terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dunkirk

Nolan dá voz aos esquecidos numa obra memorável

De longe o maior 'hitmaker' da sua geração, Christopher Nolan é um caso raríssimo em Hollywood. Numa ascensão meteórica, o realizador britânico (com o apoio luxuoso do seu irmão e roteirista Jonathan Nolan) precisou de menos de duas décadas para se afirmar enquanto marca, para se tornar um improvável sinônimo de sucesso junto ao grande público. Isso porque, indo de encontro a nomes como Steven Spielberg, George Lucas, Ridley Scott, James Cameron, Robert Zemeckis e J.J Abrams, Nolan nunca se guiou pelo modelo blockbuster inaugurado lá atrás com Tubarão e Star Wars. Seus projetos, embora sempre direcionados ao grande público, apontam frequentemente para temas mais espinhosos. Desde o seu primeiro grande lançamento, o cultuado Amnésia (2000), Nolan mostrou o seu apreço por "heróis" relutantes, figuras tridimensionais geralmente lidando com conflitos além do seu alcance. O que fica bem claro no divisor de águas da sua carreira, o estrondoso Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), um filme memorável capaz de transcender as barreiras do gênero ao sair em defesa do valor de um ideal e não da força de um indivíduo. O que mais me impressiona no cinema de Nolan, entretanto, é a sua sagacidade ao universalizar temas complexos. Por mais que o triunfo da Trilogia Cavaleiro das Trevas justifique parte da sua popularidade, em títulos como A Origem e Interestelar o realizador mostrou um raro poder de persuasão.


Mesmo transitando por temas distantes do radar dos filmes pipoca, Christopher Nolan conseguiu preencher as duas intricadas películas com conflitos genuinamente familiares. Apesar dos impactantes efeitos visuais, das inúmeras teorias científicas e das didáticas explicações acerca das reviravoltas, no final das contas os dois grandiosos filmes falavam sobre temas bem mais íntimos, sobre os dilemas de duas figuras paternas em busca da felicidade perdida. Em outras palavras, ao utilizar a razão (e o seu vanguardismo técnico) como um trampolim para a emoção, Nolan criou uma assinatura autoral e indiscutivelmente lucrativa, uma estrutura capaz de "esconder" questões humanas em obras engenhosas, ousadas e naturalmente instigantes. Filmes como o magnífico Dunkirk, o mais novo feito de um realizador que insiste em nos surpreender. No trabalho mais sincero da sua filmografia, o britânico eleva o nível da sua arte ao utilizar o seu espantoso virtuosismo cinematográfico única e exclusivamente em prol da trama, nos colocando no centro do combate numa experiência tensa, imersiva e emocionante. Embora volte a utilizar recursos narrativos recorrentes na sua carreira, entre eles a inspirada montagem não linear e a divisão da trama em interconectados núcleos, o diretor o faz com enorme objetividade, investindo numa abordagem original ao reproduzir uma das mais audaciosas manobras da Segunda Guerra Mundial, a elogiada Operação Dínamo. Sem a pretensão de construir um relato histórico sobre o episódio, Nolan é cuidadoso ao traduzir a desoladora situação dos soldados ingleses sob um prisma individual, reforçando os símbolos em torno da manobra ao expor a bravura, a resiliência e o heroísmo que guiaram o exército britânico a uma vitoriosa fuga.


Inspirado numa incrível história real, o roteiro assinado pelo próprio Nolan enche a tela de tensão ao narrar os bastidores deste miraculoso resgate em solo francês. Por mais que o foco não esteja na operação em si, o realizador é inicialmente contundente ao evidenciar o desprotegido panorama dos mais de 400 mil soldados Aliados diante da "invisível" presença do exército nazista, o que fica bem claro logo na gigantesca e desesperadora sequência de abertura. Numa sacada realmente inspirada, Nolan opta por valorizar o aspecto micro em detrimento do macro, estreitando a relação entre o público e os personagens ao subdividir a trama em três arcos paralelos minuciosamente orquestrados. Desta forma, o longa nos coloca no "olho do furacão" ao acompanhar as desventuras do jovem Tommy (Fionn Whitehead, intenso), um soldado inglês com um forte senso de sobrevivência, do veterano Mr. Dawson (Mark Rylance, sábio), um corajoso civil que decide conduzir a sua própria embarcação rumo à orla de Dunquerque, do piloto Farrier (Tom Hardy, falando através do olhar), um sobrecarregado oficial da RAF com a missão de impedir o bombardeio aéreo durante a evacuação. Fazendo um primoroso uso da desconfortável montagem não linear, o argumento é inventivo ao mostrar a manobra militar por diferentes perspectivas, potencializando o senso de urgência e a sensação de perigo iminente ao permitir que as subtramas caminhem independentemente até o catártico clímax. No melhor estilo Amnésia, Nolan instiga ao exibir o seu particular senso de simultaneidade, testando as nossas expectativas ao apostar frequentemente na descontinuidade. Separados por algumas horas, cada um dos interligados arcos segue a sua própria lógica temporal, o seu próprio ritmo, uma preocupação raríssima e que só atesta a genialidade de Nolan. Além disso, ele encontra as brechas necessárias para desenvolver os pequenos conflitos morais dos protagonistas, revelando o impacto da guerra sob um viés tridimensional e indiscutivelmente denso.


