sábado, 28 de janeiro de 2017

Luto (Morre John Hurt)


Dono de uma filmografia extensa e memorável, o excepcional Sir. John Hurt faleceu nesta sexta-feira (27), aos 77 anos, em decorrência de um câncer de pâncreas. Com um pleno domínio sobre a arte de atuar, o versátil ator britânico construiu uma carreira recheada de marcantes personagens, indo do drama ao blockbuster em títulos do quilate de O Expresso da Meia Noite (1977), Alien: O Oitavo Passageiro (1979), O Homem Elefante (1980), Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001), Hellboy (2004) e V de Vingança (2005). Atuante durante as últimas cinco décadas, Hurt deu sequência ao seu trabalho mesmo acometido por esta trágica doença, tanto que em breve ele marcará presença no biográfico Jackie, longa que tem estreia marcada para o próximo dia 2 de Fevereiro. Além disso, o saudoso ator deixa outros três trabalhos concluídos, são eles o drama That Good Night, o thriller Damascus Cover e a biografia esportiva My Name is Lenny.



John Hurt em O Expresso da Meia Noite
Nascido na cidade de Chesterfield, na Inglaterra, John Vincent Hurt estreou nos cinemas em 1962 com o drama Um Grito de Revolta. O seu primeiro papel de destaque, contudo, foi em O Homem que Não Vendeu a sua Alma (1966), um drama biográfico que deu a ele a possibilidade de dividir a cena com nomes do porte Paul Scofield (O Trem) e Orson Welles (O Cidadão Kane). Após protagonizar O Irresistível Bandoleiro (1969), uma esnobada comédia dirigida pelo grande John Huston (Moby Dick), o ator transitou por produções menores na TV e no Cinema. A sua carreira voltaria aos holofotes, no entanto, no final da década de 1970, quando ele estrelou o elogiado O Expresso da Meia Noite (1977). Dando vida ao viciado Max, um homem adoentado detido numa isolada prisão turca, Hurt viu as portas se abrirem ao conseguir a sua primeira indicação ao Oscar na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Não demoraria muito, aliás, para ele emplacar outros dois marcantes trabalhos. Sob a batuta de Ridley Scott, John Hurt ganhou um papel de destaque no icônico Alien: O Oitavo Passageiro (1979), se tornando a popular primeira vítima do temido xenomorfo extraterrestre. Uma cena memorável que se tornou referência dentro da cultura pop. 


Foi em O Homem Elefante (1980), porém, que John Hurt alcançou o ponto mais alto de sua carreira. Inspirado em fatos verídicos, o talentoso ator inglês conquistou novamente a atenção da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ao interpretar Joseph Merrick, um homem deformado tratado como aberração em virtude da Síndrome de Proteus. Mesmo sob forte maquiagem, ele entregou uma das performances mais singulares e expressivas de sua carreira, conquistando a sua segunda e última indicação ao Oscar, desta vez na categoria Melhor Ator. Curiosamente, neste ano Hurt coestrelou também o grandioso O Portal do Paraíso, um épico de quase cinco horas e meia que se tornou um dos maiores fracassos comerciais da história de Hollywood. De volta aos papéis mais desafiadores, o legendário ator voltou ao universo do Sci-Fi no provocante 1984 (1984), uma ficção-científica distópica sobre uma sociedade constantemente vigiada obrigada a reprimir as suas emoções mais básicas. Um filmaço! Nos anos seguintes, John Hurt se manteve ativo e transitando por diversos gêneros, comprovando a sua versatilidade no thriller O Traidor (1984), no drama Escândalo: A História que Seduziu o Mundo (1989), na comédia Rei por Acaso (1991), no western Wild Bill: Uma Lenda no Oeste (1995) e na aventura épica Rob Roy: A Saga de uma Paixão (1995). 


Com a capacidade de se destacar mesmo em papéis menores, John Hurt entrou de vez no universo blockbuster ao interpretar o Mr. Olivander em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001). Logo após ele ganhou uma papel de mentor no competente Hellboy (2004), assumiu uma nefasta persona no excelente V de Vingança (2005), ganhou um dos personagens mais interessantes do dispensável Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), interpretou o tutor do mitológico Teseu no subestimado Imortais (2011) e uma dúbia figura no divertido Hércules (2014). Neste meio tempo, porém, Hurt também abraçou alguns papéis de cunho dramático, recebendo elogios por seu desempenho em Tiros em Ruanda (2005), O Espião que Sabia Demais (2011) e nos excelentes Expresso do Amanhã (2013) e Amantes Eternos (2013). Já na TV, Hurt conquistou o carinhos dos nerds 'old-school' viver o War Doctor na popular temporada de 2013 da cultuada série Doctor Who. No ano de 2015, aliás, ele recebeu a honraria máxima do Império Britânico, ganhando o título de Sir das mãos da Rainha Elizabeth II. Em suma, dono de um carisma natural, John Hurt foi uma daqueles raros realizadores que não precisava de muito para imprimir o seu talento em cena, um misto de sutileza, naturalidade e explosão que se tornou marcante ao longo da sua inquestionável carreira. RIP.

Morre John Hurt. 

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