domingo, 24 de janeiro de 2016

Reza a Lenda

Ficou na expectativa

Classificado precocemente como uma espécie de "Mad Max brasileiro", Reza a Lenda derrapa nas geralmente perigosas curvas da expectativa. Numa corajosa tentativa de defender o cinema de gênero, subvalorizado dentro do pasteurizado mercado cinematográfico brasileiro, o estreante em longas metragens Homero Olivetto (Maria Rita) até se esforça para construir um produto pop e visualmente refinado. Na prática, porém, o resultado passa longe do padrão de qualidade esperado. Oriundo do mercado publicitário, Olivetto parece realmente se encantar com a beleza do cenário sertanejo e com a possibilidade de falar através de contemplativas imagens, esbarrando nas suas próprias pretensões estéticas ao entregar uma película de aparência bela e requintada, mas narrativamente pobre e sem ritmo. E este se revela um enorme pecado, já que quando o assunto é a ação propriamente dita, Reza a Lenda também deixa a desejar.



Apesar de flertar com uma temática essencialmente tupiniquim, o sincretismo religioso no sertão brasileiro, o argumento assinado pelo próprio Homero Olivetto, ao lado de Patrícia Andrade e Newton Cannito, falha por completo na tentativa de criar um vínculo entre espectador e protagonistas. Ainda que o talentoso elenco dê um pouco mais de credibilidade aos seus rasos personagens, o roteiro não parece nenhum um pouco interessado em se aprofundar no drama da trupe de motoqueiros justiceiros, se agarrando à soluções frágeis ao narrar a problemática jornada do misterioso Ara (Cauã Reymond). Criado por uma espécie de profeta sertanejo, o jovem órfão cresceu ao lado dos seus companheiros de bando, aprendendo que uma santa milagrosa poderia restabelecer a ordem natural no sertão e trazer a tão esperada chuva. Ao lado da sua mulher Severina (Sophie Charlotte) e do seu braço direito Pica-Pau (Jesuíta Barbosa), Ara entra em rota de colisão com o cruel Tenório (Humberto Martins) ao roubar dele a tão procurada imagem. Na fuga, no entanto, um acidente os aproxima da assustada Laura (Luisa Arraes), uma jovem que se torna uma espécie de oferenda para um bruxo da região (Julio Andrade). Aos poucos, porém, Ara e Laura se aproximam, gerando uma crise de ciúmes na irritadiça Severina. 


Narrativamente, Reza a Lenda se perde em meio à previsibilidade do roteiro. Além dos personagens insossos e mal desenvolvidos, o argumento investe em fórmulas genéricas, principalmente na construção do descartável triângulo amoroso envolvendo Ara, Laura e Severina. Num período reconhecidamente interessante para as mulheres no cinema pipoca, vide o sucesso de tipos como os de Katniss Everdeen (Jogos Vorazes), Imperatriz Furiosa (Mad Max: Estrada da Fúria) e Rey (Star Wars: O Despertar da Força), Homero Olivetto nada contra esta positiva corrente ao limitar as suas protagonistas a uma ridícula "disputa" pelo macho alfa, reduzindo o impacto da já esvaziada premissa. E os problemas não param por ai. Por mais que a crítica envolvendo o fanatismo e o comércio da fé sejam bem vindas, o longa define a religião como a única motivação dos motoqueiros, promovendo uma mistura de gosto duvidoso ao abordar o sincretismo do bando. Com destaque - negativo - para a esdrúxula figura pagã interpretada por Julio Andrade, um profeta afetado e nada confiável cujo as atitudes beiram o inexplicável. Nesse sentido, aliás, as decisões de Ara e da sua trupe também não fazem qualquer tipo de sentido em alguns momentos. No ápice da incoerência, mesmo ostentando armas de grosso calibre durante toda a película, uma das cascudas personagens reage de maneira absurda diante de uma previsível ameaça.


Inegavelmente falho enquanto história, Reza a Lenda também esbarra na elevada pretensão artística de Homero Olivetto. Trazendo no currículo a experiência no mercado publicitário, um segmento conhecido por falar através das imagens, o diretor procura se manter fiel à este estilo, contemplando a passagem de tempo, a paisagem sertaneja e a expressão dos protagonistas. Ainda que a iluminada fotografia de Marcelo Corpanni se revele um dos pontos altos do longa, esta opção estética definitivamente não funciona, quebrando por diversas vezes o ritmo da trama. Ao longo do vagaroso primeiro ato, inclusive, este problema fica mais evidente, potencializado pela montagem confusa, pelos repetitivos flashbacks e pela redundância com que o pano de fundo religioso é introduzido. A maior parte destes vacilos, porém, passariam praticamente despercebidos se as sequências de ação fossem dignas da elevada expectativa em torno do filme. Infelizmente, elas não são. Freado pelo limitado investimento, Olivetto se rende a um artificial CGI para compor a maior parte das escassas cenas de ação, apostando em takes aéreos e\ou noturnos para "acobertar" os problemas de acabamento por trás da utilização destes recursos digitais. Ainda assim, apesar do nível de realismo ficar aquém do esperado, a luta com facões sob a luz do luar e a perseguição na abertura são dignas dos melhores elogios. Além disso, Olivetto mostra inspiração ao criar uma atmosfera naturalmente inóspita, explorando com inspiração a aridez da caatinga e elementos como a areia e o sol.


Apesar do frisson em torno da estética pop, Reza a Lenda acaba "salvo" pelo empenhado elenco. Líder do bando, Cauã Reymond consegue contornar a superficialidade do errático Ara com uma performance contida e silenciosa. No mesmo nível do companheiro, Jesuíta Barbosa rouba a cena como o hesitante Pica Pau, perambulando pela história com correção ao reproduzir as nuances deste interessante personagem. Já entre as mulheres, enquanto Luisa Arraes não precisa de muito para convencer como a donzela em perigo, usando o seu carisma para driblar as limitações impostas pela previsível Laura, a talentosa Sophie Charlotte é atrapalhada pela ciumenta Severina. Ainda que a sua aparência firme e nada vaidosa chame a atenção, ponto para os figurinistas, Charlotte até se esforça, mas não consegue elevar o nível do irritante triângulo amoroso proposto pela trama. Por outro lado, o veterano Humberto Martins ao menos incomoda como o nefasto "cabra" Tenório, superando o tom unidimensional do seu personagem ao protagonizar sequências naturalmente tensas. Desta forma, apesar de merecer o crédito por defender uma proposta inegavelmente arriscada, Reza a Lenda derrapa ao acreditar basicamente no poder da imagem. Além da evidente imprecisão narrativa e da falta de conexão entre público e história, Homero Olivetto não consegue contornar as ainda nítidas restrições técnicas do cinema nacional, vacilando - dentre outras coisas - ao não oferecer aquilo que parecia ser o diferencial da película: a ação.

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