sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Rio, Eu te Amo

Um Rio de Janeiro para turista ver

Depois de passar por Paris e Nova York, a série de curtas-metragens Cities of Love desembarca no Rio de Janeiro com Rio, eu Te Amo. Reunindo uma série de grandes realizadores do cinema mundial, incluindo ai nomes como o italiano Paolo Sorrentino (A Grande Beleza), o norte-americano John Turturro (Amante a Domicílio), o mexicano Guillermo Arriaga (Babel), os brasileiros Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e José Padilha (Tropa de Elite), entre muitos outros, o copilado de curtas mostra a Cidade Maravilhosa do modo que os turistas se acostumaram a ver. Capturando em poucos momentos a verdadeira essência do carioca, o longa opta por se concentrar muito mais na beleza turística, na marcante mistura de cenários e pessoas, do que propriamente na alma do Rio de Janeiro.


Nos apresentando uma série de dez histórias diferentes, ligadas logicamente pelas belezas naturais da cidade, Rio, Eu Te Amo oscila ao longo das quase 1 h e 40 min de projeção. Em meio a tramas reflexivas, como a crônica sobre a sorte dirigida por Sorrentino e estrelada por Emily Mortimer (Match Point), insossas, como a crise de relacionamento conduzida por Turturro, que mais parece um videoclipe da atriz\cantora Vanessa Paradis (Amante a Domicílio), ou exóticas, como o divertido caso de amor dirigido por Stephan Elliott (Priscila - A Rainha do Deserto), poucos momentos parecem realmente se conectar com o verdadeiro espírito da Cidade Maravilhosa. Por mais que a habilidade técnica dos diretores seja evidente em cena, a impressão que fica é que a maioria dos curtas, ainda que interessantes, poderiam se passar em qualquer outra região do mundo.


Repetindo boa parte dos problemas que cercam esta narrativa recortada, algumas histórias se mostram melhor desenvolvidas do que outras, tornando muitos personagens quase que irrelevantes. Enquanto alguns contos se alongam excessivamente, como a bem filmada trama de Carlos Saldanha (Rio) sobre o relacionamento de um casal de bailarinos (Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer), outros passam rápido demais, como o desabafo social do diretor José Padilha, ou a impactante experiência sensorial dirigida por Fernando Meirelles. Se Padilha, felizmente com o aval da Arquidiocese do RJ, consegue transformar um voo em torno do Cristo Redentor numa contundente crítica protagonizada por Wagner Moura (Elysium), Meirelles, com o luxuoso apoio de Vincent Cassel (Cisne Negro), é extremamente criativo ao mostrar as inspirações de um escultor na Orla de Copacabana. A nítida falta de tempo, aliás, atrapalha também o intenso conto de Guillermo Arriaga, sobre um pugilista maneta que entra no submundo das lutas para pagar a cirurgia de sua esposa, e impede que a inestimável Fernanda Montenegro tenha mais tempo em cena.


Por mais curioso que pareça, apesar da destacável presença de realizadores brasileiros, vem do Líbano e da Coréia do Sul os trabalhos mais ligados ao espírito descontraído da cidade. Com uma inusitada atmosfera gore, o conto dirigido por Sang-soo Im (Hanyo) é - sem dúvida - o ponto alto do longa. Narrando a história de um garçom decadente (o hilário Tonico Pereira) que guarda um sombrio segredo, esse conto explora com primor, e muito samba, a alma bem humorada do carioca. Já das mãos da libanesa Nadine Labaki (E agora onde vamos ?) sai o trabalho mais cativante. Contando com o sempre competente Harvey Keitel (Cães de Aluguel), falando um surpreendente português, a história mostra com extremo bom humor a jornada de uma criança, o carismático Cauã Antunes, que parece ter conseguido o telefone de Jesus Cristo.


Explorando uma visão extremamente internacionalizada, Rio, Eu te Amo não consegue fugir dos clichês que cercam a Cidade Maravilhosa. Apostando na expressiva fotografia assinada por Ricardo Della Rosa (Olga), que aborda de forma inspirada a exótica mistura urbana\natural do RJ, o longa peca por não conseguir reproduzir a verdadeira essência local. Em outras palavras, sobra Bossa Nova, mas falta Samba, sobra inglês, mas falta português, sobra reflexão, mas falta humor, sobra técnica, mas falta entusiasmo, sobra cartão postal, mas faltam os cariocas.


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