O que diferencia Dunkirk dos demais representantes do gênero, porém, é a astúcia de Christopher Nolan ao transformar os seus personagens numa espécie de símbolo de resistência. Sem medo de parecer ingênuo, o realizador esbanja sinceridade ao reverenciar o feito dos homens (civis e militares) por trás da manobra, utilizando a ficção para tecer o seu inspirado comentário sobre episódio. Em meio ao caos e a desesperança, Nolan se encanta por sentimentos como a resiliência, a bravura e o heroísmo, os refletindo com brilhantismo no arco dos seus protagonistas. Como se, através do trio Tommy, Dawson e Farrier, ele pudesse mostrar os verdadeiros motivos que levaram os Aliados a vencer a guerra nos anos seguintes. Somado a isso, inspirado no célebre discurso "vitorioso" de Winston Churchill, o diretor é habilidoso ao traduzir o impacto da retirada no moral dos britânicos, culminando numa sequência final otimista, mas intimamente realista. Sem querer revelar muito, o olhar "perdido" de um dos soldados ao ler o entusiástico texto surge como um contraste, uma lembrança que a dor ainda estava longe de ter o seu fim. Nas entrelinhas, inclusive, Nolan é igualmente sutil ao prestar uma (justa) saudação ao exército francês, representado na figura do altruísta soltado interpretado por Damien Bonnard, um homem silencioso que, tal qual os militares do seu país, se torna decisivo e esquecido. É bom frisar que, enquanto os ingleses eram evacuados na praia de Dunquerque, os franceses seguiram combatendo o avanço das tropas nazistas, um "sacrifício" fundamental para o resgate de mais de 300 mil homens. Quando necessário, aliás, Nolan não foge da raia ao expor a desorganização e a negligência do alto escalão do exército britânico, reforçando o senso de plenitude do longa ao escancarar as verdades por trás dos inflamados discursos patrióticos. Uma subtrama crítica e pontual que ganha ainda mais relevância graças a imponente presença do talentoso Kenneth Branagh.


O melhor, entretanto, ficou para o final. Por mais que a estrutura narrativa idealizada por Nolan seja realmente inédita dentro do gênero, Dunkirk se torna uma catártica experiência fílmica devido ao virtuosismo estético deste grande realizador. Como de costume na sua filmografia, ele coloca a mão na massa ao entregar uma película que exala realidade. Com um magistral domínio cênico, Nolan mostra o seu reconhecido apreço pelos efeitos práticos ao filmar na terra, no céu e no mar, um esmero técnico que explica o impacto em torno das memoráveis sequências de ação. Na verdade, mais do que nos colocar no centro do conflito, o diretor se preocupa em tornar tudo muito nítido aos olhos do público, criando um ambiente imersivo, sombrio e indescritivelmente tenso. A sensação de caos, porem, aqui não é traduzida com cortes rápidos e a popular câmera tremida. Como o filme foi rodado todo em 70mm, Nolan investe tanto em expressivos enquadramentos panorâmicos, quanto em fluídos planos sequenciais, tirando o máximo proveito do gigantesco set de filmagens, do incontável números de extras e da nebulosa paisagem litorânea ao traduzir o desespero dos militares britânicos em solo inimigo.


Impulsionado pela nitidez fria e azulada da fotografia de Hoyte Van Hoytema, inclusive, Christopher Nolan amplia a escala da ação nas expansivas sequências terrestres, realçando o tamanho do que estava em jogo em takes espetaculares. O que falar, por exemplo, do primeiro bombardeio à praia de Dunquerque, uma daquelas raríssimas cenas que extrapolam os limites da quarta parede. Confesso que, a cada explosão, eu me encolhia na cadeira, tamanho o nível de realismo da sequência. O mesmo, aliás, aconteceu nas incríveis cenas aéreas. Entre balas e nuvens, Nolan nos coloca a bordo do avião pilotado por Tom Hardy, criando uma sensação de profundidade incrementada pelo uso de aeronaves reais, pelos imersivos planos em primeira pessoa e pelo extraordinário desenho de som. Numa sacada de mestre, o realizador opta por não personificar os nazistas. A ameaça é invisível e onipresente, está no estampido dos tiros, no barulho das explosões e nos gritos dos encurralados militares. Uma presença incômoda e refinadíssima que se costura com precisão cirúrgica às ruidosas batidas e aos nervosos acordes de violino da vigorosa trilha sonora de Hans Zimmer. 


Contando ainda com sufocantes sequências subaquáticas, Dunkirk se revela um filme de guerra à moda antiga, um relato íntegro, verossímil e incrivelmente sensorial sobre uma das manobras militares mais celebradas do conflito. No seu melhor trabalho desde Batman: O Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan encontra aqui a perfeita sincronia entre o virtuosismo técnico e a construção narrativa, reforçando o seu status ao revelar os bastidores desta operação sob um poderoso ponto de vista humano. Na verdade, além de ressaltar as diferenças entre heroísmo e patriotismo, o realizador britânico se preocupa em dar voz aos esquecidos, se sustentando em símbolos universais ao nos oferecer uma arrebatadora experiência cinematográfica. Uma obra em que o ato de sobreviver já é o bastante.

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