sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Eu, Você e a Garota que Vai Morrer

As dores da juventude

Um prato cheio para os cinéfilos de plantão, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer se revela um drama juvenil virtuoso, honesto e absolutamente relevante. Conduzido com vigor estético pelo promissor Alfonso Gomez-Rejon (Glee), o longa absorve elementos do cinema independente ao narrar uma sensível e agridoce história de amizade e amadurecimento. Indo além das inspiradas e nada óbvias referências à sétima arte, a película se esquiva dos melodramas ao transitar por temas naturalmente espinhosos, encontrando no carismático elenco a maturidade necessária para dar corpo a este leve e apaixonante relato sobre as dores da juventude. 


Lançado inexplicavelmente direto em DVD no Brasil, Eu, Você e a Garota que vai Morrer passeia com sinceridade e frescor por temas recorrentes dentro do universo adolescente. Mesmo diante de um tema mais pesado, o câncer na adolescência, o argumento assinado por Jesse Andrews opta por se concentrar em questões mais universais, como a apatia social, a insegurança e o medo do futuro, dilemas que ganham uma abordagem particular graças ao afiado texto e ao carisma dos adoráveis protagonistas. Inspirado no livro homônimo assinado pelo próprio roteirista, o longa acompanha as desventuras do "invisível" Greg (Thomas Mann), um jovem comum que decidiu criar laços superficiais  com os principais grupos do seu colégio na tentativa de "sobreviver" a este ambiente voraz. Seu único amigo era o divertido Earl (RJ Cyler), um garoto esfomeado com que dividia a autoria de alguns pequenos filmes, versões "suecadas" de clássicos do cinema mundial. Feliz com a sua rotina, ele é pego de surpresa quando a sua mãe o obriga a se aproximar da simpática Rachel (Olivia Cooke), uma radiante garota que descobre estar com leucemia. Inicialmente contrariado, Greg resolve oferecer um ombro amigo para a jovem, sem saber que desta relação nasceria uma amizade capaz de mudar o seu próprio futuro. 


Não se engane com a aparente leveza da premissa. Quando preciso, Eu, Você e a Garota que vai Morrer se esquiva das fórmulas fáceis e dos clichês românticos ao investigar os problemas em torno do casal de amigos. Fazendo um excelente uso do recurso da narração, o argumento se divide em capítulos ágeis e sucintos, dando o mesmo peso a problemas de grau totalmente diferentes. Numa sacada interessante, ainda que a jovem Rachel represente o estopim da trama, Alfonso Gomez-Rejon opta por revelar o impacto desta dolorosa doença sob o ponto de vista do acomodado Greg, permitindo que o público enxergue o amadurecimento do personagem de maneira profunda e original. Cultivando uma expressiva atmosfera cult, potencializada pelas inteligentes referências à sétima arte, pela refinada trilha sonora e pela colorida direção de arte, o diretor passeia com extrema sensibilidade pelos temais mais delicados, permitindo que o espectador ria, se encante, se emocione e sofra com esta improvável parceria. E isso sem pesar a mão nos momentos mais lacrimosos, que ganham corpo de acordo com a proposta fraternal defendida pela película. 


Melhor ainda, no entanto, é a maneira intimista com que o realizador constrói esta adorável relação. Como se não bastasse a impressionante química entre os protagonistas, Alfonso Gomez-Rejon investe em cenas singelas e naturalistas. Com inventivos movimentos de câmera e rigorosos enquadramentos, o realizador abre espaço para práticos planos sequências, realçando a cumplicidade e a franqueza em torno da bem humorada amizade entre Greg e Olívia. As juvenis discussões existenciais dos dois, por exemplo, rendem uma série de momentos memoráveis, daqueles que emocionam sem precisar apelar para as firulas melodramáticas ou para os clichês do gênero. Ponto para a vigorosa fotografia do sul-coreano Chung-hong Chung, o mesmo de Oldboy e Lady Vigança, impecável ao capturar não só a explosão de cores em torno da jornada dos personagens, como também ao tornar possível algumas das virtuosas soluções estéticas defendidas por Rejon. Na melhor delas, a câmera vai do horizontal ao vertical com inesperada criatividade, dando uma roupagem toda especial para uma cena simples e praticamente irrelevante para o rumo da trama. 


Apesar do inesperado rigor estético chamar a atenção, o grande trunfo do longa reside nas atuações da dupla Olivia Cooke e Thomas Mann. Impecável ao absorver o turbilhão de emoções enfrentado pela sua personagem, a promissora atriz inglesa cria uma figura radiante, uma adolescente que logo conquista a nossa torcida. No mesmo nível da sua parceira de cena, Mann apresenta um Gerg inicialmente acomodado, mas que cresce à medida que se aproxima de Olívia. Dono de um senso de humor particular, o ator nos faz crer nos conflitos do seu carismático personagem, um jovem comum obrigado a deixar a sua zona de conforto diante desta arrebatadora amizade. Quem rouba a cena, porém, é o excelente RJ Cyler. O terceiro integrante da trama, o promissor ator captura a franqueza do seu Earl com absoluta energia, se tornando um elemento decisivo dentro do longa. Quem também rouba a cena é o intenso Jon Bernthal (The Walking Dead), impecável ao dar vida a um descolado professor de história. Neste sentido, aliás, ainda que os adultos não estejam no foco da trama, o excêntrico Nick Offerman e a divertida Molly Shannon ganham um merecido destaque como, respectivamente, o viajado pai de Greg e a instável mãe de Rachel. 


Prestando uma preciosa homenagem à sétima arte, com direito a inesperadas referências aos cultuados O Sétimo Selo, Por um Punhado de Dólares, A Conversação e Aguirre: A Cólera dos Deuses, Eu, Você e a Garota que vai Morrer esbanja personalidade ao investigar os aparentemente recorrentes dilemas geracionais dos personagens com sinceridade e originalidade. Por mais que a atmosfera 'indie' possa confundir o espectador mais desavisado, principalmente no que diz respeito ao curioso senso humor da trama, Alfonso Gomez-Rejon revela uma elevada dose de maturidade ao transitar da comédia ao drama, da alegria a dor, nos brindando com uma carismática e apaixonante história de amizade e amadurecimento. 

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