo da turma, o aventureiro espacial Buzz Lightyear. O resultado foi um estrondoso sucesso, uma animação magnífica que merecidamente escreveu o seu nome na história do gênero. Um êxito que, diga-se de passagem, se refletiu no aventureiro Toy Story 2 (1999). Uma continuação com frescor original, o longa novamente dirigido por John Lasseter, ao lado de Ash Brannon e Lee Unkrich, deu aula no que diz respeito a ampliação do universo da franquia, elevando o nível da brincadeira ao introduzir a carismática vaqueira Jessie, o cavalo Bala no Alvo e uma série de novo personagens. Com antagonistas marcantes, uma série de inspiradas referências e um perceptível avanço tecnológico, Toy Story 2 se tornou um novo sucesso de público e crítica, dando a Woody, Buzz e a sua turma um status de fenômeno junto à garotada. Eis que uma década depois, quase despretensiosamente, a Pixar levou uma geração às lágrimas como o primoroso Toy Story 3 (2010). Mais do que uma simples volta ao universo em que os brinquedos ganhavam vida, a animação dirigida por Lee Unkrich cresceu ao lado dos seus fãs, reforçando o sentimento de nostalgia ao arrematar a jornada do pequeno Andy de maneira soberba. Transitando por temas como a perda da infância, o amadurecimento e a chegada da vida adulta, o longa surpreendeu ao se revelar o melhor título da franquia, uma obra com inúmeras camadas capaz de buscar um tocante diálogo com as crianças, os jovens e também os adultos. Que filme amigos.

3º Trilogia dos Dólares

Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965), Três Homens em Conflito (1966)
Responsável por popularizar o gênero Western Spaghetti, a fantástica Trilogia dos Dólares introduziu um dos realizadores mais influentes da história do cinema, o magnífico Sérgio Leone. Ao longo dos três filmes podemos acompanhar a evolução artística de um diretor, a consolidação de uma assinatura tão vigorosa e virtuosa, a consolidação de um nome que precisou de apenas sete filmes para se colocar entre os gigantes. Um mestre na arte da construção da tensão, Leone chegou "chutando portas" e modificando as engrenagens do gênero no implacável Por um Punhado de Dólares. Mesmo limitado pela falta de orçamento, o realizador então com os seus 33\34 anos já dava indícios do seu apurado faro estético, preenchendo a trama com enquadramentos milimetricamente orquestrados, inventivas sequências de ação, nervosos planos fechados e uma impressionante fluidez narrativa. Além disso, impulsionado pelos acordes do gênio Ennio Morricone e pela enérgica montagem, Leone mostrou um pleno domínio narrativo ao construir uma película ágil e intensa, uma espécie de pérola cult protagonizada por um "herói" amoral e magnético vivido pelo então desconhecido Clint Eastwood. Após fazer muito com bem pouco em Por um Punhado de Dólares, o italiano seguiu mostrando a evolução da sua arte no extraordinário Por uns Dólares a Mais. Com um orçamento bem mais significativo em mãos, Leone resolveu desfilar o seu (já) vasto repertório técnico ao nos brindar com uma história de vingança densa e esteticamente brilhante.



