sábado, 24 de dezembro de 2016

Top 10 (Surpresas Cinematográficas de 2016)


Mais um fim de ano se aproxima e, como de costume aqui no blog, chegou a hora do nosso balanço cinematográfico. Num ano bem mais ou menos para os fãs do cinema pipoca, alguns dos mais aguardados blockbusters decepcionaram (Esquadrão Suicida, Independence Day: O Ressurgimento), outros sequer foram dignos de nota (Alice Através do Espelho, Warcraft) e muitos tropeçaram na perigosa barreira da expectativa (Batman V Superman e As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras). No meio de tanto hype, porém, alguns filmes surpreenderam justamente por oferecer aquilo que os títulos acima não conseguiram: entretenimento de qualidade. Dito isto, neste Top 10 teremos uma lista com dez das grandes surpresas cinematográficas de 2016, aquelas produções que ninguém estava dando muito bola, mas que mereceram um lugar de destaque numa temporada inegavelmente oscilante. Como de costume, a lista leva em consideração apenas o meu gosto pessoal, ou seja, elementos como lucratividade, popularidade e sucesso comercial não serão levados em conta. Até porque, rentabilidade nem sempre é sinônimo de bom filme, vide o estrondoso êxito do desastrado Transformers: A Era da Extinção, um filme confuso e genérico que faturou mais de US$ 1 bi ao redor do mundo. Desta forma, começamos com...

10º Caça-Fantasmas (Dir: Paul Feig)


Poucos filmes apanharam tanto em 2016 quanto as Caça-Fantasmas. Mesmo antes de chegar ao cinema, o longa dirigido pelo ótimo Paul Feig (As Bem Armadas) já tinha nota negativa no IMDB, o maior índice de avaliações negativas da história do Youtube e uma legião de fãs raivosos com a opção da Sony em lançar um reboot protagonizado por mulheres. O resultado, porém, foi altamente satisfatório. Trazendo consigo uma divertida mensagem feminina, Feig conseguiu atualizar a franquia sem desrespeita-la, nos oferecendo efeitos visuais coloridos e esteticamente inventivos, uma premissa bem resolvida e uma sucessão de gags acima da média. Além disso, McCarthy, McKinnon, Wiig e Jones exibiram uma ótima química em cena, comprovando o êxito do estúdio no que diz respeito a montagem do elenco. Em suma, apesar da arrecadação apenas modesta, pouco mais de US$ 200 milhões mundialmente, Caça-Fantasmas superou o ódio dos haters e se revelou um dos blockbusters mais surpreendentes de 2016. (Leia a nossa opinião completa aqui)

9º Destino Especial (Dir: Jeff Nichols)


Este pouquíssima gente viu. Infelizmente. Conduzido com energia pelo autoral diretor Jeff Nichols, Destino Especial é um Sci-Fi nostálgico que empolga ao flertar com elementos familiares que consagraram longas do quilate de E.T: O Extraterrestre e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Com um elenco talentosíssimo em mãos e uma premissa naturalmente instigante, o realizador narra a jornada de um garotinho misterioso, interpretado pelo promissor Jaeden Lieberher (Um Santo Vizinho), que ao lado do seu pai, vivido pelo excelente Michael Shannon (O Homem de Aço), precisam correr contra o tempo para chegar a um determinado lugar antes que a CIA encontre o seu paradeiro. Assim como nos seus dois ótimos últimos filmes, o psicológico O Abrigo e o intenso Amor Bandido, Nichols permite que o espectador experimento o benefício da dúvida em torno da película, em torno dos motivos dos protagonistas, o que se torna decisivo para o excelente ritmo do longa. (Leia a nossa opinião completa aqui). 

8º Águas Rasas (Dir: Jaume Collet-Serra)


Se eu pudesse usar um adjetivo para resumir Águas Rasas, este seria surpreendente. Conduzido pelo talentoso Jaume Collet-Serra (Noite sem Fim, Sem Escalas), um especialista em realçar a tensão em torno dos seus projetos, o longa coloca a bela Blake Lively isolada numa praia paradisíaca lutando pela sua vida contra um violento tubarão. Simples assim. Com agilidade e intensidade, o realizador espanhol constrói uma película angustiante e esteticamente refinada, um filme de sobrevivência marcado pelo carisma da protagonista, pela radiante fotografia e pelos interessantes efeitos visuais. (Leia a nossa opinião completa aqui). 

