terça-feira, 16 de setembro de 2014

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário

Tributo deixa a nostalgia de lado para conquistar novos fãs

Prometendo incomodar os fãs mais intransigentes, Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário promove uma curiosa atualização do clássico anime de Masami Kurumada. Celebrando os quarenta anos da carreira do "pai" de Seiya e os cavaleiros de Athena, o longa demonstra grande respeito aos traços originais na tentativa de dar uma nova roupagem aos personagens. Enquanto o CGI e o interessante visual funcionam a contento, o mesmo não podemos dizer da (arriscada) adaptação da "Saga do Santuário". Pecando ao deixar de lado momentos e personagens icônicos deste marcante arco, o tributo dirigido por Keichi Sato apresenta uma versão mastigada, leve, acelerada e exageradamente voltada ao público mais jovem.


Na verdade, desde a divulgação do primeiro trailer, já sabíamos que seria complicado transformar os 73 episódios do arco original em um filme de 93 min. Com esta dura missão em mãos, o roteirista Chihiro Suzuki teve não só que cortar muitas situações importantes, como também agilizar a própria passagem pelas doze casas. Uma opção que, se não atrapalha o rumo da trama, parece exigir um conhecimento prévio para a melhor compreensão da história. Esquecendo a origem dos cavaleiros de bronze, o duelo com os cavaleiros de prata e o roubo da armadura dourada, o longa se inicia com o duelo entre os Cavaleiros de Gêmeos e Sagitário. 


Como a maioria já sabe, Aiolos é atingido ao tentar salvar a reencarnação da deusa Athena, e deixa Saori Kido aos cuidados de um zeloso milionário no Japão. Dezesseis anos se passam e só então a jovem toma conhecimento do seu verdadeiro passado. Com a ajuda de seus protetores, os cavaleiros de bronze Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki, Saori resolve tentar retomar o seu lugar. Antes disso, porém, ela é atingida por uma flecha venenosa, iniciando assim uma corrida contra o tempo através das escadarias do Santuário. 


Optando por dar uma aura mais mitológica aos cavaleiros e ao santuário, o argumento é superficial e relapso ao desenvolver a batalha das doze casas. Com poucas novidades, a principal delas envolve a flechada em Saori, a acelerada trama deixa de lado não só o peso dramático e o senso de urgência do anime, como também marcantes personagens. Centrado basicamente no descontraído Seiya, o argumento subaproveita personagens como o bad-boy Ikki e o afetuoso Shun. Além disso, os cavaleiros de ouro são facilmente convencidos da identidade de Athena, abreviando icônicos duelos. Por mais que compreenda as boas intenções da animação, o sentimento nostálgico fala mais alto quando algumas situações são esquecidas, como os duelos entre Shiryu e Shura de Capricórnio, Ikki e Shaka de Virgem, os dilemas internos de Saga e uma série de outras passagens. Os rumos dos cavaleiros de Câncer e de Peixe são ainda mais inusitados. Enquanto o cruel Máscara da Morte ganha um caricatural número musical, que funciona dentro da proposta mais leve, o andrógino Afrodite tem apenas uma pequena ponta. 


Se o roteiro peca pelos já esperados problemas, o visual é uma surpresa positiva. Respeitando os traços originais, a animação é eficiente não só na reprodução dos grandes cenários, dando um toque bem particular as doze casas, como também nas detalhadas armaduras e grandiosas batalhas. Ainda que alguns elementos sejam novos, como a utilização de máscaras por parte dos cavaleiros, a equipe de animação foi perspicaz ao capturar os principais detalhes do anime, conseguindo diferencia-los de forma aceitável. Com destaque para as armaduras de Ikki, Saga, Aldebaran, Máscara da Morte e Aiolia, que se mostram mais fieis ao formato clássico. O principal mérito de A Lenda do Santuário, porém, fica pelo esforço da Diamond Films na promoção do longa. Ao resgatar a equipe de dubladores originais, a distribuidora não só torna o filme bem mais aceitável junto aos fãs, como também facilita a associação com o novo visual dos personagens.


Se preocupando muito mais em modernizar esse clássico, que há exatos vinte anos se tornava febre em solo brasileiro, a nova versão de Os Cavaleiros do Zodíaco deixou um óbvio impacto ao término da sessão. Enquanto os mais jovens saíram extasiados da sala de cinema, ávidos por mais informações sobre Seiya e sua turma, os fãs mais nostálgicos se dividiam entre opiniões revoltadas ou conformistas. Pecando ao dispensar alguns dos momentos mais espetaculares da saga, A Lenda do Santuário perde força justamente junto àqueles que o consagraram como um dos maiores e mais populares animes.

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