segunda-feira, 27 de março de 2017

Sully: O Milagre do Rio Hudson

Um relato humano sobre um herói da vida real

Do alto dos seus 86 anos, Clint Eastwood segue como uma das vozes mais altivas e frutíferas do cinema norte-americano. Dono de uma sensibilidade única, o veterano é um excepcional contador de histórias, um realizador capaz de extrair emoções de personagens extremamente comuns. Como não citar, por exemplo, o errático pistoleiro de Os Imperdoáveis, a reprimida dona de casa de As Pontes de Madison, a subestimada pugilista de Menina de Ouro e o ranzinza aposentado de Gran Torino. Entusiasta dos tipos humanos, Eastwood foi a escolha perfeita para comandar Sully: O Milagre do Rio Hudson, um drama intimista sobre um herói da vida real. Com a sua usual elegância, o versátil realizador emociona ao descortinar os bastidores desta incrível história real, expondo a faceta mais humana por trás do piloto responsável por um dos mais arriscados pousos da história da aviação comercial. Impulsionado pela comedida performance de Tom Hanks, Clint Eastwood constrói um recorte denso e enxuto, um relato maduro ao destacar o homem sem esquecer de reverenciar os seus incríveis feitos. 



Inspirado no livro homônimo escrito pelos pilotos Chesley "Sully" Sullenberger e Jeffrey Zaslow, o argumento assinado por Todd Komarnicki é inventivo ao explorar os conflitos mais íntimos do piloto ao longo de uma narrativa não linear. Indo além do miraculoso fato em si, Clint Eastwood costura passado e presente com desenvoltura, permitindo que o espectador não só conheça a pacata personalidade dos biografado, como também o seu lado mais instintivo, vulnerável e anti-midiático. Em apenas 1 h e 35 min de película, o incansável realizador constrói um relato pleno e envolvente, justamente pela maneira instigante com que o filme é montado. Numa opção narrativamente inventiva, o roteiro começa pelo "meio", pela tão cobiçada "busca por culpados", expondo o lado mais cruel da burocracia ao analisar o processo de investigação liderado pela agência reguladora. Com expressivos planos fechados e uma condução extremamente limpa, Eastwood esbanja intimismo ao traduzir os conflitos mais subjetivos do piloto, as crescentes dúvidas e a sua aversão ao rótulo de herói, realçando o impacto deste incomodo procedimento na rotina do comandante. Além de se concentrar na singela relação com a esposa, interpretada com afinco por Laura Linley, Eastwood aponta a sua mira para o aspecto mais covarde da investigação, se insurgindo contra o sensacionalismo barato e a tecnocracia operacional ao sair em defesa dos feitos do protagonista. 


Após estabelecer as dúvidas quanto a decisão de Sully durante o primeiro ato, Clint Eastwood deixa o episódio falar por si só ao reproduzir com maestria o incrível pouso forçado do voo 1549 no gélido Rio Hudson. Com objetividade e um invejável virtuosismo técnico, o diretor mostra o ato por diversos pontos de vista, realçando o fator humano sem precisar apelar para soluções piegas ou exagerada. No embalo da afiada montagem, ele amplia o escopo da trama ao abrir pequenas brechas para alguns dos sobreviventes, entre eles uma mãe com um filho recém-nascido, uma idosa com a sua afetuosa filha e dois jovens atrasados, nos fazendo enxergar o que estava em jogo naquela situação. Com um senso de simultaneidade espantoso, Eastwood eleva o nível de tensão ao revelar os bastidores da aterrizagem, o misto de terror, altruísmo e alívio em torno da situação, nos brindando com sequências realísticas e naturalmente arrepiantes. Sem querer revelar muito, o realizador é magnífico ao expor o instintivo 'modus operandi' dos pilotos durante o acidente, uma abordagem fria que se torna decisiva dentro do certeiro último ato. No melhor estilo filme de tribunal, Eastwood se mantém fiel aos fatos ao valorizar o fator humano por trás do embate entre homem e sistema, entregando um clímax comedido e reconfortante. Um desfecho que, entretanto, poderia ter uns dois minutos a menos, já que a última cena destoa ao prestar uma redundante reverência ao piloto. 


E como se não bastasse o talento de Clint Eastwood, Tom Hanks brilha ao encarar a simplicidade de Sully. Envelhecido em cena, o carismático ator convence ao traduzir a segurança do piloto, a sua inquestionável credibilidade, sem abdicar da faceta mais humana do personagem. Ora desconfortável quanto ao rótulo de herói, ora inseguro quanto ao desfecho da investigação, Hanks absorve com rara precisão as nuances emocionais do comandante, permitindo que o espectador se identifique com o homem por trás dos feitos. Assim como o astro de Quero ser Grande e O Resgate de Soldado Ryan, o talentoso Aaron Eckhart convence como o co-piloto Jeff. Embora com menos tempo de cena, o Duas Caras de Batman: O Cavaleiro das Trevas surge em cena com um tipo fiel e impulsivo, uma figura interessante que merecia ser melhor desenvolvida ao longo da trama. Apesar de visualmente belos, aliás, os flashbacks envolvendo o passado aéreo de Sully também são pouco explorados e não acrescentam muito ao andamento da trama. Em contrapartida, Clint Eastwood faz um expressivo uso da gélida fotografia nova-iorquina de Tom Stern (Gran Torino) ao construir alguns planos realmente memoráveis. Além de simbólica, a cena em que a sombra do piloto é projetada na neblina durante uma corrida noturna é de um virtuosismo estético impressionante. 


Após reproduzir os trágicos efeitos da guerra em Sniper Americano, Clint Eastwood mostra em Sully: O Milagre do Rio Hudson a versatilidade que o transformou numa verdadeira lenda de Hollywood. Sem a intenção de criar um herói americano, o inesgotável realizador extrai as emoções mais singelas por trás dos feitos do piloto, mostrando como este incrível pouso forçado se tornou um símbolo de esperança dentro de uma América assombrada pela crise econômica, pela guerra do Iraque e pelos crescentes problemas sociais. Na verdade, Eastwood mostra que é possível prestar uma reverência a um popular personagem sem esquecer da sua faceta mais humana. 

2 comentários:

Rodrigo Tavares disse...

Muito bom filme, não? Sempre acompanhei o trabalho de Clint Eastwood, e quando soube que lançaria o filme Sully o Herói do Rio Hudson, esperei com todo o meu ser a estréia. É interessante ver um filme que está baseado em fatos reais, eu acho que são as melhores historias, porque não necessita da ficção para fazer uma boa produção. Pessoalmente adorei o filme porque tem toda a essência do livro mais uma produção audiovisual incrível. Fiquei muito satisfeito com o trabalho de Clint Eastwood, além de que o elenco foi de primeira. De verdade, adorei que tenham feito este filme.

thicarvalho disse...

Sou fã do Eastwood. Grande diretor. Excelente contador de história. Sully é mais uma delas. Na mão de um inexperiente, o filme seria do tipo "patriotada". Exaltação ao "herói" americano. Eastwood foi além. Se encantou pelo humano, sem esquecer de reverenciar o feito de um homem comum.

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