sexta-feira, 13 de maio de 2016

Angry Birds: O Filme

Narrativa simplória impede que esta divertida adaptação alce voos mais altos

Lançada em 2009 pela Rovio Entertainment, a série de games Angry Birds se tornou um daqueles repentinos fenômenos mundiais. Leve, criativo e inegavelmente viciante, o jogo conquistou o público com a sua mecânica simples e os seus cenários variados, uma mistura perfeita para um descompromissado passatempo. Os executivos da Sony, porém, enxergaram um algo a mais no raivoso embate entre os coloridos pássaros sem asas e os vilanescos porcos raptores de ovos. O resultado é Angry Birds: O Filme, uma cativante adaptação que, mesmo diante da sua simplória premissa, consegue resgatar a essência deste divertidíssimo aplicativo. Sob a batuta dos diretores Clay Kaytis e Fergal Reilly, o longa contorna as evidentes limitações narrativas ao investir pesado no humor, encontrando na irreverência do roteirista Jon Vitti (Os Simpsons) a base para a construção dos carismáticos protagonistas e da inofensiva trama.



Com um fiapo de enredo em mãos, Vitti é perspicaz ao compreender e desenvolver os seus protagonistas. Numa solução inspirada, o roteirista busca no jogo as características mais marcantes dos personagens, utilizando elementos como as cores e os seus respectivos poderes para definir a identidade dos heróis. Desta forma, o avermelhado Red se revela uma figura irritadiça, o acelerado Chuck ganha uma personalidade hiperativa e o "explosivo" Bomba uma faceta instável. Amparado por este hilário trio, de longe o ponto alto da adaptação, Angry Birds acompanha as desventuras de Red (voz de Marcelo Adnett), um pássaro "sobrancelhudo" que vivia isolado graças ao seu temperamento frequentemente hostil. Após uma trapalhada envolvendo uma festa infantil, a sarcástica ave é condenada a um período de tratamento numa clínica anti estresse. Lá, sob a supervisão da controlada Matilda (voz de Dani Calabresa), ele conhece o exagerado Chuck (voz de Fábio Porchat), o afetuoso Bomba (voz de Mauro Ramos) e o monossilábico Terence (voz de Sean Penn). Durante uma destas aulas, no entanto, eles são surpreendidos com a chegada de um barco capitaneado pelo extravagante porco Leonard (voz de Guilherme Briggs). Apesar dos alertas pessimistas de Red, os pássaros resolvem receber os suínos de maneira amistosa, evitando enxergar os perigos por trás desta repentina "visita".


Narrativamente raso, Angry Birds: O Filme se garante no seu carismático trio de protagonistas. Diante da simplória premissa, o roteirista Jon Vitti é preciso ao se concentrar na figura de Red e ao introduzir a sua rotina de rabugices. Mesmo direcionado ao público infantil, o argumento dialoga por diversas vezes com o humor politicamente incorreto e com o sarcasmo, arrancando sinceras risadas ao reproduzir as crises de raiva do avermelhado pássaro e a sua cativante relação com os igualmente instáveis Chuck e Bomba. Apesar da aparente fofura da animação, os diretores Clay Kaytis e Fergal Reilly investem em alguns elementos mais ousados, entre eles a versátil trilha sonora (com direito a Black Sabbath, Scorpions e Tone-Loc), a incrementada montagem, as criativas referências e as incessantes piadas visuais. Sem querer revelar muito, toda a sequência envolvendo o santuário da heroica Mega Águia é impagável. À medida que os porcos assumem o antagonismo, no entanto, o longa começa a patinar. Assim como no game, os vilões são genéricos e sem personalidade, uma espécie de Minions sem graça. Num todo, aliás, os coadjuvantes pouco acrescentam à trama, sendo na maioria das vezes eclipsados por Red, Chuck e Bomb. As exceções ficam pela subaproveitada Matilda e pelo interessante Terence. Além disso, a "guerra" entre as aves e os suínos é introduzida de maneira acelerada, reduzindo o impacto das singelas lições de moral ao se prender excessivamente a tão esperada batalha.


Menos mal que, fiel à mecânica do game, as sequências de ação são inventivas e inegavelmente empolgantes. Fazendo um primoroso uso do 3-D, os diretores Clay Kaytis e Fergal Reilly são habilidosos ao reproduzir a estrutura do aplicativo, tornando a "invasão" dos raivosos pássaros algo naturalmente atraente aos olhos do público. O visual da animação, aliás, é impecável em todos os sentidos. Tanto o paradisíaco cenário, quanto os cativantes personagens são expressivos, detalhistas e ultracoloridos, um dos grandes diferenciais desta adaptação. Elementos como a velocidade de Chuck, a textura das penas de Red e o misto de imponência/decadência da Mega Águia são primorosamente concebidos, comprovando o cuidado dos realizadores no design dos carismáticos protagonistas. Em alguns momentos, inclusive, a dupla abre espaço para a animação em 2-D, construindo um par de cenas totalmente "fora da caixinha". Outro ponto que merece elogios é a dublagem brasileira. Enquanto Marcelo Adnet adiciona uma invejável dose de sarcasmo ao mal humorado Red, Fábio Porchat (que já havia emprestado a sua voz ao adorável Olaf em Frozen) mostra uma impressionante versatilidade vocal ao construir o hilário e verborrágico Chuck. Já entre os dubladores profissionais, o celebrado Guilherme Briggs faz o possível para tornar o extravagante Leonard um vilão interessante, mas a impressão que fica é que estamos diante de um Rei Julian (Madagascar) genérico e mal intencionado.


Irreverente, frenético e descompromissado, Angry Birds: O Filme se revela uma aventura satisfatória que preza acima de tudo pela dinâmica do jogo. Apesar da premissa rasa e simplista, a animação investe pesado no desenvolvimento do trio dos protagonistas, abraçando o bom humor ao fazer de Red, Chuck e Bomba a verdadeira força motora desta simpática animação. Porém, num período marcado por sucessos do porte de Zootopia e Divertida Mente, as evidentes limitações narrativas impostas pelo material original impedem que os irritados pássaros consigam alçar voos mais altos nesta simpática adaptação.

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