Trazendo também Lee Van Cleef na pele de um exímio pistoleiro, o diretor italiano nos premiou (esse é o termo) com uma película bruta e ao mesmo tempo sensível, ampliando a atmosfera de tensão ao nos brindar com movimentos de câmera ainda mais engenhosos, expressivos enquadramentos e uma série de memoráveis sequências. Novamente ao lado de Morricone, Leone utilizou a trilha sonora com rara originalidade, mixando o som de objetos cênicos, entre eles o relógio de bolso musical utilizado pelo antagonista, aos acordes do seu grande parceiro. O resultado é uma obra prima, um filme enérgico pontuado com um épico duelo final. Quando parecia que Sergio Leone tinha alcançado o máximo do seu potencial, eis que o realizador lança Três Homens em Conflito, uma verdadeira obra prima do gênero Western. Indo além dos já citados predicados acima, o diretor construiu um épico de quase três horas de duração recheado de gigantescas sequências de ação, imponentes planos panorâmicos e um set de fazer inveja ao gigantismo da "velha Hollywood". Com personagens excepcionais (Eli Wallach está incrível), um roteiro repleto de reviravoltas e um sagaz contexto histórico, Leone fez questão de explorar o dispositivo cinema em sua máxima potência, transitando entre gêneros completamente distintos ao explicar para o público o que é o tal "impasse mexicano". Uma obra impactante tanto pela desenvoltura narrativa e pela grandiloquência cênica, quanto pela (mais uma vez) extraordinária trilha sonora de Ennio Morricone, um daqueles hinos da Sétima Arte que só mesmo um mestre poderia compor. Dito isso, ainda hoje referência junto aos grandes realizadores, a Trilogia dos Dólares é uma obra que fala por si só, um clássico empolgante e impactante que insistem em não envelhecer.

2º Trilogia Senhor dos Anéis

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001), O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002), O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003)
Pensada como uma trilogia desde a sua origem cinematográfica, O Senhor dos Anéis atestou o virtuosismo do visionário Peter Jackson. Rodado simultaneamente, uma raríssima prova de confiança no sucesso da franquia, o realizador neozelandês honrou uma geração de fãs ao adaptar a icônica obra do mestre J.R.R Tolkien. Um verdadeiro nerd do cinema, Jackson fundou sua própria empresa de animação, a WETA Workshop, uma respeitada companhia que se tornou decisiva para o sucesso da trilogia. Com um CGI completamente à frente do seu tempo, ele revolucionou ao aliar os grandes cenários e a maquiagem prática aos espetaculares efeitos visuais, o que fez de A Sociedade do Anel um verdadeiro fenômeno na indústria do entretenimento. Um filme de origem memorável, o longa estrelado por Elijah Wood, Viggo Mortensen, Sean Bean e Ian McKellen resgatou o gênero fantástico ao introduzir a magnífica Terra Média, um universo rico e imersivo recheado de personagens marcantes, figuras exóticas e uma perigosa ameaça. A "brincadeira", entretanto, ganhou um viés ainda mais épico no magnífico As Duas Torres. Revolucionando o gênero ao introduzir o advento da atuação digital, o segundo longa da franquia estabeleceu a opressiva presença de Sauron, ampliando o senso de urgência numa obra gigantesca, mas bem íntima. Um filme com arcos bem desenvolvidos e um clímax extraordinário. A consagração da trilogia, entretanto, veio com o capítulo final, o expansivo O Retorno do Rei, um desfecho capaz de agradar aos fãs, ao espectador comum, a mídia especializada e a tão retrógada Academia. Talvez pela primeira vez na sua história, o "velhinhos" do Oscar deram o braço a torcer diante da imponência do terceiro filme, uma obra densa, comovente, empolgante e tecnicamente primorosa. Um blockbuster na mais pura compreensão do termo. Além de arrematar a jornada de Bilbo, Sam, Gandalf e Aragorn com maestria, Peter Jackson conseguiu o que parecia impossível: levar um representante do universo fantástico ao Oscar de Melhor Filme. Na verdade, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei abocanhou inesperadas 11 estatuetas douradas na premiação, se tornando o recordista máximo ao lado de Ben-Hur e Titanic. Em suma, a Terra Média estava salva e o mundo da Sétima Arte ganhava uma bem-vinda atualização após o estrondoso sucesso da franquia.

