quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Chegada

Um Sci-fi com coração

Trazendo na sua essência o DNA do gênero Sci-Fi, A Chegada é uma película maiúscula. Tensa, inteligente e constantemente reflexiva, a nova produção do arrojado Denis Villeneuve (Sicario, Os Suspeitos) esbanja sensibilidade ao transitar por assuntos tão complexos com extrema plenitude. Com uma premissa instigante em mãos, o diretor canadense utiliza uma enigmática invasão alienígena como o estopim para a construção de um relato humano e pacifista, um longa com múltiplas camadas capaz de abranger temas proporcionalmente contrastantes sem nunca perder o foco. Indo além dos dilemas recorrentes da ficção-científica, incluindo o medo do desconhecido e o velho dualismo razão\emoção, Villeneuve é primoroso ao apontar a sua contextualizada mira para a frágil relação entre as grandes potências globais, escancarando o distanciamento e as perigosas diferenças ideológicas com inegável sagacidade. É quando se volta para a intimista jornada da sua magnífica protagonista, porém, que o longa alcança um patamar realmente extraordinário, principalmente por dialogar com delicadas questões universais sob um ponto de vista absolutamente único. Em suma, independente dos ligeiros percalços, A Chegada é um Sci-Fi raro, um longa surpreendente que consegue desafiar o cérebro do espectador sem esquecer de tocar o seu coração.


Inspirado no conto Story of Your Life, do escritor Ted Chiang, o argumento assinado por Eric Heisserer é praticamente irretocável ao construir a jornada da Dr. Louise Banks (Amy Adams). Já na memorável sequência de abertura, o longa estabelece com um soberbo poder de síntese o drama familiar da especialista em linguística, permitindo que o público crie uma conexão praticamente instantânea com a independente personagem. O mesmo, aliás, acontece quando o assunto é a introdução da ameaça alienígena. Sem tempo a perder, Denis Villeneuve abraça o mistério em torno das intenções dos extraterrestres com afinco, nos colocando no ponto de vista da protagonista ao desvendar com um misto de espanto, medo e curiosidade os simbolismos por trás desta repentina aparição. Na trama, após trabalhar para o exército num antigo caso envolvendo um grupo rebelde, Louise é selecionada pelo Coronel Weber (Forest Whitaker) para tentar decifrar a linguagem utilizada pelos aliens no seu primeiro contato com a raça humana. Inicialmente insegura, a professora universitária resolve aceitar a "missão", se unindo ao cientista Ian Donnelly (Jeremy Renner) na tentativa de compreender o comportamento desta espécie. Na linha de frente contra uma possível ameaça a vida na Terra, Louise e Ian logo percebem que terão de correr contra o tempo, já que um grupo de nações liderado pela China decide se preparar para um ataque sem antes entender os reais interesses por trás desta invasão.


No que diz respeito ao aspecto Sci-Fi, A Chegada se revela uma experiência  recompensadora para os fãs do gênero. Por mais que o ritmo suave possa parecer incomodo aos olhos do espectador mais desavisado, Denis Villeneuve é particularmente cuidadoso ao desenvolver a relação de aprendizado entre os especialistas e os extraterrestres, um processo de alfabetização detalhista e plausível que se conecta harmoniosamente ao arco dramático da protagonista. Embasado pelo 'modus operandis' científico, o realizador abraça conceitos realmente críveis e se esquiva do didatismo ao tornar a decodificação da linguagem alien inesperadamente atraente aos olhos do público. Chama a atenção, inclusive, o seu cuidado ao desenvolver os símbolos gráficos reproduzidos pelos extraterrestres, uma linguagem avançada e singular que se assemelha, a grosso modo, aos complexos ideogramas asiáticos. Além disso, Villeneuve mostra categoria ao traduzir o misto de medo e fascínio em torno deste contato com uma espécie alienígena, potencializando a atmosfera de tensão ao se ater inicialmente a perspectiva de Louise. Na verdade, ainda que os aliens não demorem muito para ganhar forma, um visual, diga-se de passagem, tradicionalista e imponente, o diretor é inventivo ao criar um ambiente por si só desconfortável. Como se não bastasse o pálido cenário minimalista, o canadense utiliza os ruidosos efeitos sonoros (ou até mesmo o silêncio) como uma espécie de aliado, principalmente nos momentos mais angustiantes, realçando o potencial de imersão ao longo do primeiro ato. Melhor ainda, porém, é a maneira gradativa com que o argumento desvenda os segredos por trás desta invasão. Sem recorrer a explanações mirabolantes, a troca de informações mútua entre humanos e invasores é inteligente e coerente com a proposta intimista do roteiro, o que fica claro quando nos deparamos com o surpreendente último ato.


