quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Top 10 (Grandes Filmes sobre a Segunda Guerra Mundial)


Um dos temas mais tragicamente ricos da história moderna, a Segunda Guerra Mundial se tornou um assunto recorrente dentro da Sétima Arte. Antes mesmo do conflito terminar, alguns corajosos realizadores já utilizavam o cinema para retratar o impacto deste doloroso período na rotina dos inocentes. Sete décadas depois do término do embate, o conflito entre as tropas do Eixo e o exército Aliado seguiu rendendo uma enxurrada de produções, a maioria delas envolvendo grandes feitos, populares batalhas ou personalidades importantes dentro do conflito. Após Mel Gibson narrar a história de um militar antibélico no premiado Até o Último Homem, o cultuado Christopher Nolan resolveu também recriar um importante momento do conflito em Dunkirk. Com um elenco recheado de talentosos nomes e uma direção à moda antiga, com direito a inúmeros efeitos práticos, uso de película e expressivos takes aéreos, o longa reconta a história de um grupo de militares britânicos que, durante a Operação Dínamo, uma missão de resgate\evacuação das tropas inglesas em solo francês, foram encurralados pelos Nazistas. E como o assunto é a Segunda Grande Guerra, neste Top 10 iremos falar sobre alguns dos melhores filmes envolvendo o conflito. Como a lista de títulos sobre o tema é gigantesca, nessa matéria seguirei basicamente o meu gosto pessoal e tentarei fugir (ao máximo) do lugar comum. Dito isso, começamos com... 


10º Fugindo do Inferno (1962)


"É dever de todo oficial tentar escapar". Esta simples sentença diz muito sobre o excelente Fugindo no Inferno, uma aventura dramática inspirada numa incrível história real. Dirigido por John Sturges (Sete Homens e um Destino), o filme transita por uma enorme gama de gêneros ao acompanhar a tentativa de fuga de um grupo de oficiais de uma das mais seguras prisões nazistas, o Stalag Luft III. Embora num primeiro momento a clássica abordagem heroica possa dar contornos escapistas ao longa, o respeitado realizador mostra esmero ao transitar por temais bem mais realísticos, mostrando o impacto do conflito na rotina de um grupo de organizados militares. Com um elenco recheado de nomes estrelares, entre eles Steve McQueen, James Garner, James Coburn, Charles Bronson e Richard Attenborough, Sturges esbanja categoria ao se aprofundar nas nuances dos singulares personagens, preenchendo as fluídas 2 h e 50 min de película com arcos sólidos e realmente bem escritos. Na verdade, o argumento é competente ao fazer o espectador criar um sincero vínculo com os prisioneiros, o que se torna decisivo para a construção do tenso último ato. Além disso, o clássico surpreende ao se preocupar em realçar o código de ética entre os oficiais, se distanciando do teor unidimensional ao mostrar que nem todo nazista parecia crer no código de conduta defendido pelo 3º Reich. Um dos pilares dos populares "filmes de fuga", Fugindo do Inferno nos brinda também com empolgantes cenas de ação. Oriundo do popular Western, John Sturges mostra um excepcional senso de simultaneidade ao acompanhar a escapada sob diversos pontos de vista, dando ao 'old-school' Steve McQueen a possibilidade de exibir a sua perícia sobre uma motocicleta numa fantástica sequência de ação. E quando o assunto são os filmes sobre prisioneiros da 2ª Guerra, não podemos deixar de citar outro clássico do segmento, o afiado O Inferno Nº 17 (1953), um dos grandes trabalhos do cultuado diretor Billy Wilder.

