terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Lion: Uma Jornada para Casa

Um olhar infantil e realístico sobre uma Índia caótica

Inspirado na incrível história real de Saroo Brierley, um jovem de origem indiana que, após se perder do seu irmão e ficar vinte cinco anos longe de casa, reencontrou a sua família biológica com a ajuda do Google Earth, Lion é uma cinebiografia comovente e ao mesmo tempo desnivelada. Conduzido com louvável sutileza por Garth Davis, impecável ao explorar o sentimento dos personagens com comedimento e humanidade, o longa patina ao se dividir em duas metades tão distintas. Num primeiro momento, o realizador australiano é realista ao traduzir a desesperadora situação do pequeno Saroo, investindo numa abordagem crua e inocente ao investigar a dolorosa realidade de uma criança perdida em meio ao caos indiano. Quando o argumento resolver dar o esperado salto temporal, no entanto, a queda de ritmo é perceptível. Embora Dev Patel entregue uma atuação realmente singular, a película falha ao subaproveitar os complexos dilemas em torno do adulto Saroo, os esvaziando em detrimento da construção da aguardada jornada pessoal do protagonista. O resultado é uma obra edificante, com uma inquestionável carga emocional, mas que não consegue explorar todo o seu potencial. Nada que atrapalhe a magnífica performance do pequeno Sunny Pawar, a verdadeira força motora desta sensível película.


Com base na autobiografia do próprio Saroo Brierley, o argumento assinado por Luke Davies peca, principalmente, quando o assunto é a passagem de tempo. Por mais que os saltos temporais sejam compreensíveis, o longa falha ao não revelar o impacto dos episódios experimentados por eles durantes estas lacunas, tornando a construção dos personagens raso aos olhos do público. Indo do ponto A ao B com enorme descuido, fica difícil acreditar, por exemplo, que o pequeno Saroo não sofreu qualquer tipo de mudança após quase dois meses abandonado nas ruas de Calcutá ou então que ele precisou de vinte anos para começar a sofrer com o distanciamento da sua família biológica. Na hora final, inclusive, estes problemas se acentuam, já que o roteiro é esquemático ao explorar as questões mais espinhosas por trás da relação do protagonista com a sua família adotiva. Embora Garth Davis mostre sensibilidade ao realçar a conexão entre os personagens e ao lidar com estas nuances mais íntimas, o longa flerta perigosamente com o teor ficcional ao "empilhar" uma série de conflitos com inegável conveniência. No melhor estilo efeito cascata, basta o jovem começar a refletir sobre o seu passado para que os problemas com o seu irmão postiço se aflorem, para que a afetuosa relação com a sua mãe adotiva esfrie e para que perguntas tardias passem a tomar conta da sua cabeça. Na verdade, não existe um meio termo quando o assunto é a fase adulta de Saroo. Numa hora ele está bem com a sua confortável realidade em solo australiano, na outra amargurado quanto o paradeiro dos seus parentes biológicos. Diante destes problemas, Davis até tenta dar relevância a todos estes arcos, mas o resultado é superficial e nada harmonioso.


Menos mal que, quando o foco está na figura de Saroo, Lion se revela uma obra recheada de predicados. Me arrisco dizer, inclusive, que o status conquistado pelo longa se deve a sua extraordinária hora inicial. Com uma abordagem crua e quase documental, Garth Davis é virtuoso ao potencializar a vulnerabilidade do pequeno indiano em meio a um ambiente naturalmente caótico. Fazendo um excelente uso dos planos gerais, o australiano brilha ao não só traduzir o desespero do inocente protagonista, como também a desoladora realidade das crianças abandonadas neste cenário hostil. A sequência em que o diretor contrasta a fragilidade do guri com a imponência de Calcutá, por exemplo, é genial. Além disso, ele esbanja sutileza ao dialogar com os temas mais delicados, apostando no poder da sugestão ao expor os perigos em torno do abandono infantil. Impecável ao estabelecer o sofrimento do solitário Saroo, o realizador é igualmente habilidoso ao introduzir a fraternal interação entre o garoto e o seu irmão Guddu. Em poucas cenas, Garth Davis esbanja sensibilidade ao valorizar a sincera conexão entre os dois, um sentimento potencializado pela extraordinária química entre Sunny Pawar e Abhishek Bharate. Desta estreita relação, aliás, nascem alguns dos momentos mais comoventes do último ato, principalmente pela capacidade do diretor em explorar os elementos mais subjetivos da trama. Por mais que a mudança na postura do protagonista seja repentina, o argumento é perspicaz ao explorar os crescentes lampejos de memória de Saroo e a influência deles na busca pelo paradeiro da sua família biológica. Sem querer revelar muito, a maneira encontrada pelo roteiro para reacender um vínculo afetivo aparentemente esquecido é singela e inspirada, uma das melhores cenas dentro da oscilante hora final. Melhor ainda, aliás, é a criatividade do realizador ao fazer menção aos recursos do Google Earth. Com uma câmera panorâmica, ele captura a vastidão do território indiano do primeiro ao último minuto, realçando a faceta mais impossível em torno desta incrível reaproximação.


A sutileza de Garth Davis, no entanto, é realmente sentida dentro do emocionante clímax. Impulsionado pela sólida atuação de Dev Patel, comedido ao absorver o misto de obsessão, obstinação, solidão e esperança do adulto Saroo, o australiano sai em defesa da lágrima solitária, do abraço afetuoso, realçando as emoções mais sinceras por trás deste aguardado reencontro. Indo de encontro ao esquematismo que tomou conta de parte dos dois últimos atos, o realizador acerta ao valorizar a simplicidade, a pureza desta reaproximação e os sentimentos do protagonista, comprovando que o menos pode ser mais. O mesmo, aliás, acontece na arrepiante sequência final envolvendo o amor entre os irmãos, um desfecho emocionante digno de uma produção indicada ao Oscar de Melhor Filme. A força de Lion, porém, reside na excepcional presença de Sunny Pawar. Dono de uma espontaneidade impressionante, o carismático jovem equilibra inocência, bravura e temor com enorme categoria, nos fazendo crer no sofrimento do pequeno Saroo. Com uma olhar forte e uma presença física marcante, o pequeno ator rouba a cena sempre que está nela e prepara o terreno para o seu talentoso companheiro de cena. O mesmo, aliás, pode se dizer da bela Priyanka Bose e do simpático Abhishek Bharate, cativantes na pele da marcante mãe biológica e do zeloso Guddu. Em contrapartida, enquanto Dev Patel mostrou predicados que justificam uma indicação ao Oscar, a veterana Nicole Kidman é um dos elementos superestimados do longa. Embora atrapalhada pelo roteiro, que subaproveita os dilemas morais da sua personagem, a laureada atriz americana entrega duas boas cenas e só, pouco para uma indicada a estatueta dourada. Já a expressiva Rooney Mara até funciona como o interesse amoroso de Saroo, mas o êxito se deve muito mais à química entre os protagonistas, do que propriamente a qualidade do texto.


Contando ainda com a fotografia pálida e naturalista de Graig Fraser (Star Wars: Rogue One), imersiva ao reproduzir as mazelas enfrentadas pelas crianças indianas, Lion: Uma Jornada para Casa se esquiva das soluções fáceis ao narrar esta marcante história real sob um prisma realístico e menos colorido. Embora oscile quando o assunto é a introdução dos dilemas da fase adulta de Saroo, Garth Davis amplia o escopo da trama durante a magnífica primeira hora, elevando o nível da película ao desbravar a face mais desigual e subvalorizada deste superpopuloso país asiático.

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