terça-feira, 4 de julho de 2017

Quase 18

Um inquietante retrato de uma geração egocêntrica

Trilhando um caminho aberto por nomes como Jennifer Lawrence, Emma Stone, Brie Larson e Margot Robbie, Hailee Steinfeld (Mesmo se Nada der Certo) desponta como um dos mais promissores nomes da sua geração. Lançada pelos cultuados Irmãos Coen no magnífico Bravura Indômita (2010), a jovem atriz tem buscado desde então um "espaço" no concorrido gênero blockbuster, mas o seu talento seguiu sendo mais bem explorado nas mãos de realizadores reconhecidos por sua autoralidade. Como podemos perceber no seu mais recente trabalho, o adorável Quase 18. Uma mistura moderna de Clube dos Cinco (1985) com A Garota de Rosa Shocking, o longa dirigido por Kelly Freemon Craig (Recém-Formada) homenageia o saudoso John Hughes ao utilizar o universo 'high-school' para investigar as agruras de uma adolescente em crise. Sob um ponto de vista deliciosamente irônico, a realizadora enche a tela de energia ao traduzir a inquietude, a imaturidade e o egocentrismo de uma geração que parece viver num mundo de aparências, uma realidade "ensolarada" e vazia frequentemente exposta nas inúmeras páginas do Instagram. Assim como Hughes se acostumou a fazer, entretanto, Craig não parece interessada em julgar\criticar um grupo específico de jovens, tal qual uma mãe ruidosa e autoritária faria. Na verdade, a diretora se encanta pela incoerência da sua protagonista, pela sua faceta mais humana, o que faz de Quase 18 um relato cativante e extremamente universal. 



Sem nunca subestimar a inteligência dos personagens, e por consequência do espectador, o roteiro assinado pela própria Kelly Freemon Craig é impecável ao estabelecer os conflitos dos carismáticos protagonistas. Fazendo um inspirado uso do recurso da narração, utilizado com perspicácia e moderação dentro do excelente primeiro ato, o longa acompanha os obstáculos na vida de Nadine (Steinfeld), uma jovem arredia e temperamental que cresceu se achando a garota mais deslocada do seu colégio. Apesar do esforço do seu compreensivo pai (Eric Keenleyside), ela simplesmente não tolerava a implicância das suas colegas de classe, a convivência com o seu popular irmão (Blake Jenner) e a presença da sua previsível mãe (Kyra Sedgwick). A sua rotina ganha um novo sentido, no entanto, quando ela conhece a afetuosa Krista (Haley Lu Richardson), uma menina igualmente solitária que logo se afeiçoa por Nadine. Juntas desde então, as duas construíram uma inabalável amizade, uma devotada relação que as ajudou a superar os dilemas do universo 'high-school'. Quando tudo parecia perfeitamente no seu lugar, Nadine é pega de surpresa ao ver que Krista havia começado uma relação com o seu odiado irmão. À beira de um colapso histérico, ela resolve "chutar o balde" e seguir o seu próprio caminho, sem saber que a sua conduta impulsiva iria coloca-la numa série de situações constrangedoras e\ou desconfortáveis.


Através de diálogos positivamente imaturos e sequências naturalmente engraçadas, Quase 18 esbanja sinceridade ao traduzir os conflitos da sua fantástica protagonista. Ainda que a comparação com o clássico Clube dos Cinco possa soar exagerada num primeiro momento, já que o longa em nenhum momento tem a pretensão de propor um relato geracional do porte do clássico oitentista, Kelly Freemon Craig não foge da raia ao discorrer sobre as novas gerações. Embora o foco esteja basicamente na errática figura de Nadine, a realizadora é habilidosa a utiliza-la como uma espécie de fio condutor, uma jovem inquieta que não só expõe o vazio dos personagens que a cercam, como também se vê seduzida pelo universo que parece a incomodar. Incoerente e imatura, ela consegue, ao mesmo tempo, condenar a popularidade do seu irmão e se encantar pelo charme do garoto descolado do colégio (Alexander Calvert).