9º Bastardos Inglórios (2009)


Um acerto de contas recheado de ironia, Bastardos Inglórios é um filme de guerra com a cínica assinatura de Quentin Tarantino. Tenso, violento e deliciosamente irônico, o longa estrelado por Brad Pitt, Diane Kruger e Mélanie Laurent reinventa o conflito ao acompanhar a incursão de um grupo de espiões judeus em pleno solo alemão. Com uma abordagem pop, personagens engraçadíssimos e um antagonista naturalmente ameaçador, ponto para a magnífica performance de Christoph Waltz, o cultuado realizador norte-americano mostra a sua reconhecida criatividade ao dividir a trama em cinco memoráveis capítulos. Impulsionado pela fluidez narrativa do argumento, pelos afiados diálogos e pelas excelentes atuações, Tarantino nos brinda com uma perspicaz história de vingança, um filme tecnicamente primoroso recheado de passagens espetaculares. Como não citar, por exemplo, a fantástica sequência do bar, a perversa cena de abertura ou então o catártico clímax, três dos momentos mais inspirados da filmografia deste aclamado diretor. O resultado é uma produção autoral sobre a Segunda Grande Guerra, um longa sarcástico, pop e provocador sobre um dos períodos mais sombrios da história moderna. Por falar em missões inusitadas em solo inimigo, outro filme que merece destaque é o clássico Os Doze Condenados (1967), um épico sobre um grupo de condenados treinados para combater os nazistas num perigosíssima missão. Uma espécie de Esquadrão Suicida (2016) que deu certo.

7º O Pianista (2002)


Inspirado numa devastadora história real, O Pianista se revela um dos relatos mais intimistas sobre a desoladora situação dos judeus no ápice do holocausto. Reconhecido por sua singular filmografia, o polêmico diretor Roman Polanski conquistou o público e a crítica ao narrar a jornada do músico Wladyslaw Szpilman, um pianista talentoso que se encara uma degradante na rotina na luta para escapar das crueldades do exército nazista. Acostumado a trabalhar com personagens\tramas recheadas de cinismo, o realizador polonês surpreende ao investir numa obra sensível e intimista, um poderoso drama sobre o limite da resiliência humana durante este violento período. Um tema naturalmente trágico potencializado pelo cuidado de Polanski ao realçar o pano de fundo artístico. É de cortar o coração ver um homem que dedicou a sua vida à música, obrigado a enfrentar uma realidade tão dura e desoladora. Sem querer revelar muito, as sequências no apartamento, em especial, são genuinamente dolorosas e resumem o estado de espírito de um homem levado ao limite da sanidade. Apesar dos inúmeros predicados técnicos, entre eles a direção elegantíssima de Polanski, a imersiva fotografia soturna de Pawel Edelman e a expressiva direção de arte, o grande trunfo de O Pianista reside na soberba atuação de Adrian Brody. Numa performance transcendental, o ator nova-iorquino sucumbe em cena com enorme naturalidade, tornando o processo de deterioração de Szpilman indiscutivelmente doloroso aos olhos do público. Indo além da sua notória entrega física, Brody interioriza as emoções do músico com extrema intimidade, evidenciando a sensibilidade do biografado mesmo nos momentos mais árduos. Como não citar, por exemplo, a arrepiante sequência em que o pianista, desgastado fisica e emocionalmente, entra em contato com a sua arte ao simplesmente ouvir no seu solitário refugio um concerto de um apartamento vizinho. Assim como O Pianista, aliás, outros grandes filmes emocionaram ao descortinar a desaventurada jornada dos judeus em solo nazista, com destaque para o inquestionável O Diário de Anne Frank (1959) e o aclamado A Vida é Bela (1997), duas obras singulares que não merecem passar em branco em qualquer lista sobre o tema.

