domingo, 16 de julho de 2017

Morre George A. Romero, o "pai" dos filmes de zumbis


O homem por trás do clássico A Noite dos Mortos Vivos, o visionário diretor George A. Romero faleceu neste domingo (16), aos 77 anos, vítima de câncer nos pulmões. A informação foi confirmada pela família do realizador. De acordo com a informação, Romero faleceu enquanto dormia ouvindo uma de suas canções prediletas, a trilha sonora do clássico Depois do Vendaval (1952), longa dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne. ]Com uma filmografia enxuta, mas extremamente revelante para a consolidação do gênero, ele praticamente inaugurou um segmento dentro do cinema de horror (entenda aqui) com o lançamento de A Noite dos Mortos Vivos (1968). Acompanhando as transformações culturais e sociais da época, diretor norte-americano resolveu dar uma conotação mais moderna aos zumbis, indo de encontro ao teor místico de filmes como o clássico White Zombie (1932) ao criar os populares mortos-vivos. Com um orçamento minúsculo, cerca de US$ 115 mil, Romero revolucionou o gênero ao equilibrar horror e suspense com enorme brilhantismo, criando uma obra imersiva e contextualizada. Um filme que, nas entrelinhas, soube se apropriar de temas recorrentes no final da década de 1960, entre eles a paranoia atômica e os crescentes conflitos raciais em solo norte-americano. Além disso, Romero mostrou o seu reconhecido pioneirismo ao dar o protagonismo para um ator negro, no caso Duane Jones, um personagem inteligente e consciente que se tornou a cereja do bolo na ácida crítica proposta por esta verdadeira pérola do cinema de horror.




Dono de um estilo mais contundente e realístico, George A. Romero logo se tornou referência dentro do gênero. Após dirigir o cult O Exército do Extermínio (1963) e o subestimado Martin (1978), o diretor se afirmou como a grande mente por trás da consolidação dos populares filmes de zumbi com o fantástico Despertar dos Mortos (1978). Já sem as limitações orçamentárias, Romero apontou a sua feroz mira para o consumismo desenfreado nos EUA, utilizando um shopping como o cenário perfeito para a construção de um longa irônico, afiado e extremamente contextualizado. Um clássico definitivo que, anos mais tarde, foi redescoberto\homenageado por Zack Snyder no excelente Madrugada dos Mortos (2004). Embora tenha se arriscado fora do segmento em filmes como Cavaleiros de Aço (1981) e Instinto Fatal (1988), Romero seguiu sendo reconhecido por seus trabalhos dentro do Universo Zumbi. Dando sequência a sua icônica franquia, o realizador voltou a arrancar elogios com o inteligente Dia Dos Mortos (1985). Fazendo um criativo uso do retrógrado pano de fundo militar, ele se insurgiu contra os perigos envolvendo as crescentes experiências científicas, fugindo novamente do lugar comum ao introduzir o popular Bub, um zumbi com lampejos de humanidade num cenário opressivo em que os poucos sobreviventes vivam em uma base subterrânea. Nos anos seguintes, porém, George A. Romero perdeu espaço diante da derrocada do gênero. Vendo os seus tão estimados zumbis transformados em piadas, o diretor até tentou enveredar para outros caminhos, mas os suspenses A Metade Negra (1993) e A Máscara do Terror (2000) simplesmente não funcionaram. 


Na primeira metade dos anos 2000, no entanto, George Romero voltou aos holofotes com a retomada do segmento, um movimento potencializado por títulos como Extermínio (2002) e o já citado Madrugada dos Mortos (2004). Disposto a revitalizar a sua franquia, o realizador conquistou a crítica com o excelente A Terra dos Mortos (2005). No seu último trabalho de grande orçamento, Romero mostrou o seu reconhecido faro social ao propor um inventivo duelo de classes, tornando os zumbis parte da rixa entre os abastados e os abandonados. Assim como em Dia dos Mortos, o diretor voltou a dar traços humanos aos mortos-vivos, um elemento, aqui, explorado com ainda mais originalidade. Com um custo de produção de US$ 15 milhões, o longa estrelado por Dennis Hopper, John Leguizamo e Asia Argento faturou US$ 46 milhões ao redor do mundo. O regular desempenho nas bilheterias, entretanto, não foi o bastante para a consolidação da franquia. Apesar do êxito de séries como Resident Evil e The Walking Dead, o "pai" deste popular subgênero se viu novamente de volta ao mercado independente. No tenso Diário dos Mortos (2007) e no fraco A Ilha dos Mortos (2009), George Romero até tentou dar sequência a sua saga, mas as pequenas produções só ganharam certa repercussão junto aos fãs do gênero. Nos últimos anos, inclusive, o diretor usou a imprensa para lamentar a falta de oportunidades e criticar o impacto do fenômeno The Walking Dead dentro do gênero. 