7º Mais Forte que o Mundo (Dir: Afonso Poyart)


Utilizando o seu virtuoso apuro estético em prol da narrativa, Afonso Poyart passeia com intimismo pela trajetória do lutador José Aldo no excelente Mais Forte que o Mundo. Muito mais do que uma simples cinebiografia esportiva, o longa é cuidadoso ao revelar a explosiva personalidade do lutador brasileiro, um homem de origem pobre que encontrou no MMA a chance de encontrar a tão cobiçada estabilidade. Sem a intenção de criar um herói, o diretor brasileiro expõe o melhor e o pior por trás da personalidade de Aldo, dando uma conotação extremamente humana a este cinebiografia. Além disso, Poyart esbanja categoria ao construir uma série de excepcionais sequências de ação, momentos empolgantes valorizados pela visceral performance de José Loreto. (Leia a nossa opinião completa aqui). 

6º Meu Amigo, o Dragão (Dir: David Lowery)


Imagine uma animação Disney dirigida por um realizador 'indie'. Esse é o excelente Meu Amigo, O Dragáo. Dirigido com elegância por David Lowery (Amor Fora da Lei), o longa estrelado pelo carismático Oakes Fegley é uma refilmagem que surpreende justamente por investir numa abordagem mais humana e sensível. Impecável ao reconstruir o amistoso dragão, a aventura narra a jornada de um menino órfão que, após ser criado na floresta por uma gentil criatura, e encontrado por uma gentil guarda florestal. Logicamente, a descoberta da existência do dragão logo se torna um problema para o moleque, principalmente quando um interesseiro madeireiro resolve faturar um trocado com a amistosa criatura. Apesar da premissa aparentemente requentada, o argumento tem um que de produção Pixar, muito em função da sutileza com que explora o drama do protagonista e a sua delicada ressocialização. Além disso, com magníficos efeitos visuais e um lúdico argumento, Lowery foge do lugar comum ao oferecer uma aventura Disney mais sutil, mais silenciosa, um filme belíssimo que não merecia cair no esquecimento. (Leia a nossa opinião completa aqui). 

5º Jovens, Loucos e mais Rebeldes (Dir: Richard Linklater)


Após tecer um reflexivo relato sobre os anseios e conflitos de um grupo de adolescentes em Jovens, Loucos e Rebeldes (1993), Richard Linklater (Boyhood) volta a dialogar com temas essencialmente joviais no envolvente Jovens, Loucos e Mais Rebeldes. Apesar das evidentes semelhanças entre os dois longas, o cultuado diretor norte-americano é perspicaz ao sintetizar de maneira bem mais descompromissada as primeiras experiências de um grupo de calouros recém-chegados a faculdade. Ainda que não mostre a mesma profundidade e variedade de nichos apresentada no aclamado primeiro filme, Linklater adota novamente um tom universal e naturalista ao revelar a euforia, o fervor sexual e os crescentes obstáculos por trás do início de mais esta fase da vida. Não espere, porém, uma daquelas típicas e requentadas comédias adolescentes. Mais do que construir arcos e definir arquétipos, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes se encanta com a breve possibilidade de desvendar a rotina deste carismático grupo de universitários e expor as particularidades, as incoerências e as rixas por trás desta embrionária relação de amizade. (Leia a nossa opinião completa aqui)

5º Eu, Você e a Garota que vai Morrer (Dir: Alfonso Gomez-Rejon)


Na falta de espaço um conveniente empate. Um prato cheio para os cinéfilos de plantão, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer se revela um drama juvenil virtuoso, honesto e absolutamente relevante. Conduzido com vigor estético pelo promissor Alfonso Gomez-Rejon (Glee), o longa absorve elementos do cinema independente ao narrar uma sensível e agridoce história de amizade e amadurecimento. Indo além das inspiradas e nada óbvias referências à sétima arte, a película se esquiva dos melodramas ao transitar por temas naturalmente espinhosos, encontrando no carismático elenco a maturidade necessária para dar corpo a este leve e apaixonante relato sobre as dores da juventude. (Leia a nossa opinião completa aqui). 