6º A Conquista da Honra (2006) e Cartas de Iwo Jima (2006)


Num projeto extremamente ousado, o mestre Clint Eastwood resolveu colocar o dedo na ferida ao mostrar o impacto da Segunda Guerra na rotina dos EUA. Para isso, com a intenção de oferecer uma abordagem completa sobre o tema, o sensível realizador resolveu investigar os dois lados da moeda. No crítico A Conquista da Honra (2006), Eastwood fugiu do lugar comum ao mostrar o conflito sob o prisma americano, expondo as consequências da guerra na rotina dos soldados responsáveis por participar de uma clássica foto. Numa abordagem extremamente humana, ele expõe o lado mais inglório da guerra, a dura volta para casa, se insurgindo contra a ação do governo na época ao revelar as verdades por trás de uma das maiores propagandas de guerra dos EUA. Foi quando decidiu mostrar o conflito sob o ponto de vista nipônico, entretanto, que Clint Eastwood entregou um dos melhores trabalhos da sua laureada filmografia. Sem a pretensão de encontrar culpados, Cartas de Iwo Jima conquistou a crítica ao revelar a nobreza e o forte idealismo dos japoneses diante da pesada incursão norte-americana. Sob um prisma bem amplo, Eastwood impressiona ao reproduzir tanto a deteriorante rotina dos soldados japoneses enclausurados em opressivas cavernas, quanto os motivos que levaram muitos deles a um conflito deste porte. Guiados pelas tais cartas que dão título ao longa, o veterano surpreendeu ao criar um laço de intimidade com alguns personagens, entre eles o general interpretado por Ken Watanabe, dando uma compreensiva voz ao outro lado do confronto. Na verdade, apesar dos inúmeros triunfos técnicos, vide a pálida fotografia de Tom Stern e as realísticas sequências de ação, Cartas de Iwo Jima surpreende ao tratar os "inimigos" com extrema humanidade, mostrando que para Clint Eastwood a guerra não deve ser analisada num contexto unidimensional. Aqui, aliás, destaco também A Ponte do Rio Kwai (1957) e O Império do Sol (1987), um par de ótimos filmes sobre o lado asiático da Segunda Guerra.

6º O Barco (1981)


Tecnicamente magnífico, o claustrofóbico O Barco é mais uma pérola do cinema de guerra. Conduzido com extremo virtuosismo por Wolfgang Petersen, o longa se despe dos rótulos ao acompanhar a angustiante jornada de um grupo de marinheiros alemães a bordo de um resistente submarino. Mais do que escolher lados, o realizador alemão coloca o dedo na ferida ao revelar a desoladora situação dos "peões" no tabuleiro da guerra, os soldados que sacrificavam as suas vidas em prol de uma ideologia que não era a deles. Sob um prisma humano, multidimensional e genuinamente íntimo, Petersen é cuidadoso ao dar voz às "estatísticas". Ao mostrar a pressão, o pavor, a desesperança e a desilusão de homens comuns, militares isolados num sufocante submarino alemão. Fazendo um primoroso uso deste ambiente imersivo, o argumento esbanja propriedade ao se distanciar dos clichês do nazista cruel. Através de diálogos inteligentes, Petersen abraça o teor crítico ao mostrar não só a face mais humana dos marinheiros, como também o incômodo dos oficiais diante das descabidas ordens daqueles que "lutavam" no conforto do Quartel General. Um dos melhores personagens do filme, por exemplo, o Capitão interpretado pelo excelente Jürgen Prochnow se torna o porta-voz deste discurso mais incisivo, justamente por se insurgir contra a pretensa superioridade alemã no campo de batalha. 


Além disso, Petersen brilha ao traduzir o 'modus operandi' de uma tripulação no auge da Segunda Guerra. Através do olhar incrédulo do correspondente de guerra vivido pelo Herbert Grönemeyer, o diretor realça a tensão ao capturar a desconfortável rotina dos marinheiros, ao mostrar o misto de marasmo e desespero durante os realísticos ataques. Embora limitado pelas questões técnicas da época, Petersen escreveu seu nome na história do cinema ao rodar um filme de quase três horas e meia de duração (na versão do diretor) dentro de um claustrofóbico submarino. Com uma câmera sempre fluída e fantásticos planos sequências, ele transita pelos fechados corredores da embarcação com impensável agilidade, potencializando o senso de urgência ao investir em cenas nervosas e minuciosamente pensadas. Um 'mise en scene' sujo e angustiante que faz de O Barco um dos filmes de guerra mais realísticos da história da Sétima Arte. Ainda sobre os longas claustrofóbicos sobre o tema, precisamos lembrar também dos ótimos U-571: A Batalha no Atlântico (2000) e Corações de Ferro (2014).