Em 2016, por exemplo, George A. Romero criticou a falta de conteúdo das novas produções e o consequente aumento no custo de produção. “Eu fiz Terra dos Mortos (2005), que foi o maior filme de zumbi que já fiz. E não acho que ele precisava ser tão grande. A maior parte do dinheiro foi para o elenco. Eles são ótimos, mas não acho que precisava gastar todo aquele dinheiro. Os charutos de Dennis Hopper custam mais do que a produção inteira de A Noite dos Mortos-Vivos (1968), essa é a verdade. Agora, por causa de Guerra Mundial Z e The Walking Dead, eu não consigo fazer um filme pequeno e modesto de zumbis, que deveria ser algo sociopolítico. Eu costumava conseguir lançar alguma coisa com base em ação zumbi, e conseguia esconder mensagens dentro disso. Agora não consigo. No momento em que menciono a palavra zumbi, precisa ser algo como ‘olha, Brad Pitt pagou US$ 400 milhões para fazer isso’”, disse ao Indiewire. Independente do êxito comercial dos seus último projetos, o fato é que George A. Romero escreveu o seu nome na história do cinema ao criar\reinventar um dos subgêneros mais populares das cultura pop. Na verdade, me arrisco a dizer que, guardadas as devidas proporções, Romero está para os filmes de zumbis, assim como Hitchcock está para o suspense e Kubrick para a ficção-científica. Uma relevância histórica que merece o nosso reconhecimento.

Famosos lamentam a morte de George Romero 


Por falar em reconhecimento, alguns realizadores utilizaram as suas redes sociais para lamentar a morte de George A. Romero. Oriundo do cinema de horror, o criativo James Gunn usou o seu Facebook para lembrar a importância do trabalho de Romero para a sua carreira. "Ver a Noite dos Mortos Vivos enquanto criança não só me assustou, e me fez brincar para sempre com crianças assustadoras, mas foi tão incrivelmente "faça você mesmo" que percebi que os filmes não eram algo que pertencia exclusivamente às elites, com os seus múltiplos milhões de dólares, mas que também poderia ser criado por nós, as pessoas que simplesmente os amava, que moravam no Missouri, como eu fiz, ou a Pensilvânia, como você fez, ou em qualquer lugar. Peguei uma câmera de oito milímetros, misturei um pouco de xarope de Karo com um pouco de tinta vermelha para fazer sangue e comecei a fazer filmes - especificamente, com o meu irmão comer meu outro irmão na tela, vivo. Eu tinha onze anos. Esse foi o primeiro momento da minha carreira cinematográfica, e foi desprezado por causa de você." admitiu Gunn. Num longo relato, ele disse que O Despertar dos Mortos o fez enxergar "como comentários sociais poderiam fazer parte dos filmes do gênero", tratou o Dia dos Mortos como um filme "incrivelmente subestimado", revelou que A Metade Negra é uma das suas "adaptações prediletas da obra de Stephen King" e afirmou que Martin é o seu "filme predileto dirigido por Romero". Por fim, Gunn agradeceu ao dizer que Romero o fez "querer produzir filmes" e o ajudou a "encontrar um sentido nos monstros".
Quem também se manifestou foi o mestre do suspense literário Stephen King. Segundo ele, Romero foi o seu colaborador favorito. "Triste em saber que meu colaborador favorito – e um grande velho amigo- George Romero morreu. George, nunca haverá outra pessoa como você”, revelou King via Twitter. Responsável pelo elogiado trabalho de maquiagem da série The Walking Dead, Greg Nicotero tratou Romero como fonte de inspiração e arrancou elogios ao "pai" deste popular subgênero. “Notícias tristes chegando. Existem tantas coisas para se dizer sobre esse homem, meu amigo, meu mentor e minha inspiração. Por tudo que ele nos deu com paixão e fogo, seu espírito implacável vai viver para sempre. Sou abençoado por tido a honra de ter presenteado ele com um prêmio em abril, em Pittsburgh, ONDE TUDO COMEÇOU!!! Um amor sem tamanho com ele e sua família”, afirmou Nicotero mostrando que George Romero também reconhecia os predicados de The Walking Dead. Um dos principais parceiros de Quentin Tarantino, o ator e diretor Eli Roth desejou condolências e falou a importância do saudoso realizador para a sua carreira. "Acabei de saber da notícia sobre George Romero. Difícil mensurar o quanto ele me inspirou; o que ele fez para o cinema. Romero usou o gênero para confrontar o racismo há 50 anos. Ele sempre apostou em diversificados casts, como Duane Jones como a heroica estrela de A Noite dos Mortos Vivos.", ressaltou Roth via Twitter. Um dos grandes parceiros de George Romero, o ator, maquiador e diretor Tom Savini (foto acima) usou também o seu Twitter para lembrar da sua ótima relação. "Adeus George A Romero. Nós rimos por 50 anos e 9 filmes. Eu sentirei a falta dele. Há uma luz que se apagou e não pode ser substituída.", afirmou Savini. Já o mestre John Carpenter, dos clássicos O Enigma de Outro Mundo e Fuga de Nova Iorque, não economizou nos elogios ao destacar a sua importância para a Sétima Arte. "George Romero foi um grande diretor, o pai do cinema de horror moderno. Ele foi meu amigo e eu sentirei a sua falta. Descanse em paz George.", concluiu Carpenter via Twitter.