Outro ponto que agrada, e muito, é a perspicácia do argumento ao utilizar o poder da comunicação como o instrumento para uma bem vinda crítica em torno da frágil relação política entre as grandes nações. Com agilidade e contundência, Denis Villeneuve encontra brechas para expor não só a perigosa desunião entre os principais líderes nacionais, como também a irracionalidade, a violência social e a paranoia virtual ao redor do mundo, atitudes que ganham corpo antes mesmo dos alienígenas exporem as suas reais motivações. Por mais que as intenções do militares americanos sejam mais racionais, numa abordagem condizente com o atual contexto político, o roteiro é habilidoso ao explorar a enraizada tradição bélica dos EUA, questionando a ignorância por trás dos grandes conflitos. A alma (e o coração) de A Chegada, porém, reside no arco da Dr. Louise Banks. Fazendo um impecável uso dos sensíveis flashbacks, que são costurados à trama com maestria pela fantástica montagem de Joe Walker (12 Anos de Escravidão), Villeneuve se volta para os lampejos de memória da linguista ao desvendar as suas sinceras nuances mais íntimas, permitindo que a protagonista cresça em cena à medida que a sua cumplicidade com os extraterrestres se torna mais evidente. Da sua incrível jornada, inclusive, nascem os temas mais humanos e reflexivos, a maioria deles envolvendo o impacto da morte, a dor do luto e a relatividade do tempo. Questões sentimentais aparentemente requentadas, que, discutidas sob um singular prisma cíclico, culminam numa daquelas reviravoltas dignas de aplausos. Um plot criativo e bem arquitetado que, num primeiro momento, pode até soar incoerente com a proposta lógica da película, mas que logo revela uma das sequências finais mais belas e tocantes da história recente do cinema.


Méritos que, indiscutivelmente, precisam ser divididos com a estupenda performance de Amy Adams. Mais do que uma simples especialista em busca de respostas, Louise é uma personagem feminina rara, uma mulher brilhante e resiliente que ganha uma faceta humana nas mãos da talentosa atriz norte-americana. Comedida em cena, Adams absorve o turbilhão de emoções enfrentado por sua personagem com extrema sutileza, nos fazendo realmente enxergar a deterioração física e emocional da linguista durante o processo de compreensão dos códigos alien. Com um tipo mais retilíneo em mãos, o versátil Jeremy Renner adiciona uma dose de confiança à trama com o seu Ian, um cientista irônico e intransigente que logo se vê fascinado pelo ímpeto da sua parceira de pesquisa. A química profissional entre Adams e Renner, aliás, é precisamente trabalhada por Dennis Villeneuve, se tornando um elemento decisivo para a construção do excelente último ato. Ainda sobre o enxuto elenco, enquanto Forest Whitaker foge do lugar comum ao criar um coronel do exército mais cerebral e compreensivo, o carismático Michael Stuhlbarg (Trumbo) se distancia do tom unidimensional ao interpretar um inflexível agente da CIA.


Por fim, como de costume em sua enxuta e preciosa filmografia, Denis Villeneuve nos presenteia com uma película visualmente refinada. Impecável ao traduzir o estado de espírito dos seus personagens, o diretor é inicialmente brilhante ao capturar a sensação de claustrofobia experimentada por Lousie, valorizada pelos sufocantes enquadramentos, pelos angustiantes takes em primeira pessoa e pela nebulosa fotografia esbranquiçada de Bradford Young (Selma: A Voz da Igualdade). Antes disto, porém, Villeneuve nos presenteia com uma cena de abertura intimista e comovente, uma sequência expressiva que me fez lembrar da sensacional abertura de Up: Altas Aventuras (2009). Quando o assunto é a nave alienígena, aliás, o canadense mostra uma assinatura igualmente particular ao construir um cenário 'clean' e minimalista. A saída que o diretor encontrou para destacar a comunicação entre humanos e aliens, por exemplo, é sagaz e expressiva, uma opção com potencial cinematográfico que remete diretamente a uma sala de aula. Além disso, Villeneuve é particularmente habilidoso ao explorar a questão da gravidade dentro do OVNI. Numa opção angustiante, o realizador brinca com os ângulos e as noções de perspectiva ao arquitetar as cenas internas, indo do vertical ao horizontal com requintada peculiaridade. A cereja do bolo, porém, fica para os provocantes acordes de Jóhann Jóhannsson (A Teoria de Tudo). Ora doce e melancólica, ora pulsante e desconfortável, a estupenda trilha sonora embala a trama com rara inspiração, transformando o longa numa experiência sensorial de tirar o chapéu.


Equilibrando razão e emoção com absurda categoria, A Chegada é um Sci-Fi intrigante e universal que, mesmo diante do seu coeso desfecho, nos oferece a possibilidade de refletir sobre a sua poderosa mensagem humanitária e talvez reinterpretar os significados por trás deste engenhoso quebra cabeça linguístico. Apesar da complexidade do tema proposto, Denis Villeneuve adiciona mais um triunfo a sua filmografia ao conceber um longa profundo, cru e objetivo, uma ficção-científica capaz de mexer com os sentimentos do espectador de maneira completamente imprevisível. 

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