sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

John Wick: Um Novo Dia para Matar

Quando a arte encontra a ação


O que O Império Contra-Ataca (1980), O Exterminador do Futuro 2 (1991), Shrek 2 (2004) e John Wick: Um Novo Dia para Matar têm em comum? Um simples fato. Ambos fazem parte de um seleto grupo de continuações que superaram o nível de qualidade do seu original. Apesar do genérico subtítulo brasileiro deixar uma péssima impressão, o longa novamente dirigido por Chad Stahelski brilha ao ampliar o escopo da ação sem abdicar do estilo e da originalidade. Embora a vingança esteja novamente no centro da trama, o realizador é sagaz ao se aprofundar no grande diferencial do antecessor, a engenhosa sociedade secreta de assassinos, flertando com a elegância dos filmes de máfia ao construir uma premissa sólida e naturalmente instigante. Com uma direção de arte primorosa e uma expressiva fotografia, Stahelski entrega uma película esteticamente magnífica, uma obra capaz de equilibrar agressividade e refinamento com rara inspiração. E isso, obviamente, sem esquecer de ampliar o mito em torno do temido John Wick, que, graças a extraordinária presença física de Keanu Reeves, surge ainda mais letal e 'badass' na busca pela sua tão cobiçada aposentadoria.


Com argumento novamente assinado por Derek Kolstad, Um Novo Dia para Matar é impecável ao ampliar no rico cenário apresentado no primeiro longa. De longe o grande diferencial de De Volta ao Jogo, a sociedade secreta de assassinos ganha uma voz bem mais presente nesta continuação, se tornando uma peça chave dentro da nova missão de John Wick. Com ironia e uma assinatura de fazer inveja a qualquer grande realizador de Hollywood, o promissor Chad Stahelski é perspicaz ao explorar tanto o fino trato entre os integrantes desta sigilosa organização, quanto o seu requintado 'modus operandi', mostrando pleno domínio sobre este universo ao utiliza-lo como o agente catalisador deste segundo filme. Sem querer revelar muito, a maneira com que o roteiro reinventa o velho "acordo de cavalheiros" é genial, uma espécie de homenagem ao clássico O Poderoso Chefão. Na trama, após finalmente recuperar o seu estimado carro das garras da máfia russa, John Wick estava preparado para reiniciar a sua vida de aposentado. Ele, porém, não contava com a aparição do poderoso Santino (Riccardo Scamarcio), um herdeiro da máfia italiana que reaparece disposto a cobrar uma velha dívida. Inicialmente determinado a não voltar para o mundo do crime, John não demora muito para perceber que não teria paz enquanto não quitasse esta promessa. Com poucas alternativas, o ex-assassino desembarca em Roma para cumprir a sua última missão, sem sequer desconfiar que estaria entrando num jogo envolvendo poder, conspiração e traição.


Indo de encontro ao objetivo primeiro longa, uma obra eficaz sobre vingança inserido num ambiente inegavelmente original, John Wick: Um Novo Dia para Matar revela um argumento bem mais sólido e refinado. Embora os absurdos típicos do escapista cinema de ação estejam novamente presentes, Chad Stahelski não se contenta em reciclar a competente fórmula do original. Fazendo um excelente uso do sentimento de vingança, aqui, dentro de um contexto conspiratório, o argumento flerta com elementos do cinema de máfia ao coloca-lo no centro de algo maior e mais perigoso. Ainda que alguns dos novos ingredientes da trama não sejam tão bem aproveitados, entre eles o chefão do submundo interpretado por Laurence Fishburne, o realizador é sagaz ao construir uma ameaça mais presente e imponente. Como se não bastasse a poderosa presença de Santino, o típico mafioso com interesses escusos, Stahelski abre o seu leque quando o assunto são os demais assassinos profissionais, nos brindando com personagens implacáveis e naturalmente marcantes. Esnobada em filmes como XXX: Reativado e Resident Evil 6, a magnética Ruby Rose rouba a cena na pele da pequena Ares, uma chefe de segurança silenciosa e autoconfiante que logo se torna a pedra no sapato do anti-herói. Numa solução inventiva, o diretor flerta com elementos gráficos do cinema mudo ao traduzir a deficiência sonora da antagonista, tornando os tensos "diálogos" entre ela e John naturalmente atraente aos olhos do público. Num todo, aliás, o argumento faz um sarcástico uso das populares frases de efeito, arrancando nervosas risadas ao realçar o humor em meio ao caos e a violência.