Responsável pelo remake Madrugada dos Mortos, Zack Snyder foi além e admitiu que o trabalho de Romero mudou a sua vida. "O mundo perdeu um mestre. Obrigado pela inspiração. Você mudou a minha vida com sua arte. A sua ausência será sentida.", externou o diretor de Batman Vs Superman e 300. De longe um dos nomes mais respeitados da nova geração, o talentoso James Wan (Jogos Mortais, Velozes e Furiosos 7) também reverenciou Romero e foi categórico ao resumir a sua influência para o gênero. "Descanse em paz, Sr. Romero. O gênero de terror não seria o que é hoje, sem você. Sua influência sobre todos nós é inegável", sintetizou Wan. Por fim, o fã Edgar Wright se referiu ao saudoso realizador como o "Rei dos Zumbis" e fez uma longa postagem sobre ele no seu blog pessoal. No artigo, ele fez questão de enfatizar a importância Romero para a sua carreira e falou sobre os bastidores do seu primeiro grande sucesso, a sátira Todo Mundo Quase Morto. "É justo dizer que sem George A. Romero, eu não teria a carreira que tenho agora. Muitas pessoas devem a George uma enorme dívida de gratidão pela inspiração. Eu sou apenas um dos muitos. Sem George, pelo menos, minha carreira teria começado de forma muito diferente. Meu futuro no cinema realmente começou quando eu me tornei amigo de Simon Pegg, enquanto fazíamos Spaced, e percebemos que estávamos obcecados com O Despertar dos Mortos e o trabalho de George. Mais tarde, eu e Pegg tivemos essa ideia selvagem de fazer um filme que ocorreu no universo de George, mas com uma resposta claramente nítida do Norte de Londres para os seus épicos zumbis de Pittsburgh. O filme resultante (Todo Mundo Quase Morto), obviamente, não existe sem o próprio mestre e quando o concluímos decidimos que devíamos tentar entrar em contato com George e exibir o filme para ele. Para nós, a sua era a única opinião que importava.". Ao longo do texto, Wright revelou que Romero assistiu uma cópia pirata do longa e o classificou o como uma "uma explosão absoluta". "Isso realmente se tornou a única citação de cartaz para o filme nos Estados Unidos. Eu frequentemente penso em voltar a esse momento de estar na minha casa como o dia em que minha vida realmente mudou e o mundo ficou menor", constatou Edgar Wright (na foto acima, durante as filmagens de Terra dos Mortos) num íntimo e emotivo relato. Confira abaixo outras manifestações de carinho em memória de George A. Romero.

- Robert Rodriguez (Planeta Terror)
"Aqui com o grande George Romero, o homem que começou tudo. Uma verdadeira lenda e uma grande inspiração. Descanse em Paz".

- Simon Pegg (Todo Mundo Quase Morto, Star Trek)
"George A. Romero 1940-2017. Uma inspiração e um herói."

- Jordan Peele (Corra!)
"Romero começou isso."

- Scott Derrickson (Doutor Estranho)
"Adeus gênio".

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