5º O Resgate do Soldado Ryan (1998) - Empate -


Nascido numa família de origem judia, Steven Spielberg elevou a sua filmografia para um novo patamar no momento em que resolveu "apontar a sua câmera" para a Segunda Guerra Mundial. Após dirigir o primoroso A Lista de Schindler, que obviamente também marcará presença na lista, o realizador nos brindou com um relato realístico sobre o tão comentado Dia D no magnífico O Resgate do Soldado Ryan. Responsável por uma das sequências de abertura mais icônicas da história do Cinema, o gigantesco ataque costeiro na praia de Omaha, inclusive, foi eleito pela revista Empire a melhor cena de batalha de todos os tempos, Spielberg mostrou através de um ponto de vista particular a ação dos Aliados durante este enorme conflito. Embora a missão de resgate liderada pelo militar vivido por Tom Hanks seja apenas levemente inspirada em fatos, o longa conquistou o público e a crítica ao reproduzir sob um prisma realmente visceral a incursão do exército americano na Batalha da Normandia, revelando a letalidade do conflito como poucos filmes conseguiram. Como de costume na sua filmografia, aliás, Spielberg transita do macro ao micro com enorme desenvoltura, realçando o fator humano ao se debruçar sobre os dilemas dos soldados em solo inimigo. Além disso, fazendo um virtuoso uso dos recursos práticos, a sequência da morte do soldado interpretado por Giovani Ribisi, por exemplo, está entre as mais realísticas da Sétima Arte, o diretor nos coloca no centro da ação, permitindo que compartilhemos do medo, da vulnerabilidade, da raiva e da desesperança dos militares. Em suma, impulsionado pela soturna e expansiva fotografia acinzentada de Janusz Kaminski, O Resgate do Soldado Ryan surge como um relato quase documental sobre uma das passagens mais violentas deste degradante conflito. Ainda sobre o tema, aliás, precisamos destacar também o épico O Mais Longo dos Dias (1962), um verdadeiro clássico sobre a invasão Aliada no Dia D.

5º Dunkirk (2017) - Empate -


E olha quem, por direito, já merece um relevante destaque entre os clássicos do gênero. Trabalhando com símbolos como a bravura, a resiliência e o heroísmo, Dunkirk se revela um filme de guerra à moda antiga, um relato íntegro, verossímil e incrivelmente sensorial sobre uma das manobras militares mais celebradas da Segunda Guerra Mundial, a miraculosa Operação Dínamo. No trabalho mais sincero da sua filmografia, Christopher Nolan (Interestelar) elevou o nível da sua arte ao utilizar o seu espantoso virtuosismo cinematográfico única e exclusivamente em prol da trama, nos colocando no centro do combate numa experiência tensa, imersiva e emocionante. Indo além das firulas estéticas, o realizador britânico encontra aqui a perfeita sincronia entre o virtuosismo técnico e a construção narrativa, reforçando o seu status junto ao grande público ao narrar os bastidores desta operação sob um poderoso ponto de vista humano. Na verdade, além de ressaltar as diferenças entre heroísmo e patriotismo, Nolan se preocupa em dar voz aos esquecidos, se sustentando em símbolos universais ao nos oferecer uma arrebatadora experiência cinematográfica. Uma obra em que o ato de sobreviver já é o bastante. Leia a nossa crítica completa aqui
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4º A Queda! As Últimas Horas de Hitler (2004)