Com um arco realmente bem escrito, Nadine é a contradição em pessoa, uma adolescente que parece ver o mundo girar em torno de si. Por mais que a beleza de Hailee Stanfield nos coloque em dúvidas sobre o status impopular da protagonista, Craig é sagaz ao realçar o lado mais difícil da jovem, o cinismo, o egoísmo e os seus mais problemáticos traços comportamentais. Com um afiado tempo de comédia, é incrível como ela consegue dizer as coisas mais absurdas sem nunca perder a sua cativante inocência, Stanfield nos brinda com uma performance singular, um trabalho vibrante que se torna o símbolo desta simpática película. A atriz, aliás, brilha ao criar uma figura naturalmente deslocada, uma jovem antissocial e irritável capaz de “rivalizar” com a esquisita Alisson (Ally Sheedy) de O Clube dos Cinco. Um desempenho, diga-se de passagem, valorizado pela fluída direção de Craig, inventiva ao coloca-la no centro dos planos e ao capturar as suas inúmeras expressões sem abdicar da espontaneidade cênica.


Na ânsia de criar uma estreita conexão com a adolescente, entretanto, Kelly Freemon Craig peca ao subaproveitar alguns dos ótimos personagens de apoio. Brilhantemente introduzida, a relação entre Nadine e Kristy, por exemplo, se esvai ao longo da trama, sendo resolvida com certo desdém dento do protocolar último ato. Por mais que a imaturidade de Nadine torne os seus dilemas propositalmente momentâneos, daqueles que podem ser resolvidos com apenas uma boa conversa, o arco das duas merecia um desfecho mais profundo. O mesmo, aliás, acontece com a relação entre os irmãos. Embora o talentoso Blake Janner mostre intensidade ao introduzir as nuances emocionais do seu personagem em poucas cenas, a conflituosa interação entre Nadine e Darian poderia ter sido mais bem explorada, o que fica bem claro quando nos deparamos com as ótimas cenas protagonizadas pelos dois.


Por outro lado, o argumento é inventivo ao construir a amizade entre Nadine e o seu professor, o sarcástico Mr. Bruner (Woody Harrelson, excelente como de costume). Indo de encontro aos clichês da figura paterna, ele surge como um improvável ombro amigo, o único capaz de enxergar a personalidade confusa da jovem e tentar - à sua maneira - ajuda-la. Desta divertida relação, aliás, nascem os diálogos mais francos e reflexivos da película, já que ele é um dos poucos a tentar rebater a verborrágica protagonista. Além disso, o longa é perspicaz ao tentar se aproximar de outro sucesso de John Hughes, o popular A Garota de Rosa Shocking. Dando vida ao arquétipo do cara legal outrora interpretado por Jon Cryer (Two and a Half Men), o simpático Ewin (Hayden Szeto, olho nele!) surge como o hilário interesse romântico de Nadine. Na luta para sair da 'friendzone', o desastrado colega de classe não só protagoniza algumas das sequências mais engraçadas da trama (a da roda gigante é sensacional), como também ajuda a expor a faceta mais contraditória de Nadine, realçando os perigos por trás da idealização.


Leve, colorido e revigorante, Quase 18 é uma comédia descompromissada capaz de transitar por temas genuinamente femininos sem nunca perder a sua universalidade. Por mais que o apressado último ano amarre as suas pontas com certa previsibilidade, Kelly Freemon Craig é habilidosa ao se debruçar sobre os dilemas da sua marcante protagonista, encontrando na magnética Hailee Steinfeld a energia necessária para mostrar o turbilhão de emoções por trás da rotina de um(a) adolescente em crise. E isso, apesar das óbvias referências ao cinema de John Hughes, sob um prisma original, irônico e totalmente coerente com a realidade das novas gerações. 

2 comentários:

Natalia Souza disse...

Eu concordo com os pontos que você comentou. Este filme tem um roteiro engenhoso, combine a comédia com um pouco de drama. Quase 18 superou as minhas expectativas, o ritmo da historia nos captura a todo o momento. Adoro esse tipo de histórias para adolescentes, tem uma mensagem para qualquer idade! Eu ri muito com o filme! ❤️

thicarvalho disse...

Um ótimo filme Natalia. Superou as minhas expectativas também. Longe de ser um filme somente para adolescentes, como você bem disse. Valeu pela visita e pelo comentário.

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