sexta-feira, 15 de julho de 2016

Caça-Fantasmas

Nunca julgue um filme pelo trailer


Polêmicas à parte, (as) Caça-Fantasmas é o remake que a cultuada comédia oitentista merecia. Ou melhor, precisava. No auge de uma pertinente discussão social envolvendo a questão do empoderamento feminino em Hollywood, o talentoso diretor Paul Feig resolveu apostar alto, sair da zona de conforto e alterar o status quo de uma poderosa franquia em prol de algo novo e relevante. Indo além da simples troca de gênero, o realizador faz um excepcional uso do 'girl power' ao subverter as fórmulas do longa original, encontrando no novo quarteto de protagonistas o frescor necessário para a construção de um blockbuster empolgante, hilário e inegavelmente necessário. Impulsionado pela química do afiado elenco, pelo incorreto senso de humor e pelo inventivo aspecto visual, Feig brilha ao brincar com os arquétipos do cultuado primeiro longa, conseguindo atualizar a franquia sem precisar descaracteriza-la.



Responsável por algumas das melhores comédias dos últimos anos, vide os impagáveis Missão Madrinha de Casamento, As Bem Armadas e A Espiã que Sabia de Menos, Paul Feig transforma Caça-Fantasmas no trabalho mais arriscado da sua bem sucedida carreira. Reconhecido por dar voz às mulheres, o realizador não se faz de rogado ao explorar temas comuns ao primeiro longa sob um prisma atual e feminino, mostrando não só um pouco mais de sensibilidade ao introduzir a amizade entre as personagens, como também um tom levemente crítico ao expor os obstáculos, o descrédito e a constante busca das protagonistas por reconhecimento. Neste sentido, aliás, o argumento é sagaz ao utilizar o pano de fundo fantasmagórico para levantar uma bandeira em prol da igualdade de gênero, rindo dos "opressores" tipos masculinos ao transforma-los em figuras geralmente estúpidas e incompetentes. E isso, obviamente, sem parecer panfletário ou prejudicar o escapismo da película. Além disso, ainda que cada uma delas traga consigo os arquétipos dos caçadores originais, Feig impede que as novas personagens cumpram apenas uma mesma função narrativa ao longo da trama, permitindo que elas ganhem contornos mais autorais e independentes. Uma identidade própria e absolutamente engraçada.


Num primeiro momento, o argumento assinado pelo próprio Paul Feig, ao lado de Katie Dippold, parece seguir as mesmas fórmulas do original. Aos poucos, porém, percebemos que a longa opta por seguir um caminho mais condizente com a proposta feminina, principalmente no que diz respeito aos dilemas das protagonistas e a introdução de um vilão mais presente. Na trama, após serem expulsas da universidade em que trabalhavam, a cientista nerd Erin (Kristen Wiig), a espirituosa Abby (Melissa McCarthy) e a perita em gadgets Holtz (Kate McKinnon) se veem obrigadas a alugar um novo espaço para dar sequência as suas pesquisas sobre o mundo dos espectros. Numa suas muitas incursões, no entanto, elas são surpreendidas ao se depararem com um fantasma de verdade, uma criatura hostil e amedrontadora. Empolgadas com a descoberta, elas resolvem se unir a Patty (Leslie Jones), uma funcionária do metrô de NY que as leva a uma nova criatura fantasmagórica. Contando com a ajuda do simpático Kevin (Chris Hemsworth), um secretário bonitão e particularmente burro, o quarteto resolve iniciar uma caçada pelas ruas de Nova Iorque, sem saber que a verdadeira ameaça por trás destas aparições poderia estar mais viva do que elas pensavam. 



Narrativamente, o novo Caça-Fantasmas é habilidoso ao subverter as fórmulas do primeiro longa. Como se não bastasse a mudança no gênero das protagonistas, Paul Feig investe num humor mais constante e politicamente incorreto, rindo não só da excentricidade das personagens, como também dos estereótipos, dos 'haters' e dos machistas em geral. Sem se levar a sério por um segundo sequer, o argumento arranca sinceras risadas ao explorar o humor físico e o excepcional timing cômico do elenco, permitindo que cada uma das caçadoras adicione um pouco da sua essência ao longa. Sem querer revelar muito, a cena envolvendo o primeiro teste da mochila de próton é impagável, assim como as inúmeras referências à cultura pop. Num todo, aliás, as gags são certeiras e bem utilizadas, principalmente quando complementam as sequências mais aventureiras. Melhor ainda, porém, é a maneira sagaz com que Feig se apropria do 'girl power'. Mesmo diante das mais ameaçadoras criaturas fantasmagóricas, as personagens se mostram confiantes e inteligentes, refutando o rótulo do sexo frágil ao se manterem sempre no controle da situação. Outro ponto que agrada, e muito, é a relação delas com o "mascote" Kevin. Naturalmente engraçado, o personagem funciona tanto como um preciso ingrediente cômico, quanto como um elemento decisivo dentro do grandioso clímax, se revelando um dos pontos altos da trama.