Corajoso e revelador, A Queda: As Últimas Horas de Hitler ganhou status dentro do segmento ao revelar o destino do tirano Adolf Hitler. Inspirado nos relatos de Traudl Junge, a última secretária pessoal do líder do governo Nazista, o longa dirigido por Oliver Hirschbiegel fascina ao reproduzir os bastidores da derrocada alemã sob um prisma tenso, intenso e genuinamente intimista. Com uma abordagem quase claustrofóbica, já que o longa se passa basicamente no superprotegido bunker do Führer, o realizador é cuidadoso ao narrar a implosão do partido Nazista, o misto de desespero, desinformação e esperança dos homens e mulheres de confiança de Hitler. Sob um prisma detestavelmente humano, Hirschbiegel permite que o público enxergue não só o poder do líder sobre os seus comandados, como também a sua completa devoção aos distorcidos ideais nazistas, revelando o impacto da derrota iminente na rotina deste pequeno grupo de oficiais. Um clima de crescente nervosismo potencializado pela estrondosa atuação de Bruno Ganz, um daqueles trabalhos que parecem transcender as barreiras da arte. Impecável ao absorver a imponência, a energia e as crenças deste nefasto personagem, o talentoso ator alemão explode em cena ao traduzir a derrocada do líder nazista, indo do confiante ao desiludido com rara intensidade. Além disso, por mais que o longa possa soar cansativo num primeiro momento, Oliver Hirschbiegel surpreende ao investir num 'mise en scene' ágil e dramático, se distanciando por diversas vezes da figura de Hitler ao descortinar a sensação de caos em torno dos seus colaboradores mais fieis. Dito isso, indispensável enquanto relato histórico, A Queda: As Últimas Horas de Hitler envolve ao jogar uma reveladora luz sobre um dos episódios mais nebulosos da Segunda Guerra Mundial.

3º O Túmulo dos Vagalumes (1989)


Só mesmo o estúdio Ghibli para nos brindar com esta dilacerante pérola da animação. Incisivo ao revelar a face mais covarde de um conflito do porte da 2ª Guerra Mundial, O Túmulo dos Vagalumes é um dos filmes mais dolorosamente belos que eu já tive a oportunidade de assistir. Conduzido com extrema sensibilidade pelo diretor Isao Takahata, o longa choca e emociona ao expor a degradante jornada de dois irmãos órfãos da guerra. Indo da poesia ao realismo com absoluta inspiração, o realizador não poupa o espectador ao retratar a desoladora rotina dos inocentes durante os ataques americanos em solo japonês. Como de costume nas produções da companhia, os belíssimos traços da animação ganham aqui um sentido mais fúnebre. Os contrastes são evidentes e realçados ao longo da película. Logo na impactante sequência de abertura percebemos que, ao contrário da maioria das produções dos estúdios Ghibli, O Túmulo dos Vagalumes não busca refúgio no reconforto do universo lúdico. A esperança, aqui, sucumbiu a dor. Ainda que em alguns momentos Takahata aposte em algumas soluções mais simbólicas, os vagalumes, por exemplo, dialogam perfeitamente com a inocência da pequena Setsuko, o longa é contundente ao mostrar a morte, a destruição, a indiferença e a miséria imposta por um conflito deste porte, tornando tudo muito nítido aos olhos do espectador. Somado a isso, o realizador é cuidadoso ao tornar este cenário naturalmente rotineiro, ao mostrar o quão supérfluo era o luto em tempos de guerra, o que só reforça o sincero e amoroso vínculo entre os dois irmãos. Contando ainda com uma reflexiva cena final, daquelas que parecem querer lembrar dos erros passados, Túmulo dos Vagalumes é um relato devastadoramente indispensável sobre os ecos de uma guerra que não escolhe as suas vítimas. O estúdio Ghibli, aliás, voltou a falar sobre a 2ª Guerra no lúdico Vidas ao Vento (2014), um relato comovente sobre o homem que viu o seu sonho se tornar uma verdadeira máquina de destruição.

