terça-feira, 24 de maio de 2016

Vizinhos 2

Feminismo para iniciantes


Um degrau acima do irreverente primeiro longa, Vizinhos 2 é uma daquelas raras continuações que parece ter algo novo a dizer. Fiel à imatura cartilha do original, a comédia novamente dirigida por Nicholas Stoller (Cinco Anos de Noivado) é sagaz ao ampliar o seu alcance junto ao público, transformando a hilária rixa entre vizinhos no estopim para uma debochada, bem vinda e inesperada mensagem feminista. Embora o foco da trama siga nas desventuras do desastrado casal interpretado por Seth Rogen e Rose Byrne, o realizador foge do lugar comum ao questionar o sexismo em torno do universo 'high school' nos cinemas, abraçando o humor sujo e politicamente incorreto ao colocar estes pais de primeira viagem diante de uma "ameaça" mais furiosa e barulhenta: uma revolucionária fraternidade feminina.



Na trama, após conseguirem expulsar os integrantes da Delta Psy, o casal Mac (Rogen) e Kelly (Byrne) levava uma vida tranquila ao lado da pequena Stella. Na expectativa para o nascimento da sua segunda filha, os dois planejavam se mudar para uma casa maior e contavam com a venda do seu antigo imóvel. Quando tudo parecia bem encaminhado, o casal é surpreendido com a chegada da independente Shelby (Chloë Moretz), a determinada líder da Kappa Nu e sua mais nova vizinha. Disposta a modificar a estrutura social do campus, a jovem resolve criar uma fraternidade inovadora e antissexista, um espaço onde as mulheres não seriam tratadas como um simples objeto e teriam direito as suas próprias festas. Assustados com a possibilidade de perder o negócio, Mac e Kelly decidem tentar controlar as garotas por trinta dias, impedindo assim que os novos compradores desistam da transação. Contando com a ajuda do imaturo Teddy (Zac Effron), os dois dão início a um desastrado plano de "contenção", sem saber que teriam pela frente uma fraternidade ainda mais persistente e baderneira.


Apesar das semelhanças com o seu antecessor, Vizinhos 2 investe num cenário mais elaborado ao construir esta rivalidade recheada de absurdos. Na contramão do original, o argumento não se resume ao duelo de gerações entre uma recém-formada família em busca de paz e um grupo de jovens movido pelos hormônios, abrindo espaço para três hilárias e bem resolvidas subtramas. Por mais que os ataques entre os vizinhos não sejam tão inventivos quanto no primeiro filme, Nicholas Stoller é perspicaz ao dialogar com temas essencialmente atuais, ampliando o alcance do longa ao reproduzir não só os enraizados obstáculos sexistas enfrentados pelas universitárias, como também as inseguranças paternas do disfuncional casal de protagonistas e a crise de identidade do solitário Teddy. Em outras palavras, além de mirar (e acertar) o público feminino com um interessante discurso feminista, o roteiro é honesto ao analisar os dilemas dos jovens\adultos que insistem em não amadurecer, propondo através desta rixa uma reflexão sutil, coerente e nada panfletária. Numa sacada original, aliás, o longa é igualmente habilidoso ao encontrar um denominador comum por trás desta rivalidade, tornando os problemas do descuidados pais ainda mais curiosos aos olhos do público.


Não se engane, porém, com a aparente maturidade desta continuação. Assim como no original, Nicholas Stoller adota uma abordagem escrachada e politicamente incorreta, ridicularizando os clichês do cinema 'high school' ao explorar temas como a sexualidade, a popularidade e a estrutura social deste universo. Mesmo ultrapassando a barreira do bom gosto em alguns momentos, o longa arranca diversas risadas ao acompanhar a "estupidez" dos seus cativantes personagens, numa sucessão de gags envolvendo 'bromances', drogas, vibradores e idiotices em geral. De maneira ágil e eficiente, Stoller aposta ora no humor físico, ora na irreverência do texto, indo das piadas referenciais aos momentos escatológicos com energia e fluidez. Além disso, o diretor mostra criatividade ao fazer uso das inserções gráficas, adicionando novos elementos estéticos a esta continuação. Sem querer revelar muito, a homenagem ao clássico Exterminador do Futuro é sensacional, assim como os estereotipados e sexistas clipes das fraternidades. Num todo, aliás, Vizinhos 2 supera o seu antecessor no que diz respeito ao aspecto visual, com direito a cenas em super câmera lenta, ao uso de diferentes plataformas virtuais e a uma montagem ainda mais afiada.


A alma desta sequências, no entanto, reside no desinibido elenco. Sem medo de rir de si mesmo, o carismático time de atores exibe um impecável tempo de comédia, absorvendo com rara categoria o teor satírico e as situações nonsenses presentes no texto. Mais uma vez à vontade como os desastrados Mac e Kelly, os talentosos Seth Rogen (A Entrevista) e Rose Byrne (A Espiã que sabia de Menos) traduzem com espontaneidade os dilemas do imaturo casal, principalmente na relação pouco ortodoxa com a sua pequena filha. A versátil atriz australiana, aliás, é impecável ao capturar o humor grosseiro e acidental da sua personagem, criando situações naturalmente constrangedoras. Quem também arranca uma série de risadas é o valente Zac Efron (High School Musical). Lutando para apagar o rótulo de galã teen, o jovem ator debocha do arquétipo que o consagrou ao reproduzir a crise do ex-aluno popular que insiste em não amadurecer. Num trabalho propositalmente caricato, Efron se expõe "literalmente" ao dar vida a um tipo engraçado e positivamente extravagante. Apesar de pontual, a relação entre ele e o personagem interpretado pelo irônico Dave Franco (Anjos da Lei) é novamente um dos pontos altos da película. E como se não bastasse a volta do elenco original, o longa ganha o reforço da carismática Chloe Moretz (Kick-Ass). Dona de uma filmografia particular, a jovem atriz rouba a cena com a independente Shelby, se tornando a porta voz de um discurso irreverente e adequado aos anseios da sua geração.


Contando ainda com a expressiva presença da jovem Kiersey Clemons (Dope: Um Deslize Perigoso) e com as hilárias aparições do ator Ike Barinholtz (Irmãs), Vizinhos 2 esconde nas estupidas atitudes dos seus personagens uma mensagem contextualizada e levemente reflexiva. Por mais que a rixa entre os dois grupos seja resolvida de maneira apressada e ligeiramente condescendente, Nicholas Stoller surpreende ao colocar em cheque o sexismo em torno dos estereótipos do gênero, construindo uma comédia rebelde, improvável e curiosamente feminista. E isso, sinceramente, era a última coisa que eu esperava ver nesta divertida sequência.

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