1º O Poderoso Chefão

 O Poderoso Chefão - Parte I (1972), O Poderoso Chefão - Parte II (1974) e O Poderoso Chefão - Parte III (1990)
O Poderoso Chefão é uma trilogia que fala por si só. Inspirado na obra de Mario Puzo, Frances Ford Coppola fez o filme de máfia definitivo. Com Marlon Brando na pele do incrível Don Corleone e Al Pacino interpretando o idealista Michael Corleone, esta pérola da Sétima Arte descortinou a estrutura do crime organizado ítalo-americano sob um prisma humano e familiar. Com um dos mais complexos arcos pessoais da história do cinema, o fantástico primeiro filme captura com maestria a força e o intimismo do texto de Puzzo, estabelecendo este rico universo e os seus marcantes personagens. Logo na magnífica sequência de abertura, a naturalista festa de casamento da impulsiva Connie (Talia Shire), Coppola nos convida para fazer parte desta família, realçando os seus laços mais íntimos ao revelar o particular (e a sua maneira íntegro) código de conduta da família. Com diálogos poderosos, um crescente clima de tensão e um arco íntimo brilhantemente arquitetado, O Poderoso Chefão se tornou a primeira obra prima desta franquia. Sim meus amigos, Lançado dois anos depois, a Parte II elevou o nível da saga Corleone ao costurar o passado e o presente da trilogia. Com Al Pacino e Robert De Niro em performances soberba, Coppola ampliou o escopo ao criar um inspirado paralelo envolvendo a ascensão de Michael e Vito. Impulsionado pela virtuosa montagem não linear, o célebre realizador se debruçou sobre a intimidade dos dois personagens, correlacionou os seus respectivos erros e acertos, mostrando o impacto da violência e do crime organizado em dois contextos completamente distintos. O resultado é uma obra trágica e poderosa, uma continuação exemplar. Eis que, quinze anos depois, chega a Parte III, o aguardado desfecho da jornada de Michael Corleone. Embora seja o longa mais errático da trilogia, o último capítulo é competente ao mostrar um protagonista atormentado pelo seu passado, um homem disposto a limpar a sua imagem sendo obrigado a revisitar o mundo que o transformou. Mesmo diante de alguns problemas, a maioria deles envolvendo os desinteressantes novos personagens e a limitada performance da talentosa (diretora) Sofia Coppola, o terceiro Poderoso oferece um desfecho à altura da franquia, um capítulo final dramático, melancólico e nada condescendente. E Al Pacino se despede do seu Michael em grande estilo, traduzindo a deteriorante jornada do protagonista com solidez e a sua reconhecida intensidade.

Menções Honrosas

- Trilogia do Amanhecer


Sob a batuta de Richard Linklater, a irresistível Trilogia do Amanhecer levou o romance a um novo patamar ao acompanhar as idas e vindas de um casal durante três fases de sua vida. Com Ethan Hawke e Julie Deply em grande forma, a trilogia é um prato cheio para os fãs de uma bela história de amor, uma obra madura, charmosa e refrescante que figura entre as grandes produções do gênero.

- Trilogia Bourne


O que Busca Implacável, a Trilogia Cavaleiro das Trevas, Capitão América: O Soldado Invernal e De Volta ao Jogo têm em comum? Todos foram influenciados pelo realismo de ação proposto pela celebrada Trilogia Bourne. Embora narrativamente os filmes sofram de uma repetição temática, os longas dirigidos por Doug Liman (A Identidade Bourne) e Paul Greengrass (A Supremacia e O Último Bourne) resgataram um combalido gênero ao investir em intensas sequências de ação, um enigmático plot e num protagonista letal interpretado com maestria por Matt Damon.

- Trilogia Duro de Matar


Além de consolidar o rótulo estrelar do versátil Bruce Willis, um ator que, apesar do seu inegável talento, tem se metido em uma série de "bombas" nos últimos anos, Duro de Matar foi talvez a única grande franquia de ação dos anos 80\90 a se sustentar enquanto trilogia. Indo de encontro a títulos como Máquina Mortífera, Rambo e Um Tira da Pesada, a série capitaneada pelo policial John McCLane manteve a sua relevância graças não só ao carisma de Willis, como também os predicados da trilogia. Por mais que a repetição da estrutura narrativa seja evidente, a franquia conseguiu manter o nível de qualidade quando o assunto são os marcantes antagonistas, os carismáticos coadjuvantes e a variedade de cenários, permitindo que os três filmes ganhassem uma voz própria. Pena que, seguindo a lógica "consumista" de Hollywood, os executivos resolveram sugar o máximo da franquia no assistível Duro de Matar 4.0 e no péssimo Duro de Matar: Um Novo Dia para Morrer, dois trabalhos bem abaixo do nível de qualidade da franquia.