2º O Grande Ditador (1940)


Da mente do gênio Charlie Chaplin, O Grande Ditador se revelou uma das mais contundentes e importantes sátiras envolvendo a Segunda Guerra Mundial. No auge do conflito, um fato raro dentro do segmento, o realizador inglês resolveu questionar através do humor as investidas do exército Nazista. Apesar de admitir que não sabia das crueldades impostas aos judeus durante o conflito, e que não teria realizado o longa se soubesse de "tamanha insanidade homicida", Chaplin resolveu produzir esta crítica graças a sua impressionante semelhança física com Adolph Hitler. Na trama, após servir ao exército inglês durante a Primeira Guerra Mundial, um barbeiro judeu (Chaplin) entra em coma por vários anos. Quando desperta, sem qualquer tipo de memória, percebe que está novamente em um conflito quando Adenoid Hynkel assume o comando da fictícia Tomainia. Vivendo em guetos, o barbeiro se apaixona pela bela Hannah (Paulette Goddard) e através dela acaba entrando num pequeno grupo de resistência. Apresentando algumas das mais icônicas cenas da Sétima Arte, como não lembrar, por exemplo, do enérgico discurso final ou da bela sequência em que Adenoid baila com o globo terrestre, Chaplin fez de um filme de comédia uma das mais incisivas respostas a toda covardia imposta pelos nazistas. Uma obra prima. Por falar em sátiras sobre a 2ª Guerra, precisamos lembrar do hilário Top Secret (1984), uma comédia que, embora fique a léguas do nível de qualidade do clássico de Chaplin, tem os seus valores.

1º A Lista de Schindler (1993)


E o nosso primeiro lugar não poderia ser de outro se não o chocante A Lista de Schindler. Inspirado na fantástica história real de Oskar Schindler, um empresário astuto e oportunista que fez da sua influência uma poderosa arma na luta contra o holocausto, o longa estrelado por Liam Neeson se tornou um dos símbolos da filmografia de Steven Spielberg, principalmente pela forma como valoriza o fator humano por trás deste grande conflito. Numa obra com mais de três horas de duração, o realizador emociona ao expor não só a dor, a degradação e trágica rotina nos campos de concentração, como também a crueldade, a ignorância e a tirania dos nazistas. Brindando-nos com uma série sequências primorosas, vide a sutileza com que ele utiliza a cor em dois momentos dilacerantes, Spielberg é cuidadoso ao transitar também por temas como a manipulação da informação e a construção do discurso de ódio aos judeus, se esquivando a qualquer custo da unidimensionalidade ao construir um relato poderoso e indiscutivelmente abrangente. Contando ainda com as inspiradas atuações de Ben Kingsley e Ralph Fiennes, A Lista de Schindler é ainda um filme tecnicamente impressionante. Apesar da elegante roupagem em preto e branco, Steven Spielberg não poupa o espectador ao expor o lado mais conflito do sombrio, ao reproduzir a violência e o sofrimento imposta pelos nazistas, um teor realístico potencializado pela incrível direção de arte e pela expansiva fotografia de Janusz Kaminski. Embora não tenha o peso de A Lista de Schindler, outro drama inspirado em fatos que merece uma menção é o telefilme O Corajoso Coração de Irena Sendler (2009), um relato emocionante uma polonesa que usou os seus contatos para salvar a vida de centenas de crianças judias.

Menções Honrosas

- Phoenix (2014)


Tal qual a ave mitológica que dá titulo a este belíssimo exemplar do cinema alemão, Phoenix impressiona ao narrar de maneira elegante a jornada de uma mulher que renasce das cinzas após sobreviver a brutalidade do holocausto. Impulsionado pela soberba atuação de Nina Hoss (O Homem mais Procurado), brilhante ao explorar as nuances de uma cantora desfigurada pelos nazistas, este intenso drama sobre o pós-Segunda Guerra encanta pela inesperada sutileza com que acompanha a corajosa busca desta emblemática personagem por sua identidade perdida no conflito. Dirigido com rara inspiração por Christian Petzold (Barbara), o longa se distancia por completo da previsibilidade ao se aprofundar nas consequências deste tenebroso período, construindo com assombrosa frieza uma dolorosa história de amor e descobertas. Por falar em grandes filmes sobre o pós-guerra, seria um pecado não citar o clássico Hiroshima Meu Amor (1959), uma obra aclamada por nomes do quilate de Jean-Luc Godard e François Truffaut, o que a transformou num dos pilares do expressivo movimento da Novelle Vague.

