terça-feira, 11 de abril de 2017

O Que Fazemos nas Sombras

Com humor inteligente e ótimas atuações longa ri do universo vampiresco

Uma mistura de Isto é Spinal Tap (1984) com Entrevista com Vampiro (1994) e Amantes Eternos (2014), O Que Fazemos nas Sombras subverte o universo vampiresco numa sátira inteligente e recheada de boas ideias. No melhor estilo 'mockumentary', a comédia dirigida pela dupla Taika Waititi e Jemaine Clement (Flight of Concords) foge do lugar comum ao rir de um gênero tão consolidado, extraindo o realismo por trás do absurdo ao acompanhar a rotina de um quarteto de vampiros seculares em pleno século XXI. Com um humor bem particular e uma impagável estética documental, a dupla surpreende ao entregar uma obra recheada de predicados estéticos, vide o extraordinário trabalho da equipe de maquiagem, uma comédia de humor negro que não se deixa limitar pela sua proposta descompromissada. 


Com roteiro também assinado pela dupla Taika Waititi e Jemaine Clement, O Que Fazemos nas Sombras cativa ao rir dos pormenores por trás do universo vampiresco. Sob um prisma ironicamente realístico, os diretores mostram um inegável fascínio pela mitologia das criaturas da noite, buscando referências nos maiores clássicos do gênero ao revelar como seria a vida de um vampiro dentro da nossa sociedade atual. Fazendo um inventivo uso dos clichês, o argumento é cuidadoso ao não só introduzir os excelentes personagens, como também ao descortinar a pitoresca rotina deles, arrancando genuínas risadas ao jogar uma luz sobre os elementos mais mundanos. Na trama, conhecemos o quarteto Vlad (Jemaine Clement), Vlago (Taika Waititi), Deacon (Jonny Brugh) e Petyr (Ben Fransham), um grupo de amigos vampirescos que dividiam espaço numa envelhecida mansão num centro urbano da Nova Zelândia. Apesar das enormes diferenças entre eles, os quatro centenários conviviam harmoniosamente, dividindo o tempo livre entre tarefas domésticas, noitadas em lugares impopulares e a caça de vítimas para o jantar. Tudo muda, porém, com a chegada de Nick (Cori Gonzalez-Macuer), um vampiro recém-transformado que se torna a ponte que eles precisavam para realmente conhecer o mundo moderno.


Com um particular tempo de comédia, Taika Waititi e Jemaine Clement são inicialmente habilidosos ao introduzir os carismáticos personagens. Os realizadores precisam de pouco menos de dez minutos para desvendar a personalidade de cada um dos moradores desta exótica mansão, entre eles o apaixonado Vlago, o sanguinário Vlad, o rebelde Deacon e o mal-humorado Petyr. Indo além das referências à títulos como Nosferatu, Drácula, Fome de Viver e Drácula de Bream Stoker, os realizadores brincam com os arquétipos do gênero ao torna-los mais humanos e imaturos, os desconstruindo à medida que a trama avança. O argumento é inteligente ao subverter, por exemplo, o aspecto sedutor, a pretensa letalidade e os dilemas existenciais dos seres vampirescos, adicionando uma impagável "normalidade" à trama ao transforma-los em caras comuns com medos normais. Sem querer revelar muito, a cena em que Vlago tenta proteger o sofá do sangue da sua vítima é hilária, assim como as crises de "confiança" de Vlad e a devotada relação de amizade deles com o humano Stu (Stu Rutherford). Além disso, o pueril arco amoroso envolvendo o vampiro interpretado por Waititi é excelente, culminando numa piada atual, sagaz e totalmente coerente com a mitologia vampiresca.


Impecável ao traduzir a rotina dos quatro vampiros, principalmente na engraçada relação entre Deacon e a submissa Jackie (Jackie van Beek), O Que Fazemos nas Sombras é igualmente certeiro ao estabelecer o seu vasto mundo. Na transição do primeiro para o segundo ato, Taika Waititi e Jemaine Clement ampliam o escopo da trama ao mostrar não só a presença de outros vampiros, como também a existência de uma vasta gama de monstros, preparando o terreno para agitado clímax. Um elemento, diga-se de passagem, valorizado pela inventiva direção da dupla e pelo virtuoso desenho de produção. Mesmo limitado pelo baixo orçamento, os dois realizadores esbanjam criatividade ao compor as sequências mais fantásticas, exibindo um vasto repertório de soluções práticas ao reproduzir os afetados voos dos vampiros e os hilários embates aéreos. Em alguns momentos, inclusive, Waititi e Clement bebem da fonte do cult A Bruxa de Blair ao extrair a tensão por trás das cenas de perseguição noturna, conseguindo um efeito acima da média para uma comédia 'indie'. O mesmo, aliás, acontece quando o assunto é a expressiva direção de arte, que, ao prezar pelos detalhes, torna a avermelhada mansão do vampiro naturalmente impactante aos olhos do público. Nenhum destes elementos, porém, salta tanto aos olhos quanto a maquiagem dos personagens. Num trabalho de fazer inveja a qualquer um dos recentes Star Trek, a composição das criaturas da noite é estilosa e bem crível, vide o pálido Petyr, atestando o valor de produção desta irreverente sátira.


Impulsionado pelas hilárias performances do trio Taika Waititi, Jemaine Clement e Johnny Brugh, impecáveis ao absorver o misto de empáfia, vaidade e imaturidade dos amigos Vlago, Vlad e Decon, O Que Fazemos nas Sombras testa as nossas expectativas ao nem sempre oferecer aquilo que o espectador esperava ver. Embora reverente às tradições do gênero, o longa ri dos seus próprios personagens ao apresenta-los dentro de um contexto mais mundano, ao mostrar que vampiros também fazem faxina, vão a festas e são capazes de construir inusitadas amizades. Para os fãs da Marvel, aliás, vale lembrar que Taika Waititi será o homem por trás de Thor: Ragnarok (veja o excelente teaser aqui), uma escolha improvável que me pareceu ainda mais interessante após assistir a esta bem sucedida sátira de humor negro. 

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