4º Deus Branco (Dir: Kornél Mundruczó)


Uma fábula húngara altamente contextualizada, Deus Branco é um drama poderoso que utiliza uma premissa fantástica para escancarar a crescente xenofobia na Europa. Numa mistura de Planeta dos Macacos com Lassie, o longa narra as desventuras da pequena Lili, uma jovem solitária que encontrava no seu fiel cão vira-lata a cumplicidade que os seus pais não lhe davam. Após uma repentina mudança, porém, ele se vê obrigada a se separar do seu cão, já que o novo prédio do seu pai não aceitava a presença de cães mestiços. Abandonado no meio da rua, o inteligente e dócil animal passa a experimentar o lado mais obscuro de um marginalizado, se tornando um ameaça no momento em que enxerga uma brecha para insurgir contra àqueles que o maltrataram. Rodado um pouco antes da crise dos imigrantes sírios na Hungria, o longa se antecipou ao colocar o dedo na ferida e promover uma crítica social urgente e inventiva. Além disso, enquanto cinema, Deus Branco é uma obra tensa e engenhosa, principalmente por utilizar mais de uma centena de cães na realização das filmagens. (Leia a nossa opinião completa aqui). 

3º Sing Street: Música e Sonhos (Dir: John Carney)


Esse entrou na lista aos 45 min do segundo tempo. Lançado recentemente via Netflix no Brasil, Sing Street é mais uma das pérolas musicais do excelente diretor John Carney. Após os revigorantes Apenas uma Vez (2007) e Mesmo se Nada der Certo (2013), o eclético realizador nos brinda com um pulsante retrato sobre o pop\rock britânico da década de 1980. Com uma trilha sonora recheada de clássicos, que vão de A-Ha a The Cure com enorme energia, o cativante longa narra a jornada do deslocado Conor (Ferdia Walsh-Peelo), um adolescente vidrado na cultura pop que vê a sua rotina mudar drasticamente no momento em que é obrigado a se transferir para um conservador colégio católico. Acuado e com poucos amigos, ele se encanta repentinamente pela beleza de Raphina (Lucy Boynton), uma jovem aspirante à modelo que morava em frente ao seu novo lugar de estudo. Empurrado pelo seu único amigo, o carismático Darren (Ben Carolan), ele resolve se aproximar dela e a convida para a gravação de um videoclipe. O único problema é que Conor sequer tinha uma banda. Apoiado pelo seu irmão mais velho, o idealista Brendan (Jack Reynor, magnífico em cena), o jovem decide encontrar colegas dispostos à participar desta empreitada, encontrando no poder da música o empurrão necessário para encarar de frente os obstáculos que o cercam. 


Com base nesta premissa tipicamente oitentista, John Carney vai bem além do romance 'teen' ao transitar por temas mais densos e delicados. Sem nunca abrir mão da vibe otimista, o diretor e roteirista expõe a castradora realidade enfrentada por estes garotos ao falar com sensibilidade sobre o conservadorismo, a violência doméstica, o divórcio, a falta de oportunidades e a frustração quanto aos objetivos que não se realizaram. Em sua essência, porém, Sing Street se rebela justamente contra esta resignação e valoriza a capacidade daquele que se livra destas amarras e segue o seu sonho. Da afetuosa relação entre Conor e Brendan, inclusive, nasce um arco irretocável, uma passagem de bastão emocionante embalada pela fantástica trilha sonora original e por lições de rara sinceridade. Sem querer revelar muito, a cena em que o garoto vê o seu "herói\mentor" desmoronar à sua frente é de cortar o coração, um momento intimista que só um diretor com faro apurado poderia extrair. Num todo, aliás, Carney pontua este 'feel good movie' com sequências inesperadamente incisivas, momentos fortes que só tornam a transformação do protagonista mais crível aos olhos do público. Além disso, o diretor irlandês é perspicaz ao recriar o peculiar cenário oitentista, buscando inspiração no visual de algumas das grandes bandas da época para compor o figurino dos seus personagens. Contando ainda com a vibrante performance do jovem Ferdia Walsh-Peelo e a magnética presença da talentosa Lucy Boynton, Sing Street é uma produção com alma juvenil, um longa que, ao compartilhar do espírito indomável dos seus personagens, traz consigo uma mensagem esperançosa, por vezes inocente, mas absolutamente libertadora. 