- Filhos da Guerra (1990)


Inspirado na incrível história real do judeu Solomon Perel, Filhos da Guerra é um daqueles relatos impressionantes que de tão improváveis podem até parecer mentirosos. Mas não são. Conduzido com um extraordinário senso de plenitude pela polonesa Agnieszka Holland (O Jardim Secreto), o longa estrelado pelo carismático Marco Hofschneider (Minha Amada Imortal) investiga as nuances de um confronto como a Segunda Guerra Mundial sob um ponto de vista completo e original. Na trama, seguimos os passos de um jovem judeu alemão que, após ser salvo e educado num campo de órfãos soviéticos, se vê obrigado a omitir as suas origens no momento em que é capturado pelo exército nazista. Acuado, Solomon utiliza o seu alemão para convencer os militares que é um ariano e se torna um herói de guerra ao desvendar o esconderijo de um grupo de soviéticos. Com uma premissa naturalmente envolvente em mãos, Holland é sutil ao mostrar a influência dos dois exércitos sobre os mais jovens e a lavagem cerebral imposta por socialistas e nazistas. E por falar no impacto da guerra na formação de uma criança\adolescente, precisamos lembrar também do excelente Esperança e Glória (1987), um filme de guerra que cativa ao revelar as mazelas do conflito sob um prisma genuinamente infantil.

- O Trem (1964)


Numa época em que para se tirar uma grande produção do papel era necessário um árduo trabalho cênico, engenhosidade técnica e uma considerável dose de coragem, John Frankenheimer testou os limites da velha Hollywood no grandioso O Trem (1964). Convocado às pressas para substituir o antigo comandante do longa, o importante Arthur Penn (Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas), o diretor norte-americano resolveu fazer do seu jeito, exigiu o corte final do filme, um novo roteiro, um orçamento dobrado, o seu nome no título original e uma Ferrari como pagamento. Mesmo diante dos inúmeros obstáculos, as locações na Normandia logo se tornaram um agente complicador, Frankenheimer resolveu prezar pelo realismo, pelo virtuosismo estético e pela imponência da ação ao construir um épico de guerra de proporções ainda hoje espantosas. Fazendo um magnífico uso dos elementos práticos, entre eles as gigantescas locomotivas e os velozes caças, o realizador nos brinda com sequências de tirar o fôlego, capturadas com brilhantismo através dos seus expressivos enquadramentos e dos seus inventivos takes aéreos. Por trás de tamanho preciosismo técnico, porém, existe uma trama sólida e contundente, uma jornada de obsessão e dor protagonizada pelos excelentes Burt Lancaster e Paul Scofield.

- A Espiã (2006)


Um dos trabalhos mais subestimados do cultuado diretor Paul Verhoeven, A Espiã é um hipnotizante thriler de espionagem. Indo do drama ao suspense com enorme desenvoltura, o diretor holandês esbanja a sua reconhecida autoralidade ao investigar o impacto da guerra sob um prisma denso, íntimo e naturalmente tenso. No embalo da primorosa performance da bela Carice van Houten, que, ao seu estilo, cria uma figura moderna e sensual, uma mulher devastada pela guerra que encontra uma oportunidade de se vingar. Na pele de uma judia traída salva por um grupo de resistência, Van Houten mostra um invejável magnetismo ao realçar a degradação, a resiliência e a ascensão da sua incrível personagem. Somado a isso, Verhoeven brilha ao explorar a questão da espionagem, investindo em personagens tridimensionais e arcos totalmente imprevisíveis. Em suma, um herdeiro relevante do clássico Mata Hari (1931), A Espiã é uma película expressiva e tecnicamente memorável que instiga ao mostrar a Segunda Guerra dentro de um contexto pessoal e extremamente realístico.