- Trilogia Mad Max


Da mente do versátil George Miller (conheça a sua trajetória aqui), a trilogia Mad Max não só nos brindou com insanas sequências de ação, magníficos efeitos práticos e uma pessimista visão de futuro.  A franquia também apresentou o talentoso Mel Gibson, um ator nascido nos EUA, mas que foi encontrar o sucesso em solo australiano. Comprovando o viés mais democrático do cinema, o ex-dentista George Miller resolveu tirar do papel uma pequena pérola chamada Mad Max (1979), um filme de vingança pós-apocalíptico envolvendo um devastado policial rodoviário e uma trupe de motoqueiros arruaceiros. Com uma assinatura autoral e indiscutivelmente vigorosa, Miller ampliou o escopo da franquia no épico Mad Max: A Caçada Continua (1981). Ciente do autocentrismo presente em Hollywood, e porque não nos EUA como um todo, o realizador criou uma espécie híbrida, uma continuação com aura original. Na terra do Tio Sam, inclusive, o filme se chamou The Road Warrior, como se fosse um produto completamente novo. E de certa forma os produtores não estavam tão errados assim. Embora seguisse a lógica automobilística\distópica do original, a sequência elevou o nível da brincadeira ao construir um futuro pós-apocalíptico bem mais sujo e excêntrico, um universo recheado de pessoas deformadas, carros bizarramente modificados e muita violência. Uma continuação incrível e que justificadamente figura constantemente nas listas das melhores do gênero. Óbvio que, assim como a maioria das trilogias, o terceiro filme ficou bem abaixo dos demais, mesmo com a presença de Tina Turner, mas nada que estragasse o impacto desta insana trilogia. Vide o fantástico quarto filme da série, o indômito Mad Max: Estrada da Fúria, um reboot com aura original que fez o agora setentão George Miller novamente abalar as estruturas da indústria do entretenimento.

- Trilogia dos Mortos Vivos


Confesso que fica difícil analisar a franquia A Noite dos Mortos Vivos como uma trilogia. Apesar do enorme hiato entre o terceiro e o quarto filme, o subestimado Terra dos Mortos agregou muito ao universo idealizado pelo saudoso George Romero, o que me impediu de coloca-las entre as dez melhores citadas acima. Mas vale a menção honrosa, principalmente após o recente falecimento do "pai" do hoje popular subgênero zumbi. Lançado em 1968, A Noite dos Mortos Vivos é o triunfo da criatividade. Mais do que reinventar um segmento, Romero encontrou nestas vorazes criaturas o subtexto necessário para construir uma poderosa crítica social. Transitando por temas como a paranoia atômica e as fortes tensões raciais presentes na América sessentista, ele se antecipou a maioria ao dar o protagonismo para um ator negro, no caso Duane Jones, permitindo que esta pequena produção de US$ 100 mil se tornasse parte do então crescente movimento contra cultural. Com um afiado viés crítico, Romero seguiu vociferando sobre temas mais contextualizados no extraordinário Despertar dos Mortos (1981) e no competente Dia dos Mortos (1984), equilibrando 'gore' e conteúdo ao questionar a cultura consumista, a irracionalidade humana e os perigos por trás das experiências científicas. E se você quiser entender a importância de George Romero para o mundo do cinema, clique aqui e leia as comoventes manifestações de uma geração de realizadores que se inspirou na originalidade e na pegada "artesanal" defendida por este grande diretor. Um "operário da Sétima Arte" que acostumou a fazer muito com bem pouco.

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