2º Deadpool (Dir: Tim Miller)


Após o fracasso de X: Men Origens - Wolverine, o verborrágico Deadpool caiu num buraco que parecia significar o seu completo esquecimento. O obstinado Ryan Reynolds, porém, não estava satisfeito com o trágico destino do seu querido personagem. Disposto a resgatar o aspecto 'non-sense' e metalinguístico dos quadrinhos, o astro canadense embarcou numa cruzada pessoal, se livrou das amarras dos produtores e convenceu os executivos da Fox a investir num projeto mais autoral. Mesmo limitado pelo modesto orçamento, cerca de US$ 60 milhões, Reynolds ganhou carta branca para fazer o seu filme, uma produção marcada pela elevada classificação etária, pela irreverência e pela energia contagiante do seu protagonista. O resultado, como a maioria deve saber, foi extraordinário. Recebido com entusiasmo pela crítica internacional, o longa dirigido por Tim Miller faturou surpreendentes US$ 780 milhões ao redor do mundo e se tornou um dos maiores sucessos comerciais de 2016. (Leia a nossa opinião completa aqui)

2º Invasão Zumbi (Dir: Sang-ho Yeon)



Na lista de surpresas, uma novidade de última hora. Fazendo um excelente uso do fator humano, um elemento potencializado pelos cativantes personagens, Invasão Zumbi é o melhor filme do gênero desde o intenso Extermínio (2002). Impulsionado pela performance do qualificado elenco, que, indo de encontro a proposta por vezes exagerada do cinema asiático, consegue absorver a tensão, a dramaticidade e o desespero exprimido em tela com comedimento, Sang-ho Yeon resgata a seriedade deste segmento numa película crítica, assustadora e sufocante. Um entretenimento de surpreendente qualidade que, a partir de uma premissa aparentemente desconexa da realidade, propõe uma urgente reflexão sobre a maneira com que olhamos para o próximo dentro da nossa agitada rotina urbana. (Leia a nossa opinião completa aqui)

1º Rua Cloverfield, 10 (Dir: Dan Trachtenberg)


Desde a sua origem, Rua Cloverfield, 10 cresceu envolto em mistérios. Uma espécie de continuação\derivado\filme de origem do excelente Cloverfield - O Monstro, o longa dirigido por Dan Trachtenberg e produzido por J.J Abrams foi rodado totalmente em segredo. Nem os próprios atores sabiam que estavam trabalhando num novo título desta possível franquia, o que só foi revelado durante o processo de filmagem. Curiosamente, o mistério era tanto que o projeto saiu do papel com o nome de 'The Cellar', uma sacada interessante justamente por afastar os holofotes da mídia quanto a produção desta "sequência". Eis que, de uma hora para outra, surgiu o extraordinário trailer de Rua Cloverfield 10, um thriller promissor estrelado pelo trio Mary Elizabeth Winstead, John Goodman e John Gallagher Jr. Fazendo um excelente uso do elemento tensão, Trachtenberg provoca o espectador ao longo dos envolventes 105 minutos de projeção, levantando uma série de dúvidas quanto ao rumo da trama, a ambiguidade dos personagens e a existência da tão temida ameaça. Em suma, com um John Goodman inspirado, uma protagonista destemida e uma direção positivamente claustrofóbica, Rua Cloverfield 10 é um thriller sufocante, um longa intenso e recheado de personalidade. (Leia a nossa opinião completa aqui)

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