Com diálogos inteligentes e uma premissa bem resolvida em mãos, Chad Stahelski é habilidoso ao solidificar o mito em torno da figura John Wick. Logo na empolgante sequência de abertura, uma espécie de acerto de contas ainda envolvendo os episódios do original, o realizador mostra perspicácia ao se conectar com as novas audiências, restabelecendo o temor em torno da presença do anti-herói numa cena vigorosa e imponente. Não se engane, porém, com a aparente indestrutibilidade do personagem. Assim como no longa anterior, Stahelski esbanja categoria ao realçar a sensação de vulnerabilidade de Wick perante os seus oponentes, permitindo que o público enxergue a deterioração física do seu personagem à medida que a trama avança. Um mérito que, diga-se de passagem, precisa ser dividido com Keanu Reeves. Dono de uma inquestionável presença física, o astro de Matrix e Constantine se entrega de corpo e alma às imprevisíveis sequências de ação, nos fazendo crer não só no poder de improviso do assassino, como também na sua fragilidade diante dos inúmeros rivais. Apesar da sua aura naturalmente 'badass', John Wick apanha em cena, sangra e mostra cansaço, um senso de realidade potencializado pela capacidade do ator em interiorizar este desgaste. Além disso, Reeves mostra uma afiada veia cômica ao absorver o sarcasmo defendido pelo roteiro, pontuando alguns dos momentos mais agressivos com diálogos irônicos e pontuais frases de efeito. Assim como o protagonista, aliás, o restante do elenco cumpre a sua função com louvor, comprovando a capacidade de Stahelski em tirar o máximo dos seus personagens em pouco tempo de tela. Enquanto os veteranos Ian McShane e Franco Nero adicionam um inegável charme ao filme, os competentes Comon, Lance Reddick e Claudia Gerini preenchem as brechas com extrema categoria. Esta última, inclusive, protagoniza uma cena poderosa, um momento visceral capturado com rara elegância.


O que realmente chama a atenção em John Wick: Um Novo Dia para Matar, no entanto, é o magnífico apuro estético do longa. Disposto a explorar o fértil universo da sociedade secreta, Chad Stahelski investe em cenários ricos e diversificados. Contando com o primoroso trabalho da equipe de direção de arte. o diretor cria ambientes autorais recheados de estilo, tornando esta organização criminosa visualmente atraente aos olhos do espectador. Reparem, por exemplo, no detalhismo do realizador quando o assunto é a composição das cenas, no seu requinte ao explorar como opulentas obras de artes, grandiosas construções e um luxuoso mobiliário. Melhor ainda, porém, é a criatividade de Stahelski ao reproduzir o 'modus operandi' dos assassinos. Numa fascinante construção de mundo, ele flerta com elementos 'vintages' e da cultura 'pin up' ao expor, dentre outras coisas, o engenhoso sistema de comunicação dos assassinos, as suas particulares instituições financeiras e o "suporte técnico" oferecido por esta organização internacional. Impecável ao compor este vasto cenário, Chad Stahelski se consagra como uma das relevantes novas vozes do gênero ao arquitetar as opressivas cenas de ação. Com um expressivo repertório de enquadramentos e planos sequência, ele faz questão de valorizar os combates em si, as elaboradas coreografias, mantendo uma calculada distância ao enfatizar a movimentação dos personagens e as imprevisíveis soluções encontrada por eles.


Não podemos esquecer, porém, da exuberante fotografia de Dan Laustsen, requintada ao traduzir o estado de espírito do protagonista. Enquanto o anti-herói experimenta a posição de caçador, Chad Stahelski faz um inspirado uso das sombras, do clima sorrateiro, uma solução incrementada pela sofisticada iluminação em tons de neon e pelo uso sutil das cores primárias. Toda a sequência em Roma, por exemplo, é soberba, uma aula de como valorizar a tensão com elegância e virtuosismo. À medida que o grau de exposição do protagonista muda, no entanto, realizador investe num visual mais 'clean' e reluzente, criando um contraste natural ao capturar a explosão de violência em torno da hora final. Na verdade, Stahelski é sutil ao expor a mudança de "status" do protagonista, realçando a sua letalidade em meio ao caos ao apostar em cenários modernos e numa palheta de cores mais luminosa. O resultado é ousado e expressivo, uma experiência estética rara para os filmes do gênero. Dito isso, impulsionado pela enérgica trilha eletrônica da dupla Tyler Bates e Joel J. Richard e pelo original senso de simultaneidade da equipe de montagem, John Wick: Capítulo 2 consolida um novo anti-herói numa continuação refinada, instigante e absolutamente agressiva. Embora não esteja livre dos problemas, a maioria deles envolvendo a repetição de algumas situações e os dispensáveis interesses comerciais dentro do último ato, o longa adiciona uma generosa dose de frescor ao cinema de ação ao mostrar que é possível extrair arte de um segmento tão brutalizado sem abdicar da sua essência.

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