A ousadia de Feig, no entanto, fica evidente no momento em que o roteiro abre espaço para as referências ao primeiro longa. Sem apelar para o tom reverencial, o argumento provoca o espectador ao utilizar o elenco original de maneira inusitada, permitindo que eles integrem a trama em sequências pontuais e surpreendentes. Uma delas, em especial, atesta a coragem desta refilmagem. A alma de Caça-Fantasmas, porém, reside no entrosado elenco. Como de costume, Melissa McCarthy esbanja irreverência ao rir de si mesma, se mostrando à vontade não só nas sequências mais físicas, como também nos diálogos mais irônicos. Dividindo o status de líder das caçadoras, a versátil Kristen Wiig cativa ao interpretar um tipo atrapalhado e menos confiante. O encantamento dela por Kevin, aliás, rende alguns dos momentos mais hilários da película, potencializados pela performance positivamente estúpida de Chris Hemsworth. Quem pagou para ver Wiig e McCarthy, no entanto, vai se surpreender com a vigorosa atuação de Kate McKinnon. Destaque do SNL, a radiante atriz empolga com a poderosa Holtz, uma personagem 'bad-ass' e estranhamente sexy que protagoniza algumas das melhores sequências do longa. Com um invejável tempo de comédia, McKinnon rouba a cena com as suas expressões irônicas e a sua postura corajosa, se tornando a grande novidade deste remake. Por fim, Leslie Jones vai além dos estereótipos raciais ao se revelar uma personagem esperta e hilária, o coração deste supergrupo. 



Com uma trama objetiva e bem resolvida em mãos, Paul Feig mostra categoria ao atualizar a franquia também no aspecto visual. Apesar das cores lúdicas e da proposta aventureira, o realizador investe numa abordagem mais arrepiante, valorizando a atmosfera de tensão ao investir em criaturas sombrias e autorais. Por mais que o novo Caça-Fantasmas não seja um filme assustador, é interessante ver o cuidado de Feig na construção do suspense, principalmente ao longo do envolvente primeiro ato. Fazendo um excelente uso dos recursos digitais, o diretor é igualmente habilidoso ao ampliar o arsenal das caçadoras. Indo além dos coloridos raios de neon, o longa abre um bem vindo espaço para as armas mais portáteis, com destaque para as pistolas explosivas, granadas de luz, trituradores de fantasmas e uma espécie "turbinada" de soco inglês. Desta forma, Feig consegue ampliar a variedade das sequências de ação, construindo um combinado de cenas ágeis, maiores e mais ambiciosas. Dentro do agitado clímax, inclusive, o realizador explora com brilhantismo as noções de escala, indo de embates mais individuais a destruição em larga escala com inesperada fluidez. Méritos que, diga-se de passagem, precisam ser divididos com a vibrante fotografia do virtuoso Robert D. Yeoman (O Grande Hotel Budapeste), impecável ao promover uma agradabilíssima mistura de cores. Feig, aliás, faz também um inspirado uso do 3-D, nos brindando com uma experiência completa e imersiva.


Convivendo com pesadas críticas desde o lançamento do seu rejeitado primeiro trailer, as Caça-Fantasmas se revela uma refilmagem poderosa e absolutamente relevante. Mesmo diante deste cenário comercialmente nebuloso, Paul Feig se mantém fiel à sua proposta inicial ao remodelar uma cultuada franquia em prol de uma proposta igualitária e feminina, nos entregando um blockbuster capaz de empolgar e defender uma bandeira sem perder a sua universalidade. Ainda que esbarre em alguns pequenos deslizes, a maioria deles envolvendo o raso e subaproveitado antagonista, o longa encontra no talento do afiado novo quarteto a energia necessária para resgatar a essência cômica\aventureira do cultuado clássico de 1984. E isso sem precisar apelar para as genéricas concessões ao longa original.

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