- Os Falsários (2007)


Por falar em filmes originais sobre a Segunda Guerra Mundial, Os Falsários é uma daquelas incríveis histórias reais custaram a ganhar notoriedade. Inspirado no livro de memórias The Devil's Workshop: A Memoir of the Nazi Counterfeiting Operation, de Adolf Burger, o longa dirigido por Stefan Ruzowitzky surpreende ao jogar uma luz sobre a  "Operação Bernhard", um núcleo nazista que usava artistas judeus para falsificar libras e dólares. Na trama seguimos os passos de Salomon Smolianoff (Karl Markovics), um falsificador de obras de arte judeu que, após ser raptado pelos alemães, foi escolhido para liderar este decisivo grupo. Tratados com maior "comodidade" pelos oficiais nazistas, os prisioneiros inicialmente deixam se levar pelo tratamento diferenciado, mas logo percebem que o seu trabalho poderia ajudar a Alemanha a ganhar a guerra. Indo do drama ao suspense com vigor e bom senso, Smolianoff consegue não só investigar a improvável rotina deste seleto grupo de judeus em pleno holocausto, como também dialogar com os antigos filmes de sabotagem ao reproduzir a maneira que eles encontraram para lutar esta violenta guerra, nos brindando com um relato completo e singular sobre um aspecto do conflito que pouca gente tinha ouvido falar até então.

- Os Deuses Vencidos (1958)



Por fim um dos clássicos mais subestimados do gênero, Os Deuses Vencidos foi talvez um dos primeiros longas do gênero ao tratar um oficial nazista de maneira indiscutivelmente humana. Disposto a mostrar a 2ª Guerra sob o prisma mais amplo possível, o diretor Edward Dmytryk fugiu do lugar comum ao investir em três arcos bem específicos. Com um enorme senso de simultaneidade, o realizador aposta na multidimensionalidade ao se debruçar sobre o tema seguindo os passos de um idealista soldado alemão (Marlon Brando), um militar judeu perseguido por sua origem (Montgomery Clift) e uma americano galanteador que faz de tudo para não fazer parte da linha de frente (Dean Martin). Indo de encontro ao teor heroico frequentemente explorado na época, Dmytryk investiu num relevante viés crítico e pacifista, convidando o espectador para uma reflexão astuta acerca da trajetória dos três protagonistas. Sem nunca ficcionalizar os fatos, ele consegue não só realçar a manipulação da informação e a desilusão de um oficial nazista diante da dilacerante realidade que o esperava, como também acabar com o clichê que os EUA eram a terra da liberdade onde todos eram tratados de maneira igual. Com uma inesperada contundência, inclusive, o canadense coloca o dedo na ferida ao retratar o preconceito de parte dos americanos, mostrando que – guardada as evidentes proporções - não era só na Alemanha que os judeus eram perseguidos. Assim como a maioria dos filmes citados na lista, aliás, Deuses Vencidos se revela também uma obra tecnicamente majestosa, com direito a uma expressiva direção de arte, uma imponente fotografia e uma condução intimista que em nenhum momento sucumbe diante das envolventes 2 h e 47 min de película. Um completo relato sobre a 2ª Guerra. 

2 comentários:

The Crow disse...

...só um detalhe sobre o numero 1. No filme a cor aparece em 8 objetos e não cenas, 4 são fáceis e os outros 4 difíceis de se enxergar. Preste atenção deste uma vela acesa aos tons azulados de uma fumaça de fosforo... a cor enfatizar a cena (tendo em vista que o filme é preto e branco não para emular uma época mas sim pra emular os sonhos humanos) trazendo ela do sonho para a realidade. Descobri essa ideia do P/B ao observar que a imagem está em P/B mas não foi aplicado nenhum filtro de sefia ou parecido as imagens.

thicarvalho disse...

Interessante interpretação. Uma sacada de gênio do Spielberg que abre espaço para essas interpretações. Só citei a cena da garotinha porque ela é memorável. Mas você tem razão.

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