domingo, 17 de agosto de 2014

As Tartarugas Ninja

Remake de um dos maiores fenômenos da cultura pop na década de 1990, longa oferece o que as novas gerações querem ver


Deixando qualquer tipo de ousadia de lado, a nova versão de As Tartarugas Ninja se mostra eficiente ao atualizar o quarteto de quelônios. Produzido por Michael Bay, o longa aposta em uma trama simplória, na ação de tirar o fôlego e na surpreendente concepção visual para conquistar uma nova geração de fãs. Buscando aproveitar todo o carisma do quarteto, que felizmente tem as suas personalidades e diferenças comportamentais mantidas, a aventura acaba pecando na tentativa de exaltar - a qualquer custo - a presença da bela Megan Fox e da sua April O'Neal. Com direito, até mesmo, a um inusitado close envolvendo um dos atributos físicos da atriz. 

Pode até parecer implicância minha, mas não é. Quem pagar o ingresso para ver Raphael, Donatello, Michelangelo e Leonardo, pode até se decepcionar com os primeiros vinte minutos de projeção. Se concentrando muito mais na introdução da obstinada repórter, do que na origem do quarteto ninja, o roteiro assinado pelo trio Josh Appelbaum, Andrew Nemec e Evan Daugherty peca pelas drásticas mudanças em relação ao original e a famosa série animada. A necessidade de interligar os personagens se mostra genérica e deixa a inevitável sensação de que já vimos isso antes. Ainda que ache Megan Fox uma atriz competente, e não só um símbolo sexual de Hollywood, a opção de colocar April O'Neal no centro das atenções se mostra descartável e atrapalha o ritmo do longa. Além disso, mostra a nítida - e já esperada - interferência de Bay no trabalho do pouco expressivo Jonathan Liebesman (Fúria de Titãs 2). Trazendo no currículo uma série de contestados trabalhos, o diretor não se faz de rogado em desfilar uma série de referências ao estilo de Michael Bay. Com direito a cenas de ação frenéticas, torres caindo, muitas explosões e, logicamente, o apelo sexual de sua musa.


Se inspirando muito mais na série animada de 1987, que já havia servido de espelho para o primeiro As Tartarugas Ninjas (1990), do que na obscura HQ de Kevin Eastman e Peter Laird, o remake é certeiro ao capturar a personalidade e o inusitado entrosamento envolvendo a relação do quarteto. Apostando no humor simples, mas preciso, e nas referências a cultura pop, o roteiro não se distancia do bom e velho feijão com arroz. Ou melhor, de uma boa e velha pizza de muçarela. Na trama, após uma tragédia em sua infância, a repórter April O'Neal (Megan Fox) busca maior espaço no noticiário local. Utilizada apenas em pautas menos importantes, a maioria delas ligadas a sua beleza, O'Neal é incansável na tentativa de conseguir um furo de reportagem. Investigando o crescimento da criminalidade, a repórter acaba presenciando um roubo frustrado pela ação de um grupo de justiceiros. Disposta a encontrar o paradeiro deles e ganhar a tão sonhada manchete, O'Neal fica surpresa ao descobrir que os vigilantes são tartarugas, mutantes, ninjas e adolescentes. Contando com a liderança de Leonardo, a rebeldia de Raphael, a inteligência de Donatello e a astúcia de Michelangelo, O'Neal entra na mira do temido Destruidor e da organização criminosa Clã do Pé, que vem espalhando o terror por Nova Iorque.


Enquanto a trama se mostra rasa, marcada por atuações medianas e pelo rumo previsível, o visual deste remake chama a atenção. Utilizando a técnica de captura de movimentos com categoria, todo o carisma e a expressividade das tartarugas são bem construídos digitalmente, funcionando não só nas frenéticas lutas, mas também na inusitada relação deles. Caprichando na força bruta do quarteto, bem equilibrada com o lado afetuoso, o destaque fica pelo cuidado ao diferencia-los. Cada um tem as suas próprias características, detalhes particulares, que vão bem além das cores de suas máscaras. Um belo exemplo de como se atualizar os personagens, sem deixar de lado os seus marcantes traços originais. Ainda melhor que as tartarugas, o Mestre Splinter e o Destruidor estão impressionantes na nova versão. A armadura do Destruidor, aliás, é um dos pontos altos do longa. Para quem se acostumou a vê-los com suas fantasias na década de 1990, o apuro estético em torno do visual dos protagonistas só ressalta o tamanho da evolução tecnológica no cinema, elevando consideravelmente o patamar desta aventura.


Na verdade, o que era o ponto mais questionado pelos fãs ao longo da pré-produção, se tornou o grande destaque desta nova versão. Pra ser bem sincero, após um inicio pouco atrativo, a simples presença do quarteto já dá um ritmo todo especial ao longa. Como se não bastasse isso, as cenas de ação são bem elaboradas, explorando com destreza não só o modo de agir do grupo, como também o eficiente 3-D. Apesar da fotografia escura prevalecer, afinal de contas as tartarugas vivem no esgoto e agem quase sempre a noite, o interessante trabalho do brasileiro Lula Carvalho (Cidade de Deus) permite que os embates sejam nítidos e, consequentemente, empolgantes. Entregando com habilidade aquilo que o público quer ver.


Apesar da nítida intenção em atrair uma nova gama de seguidores, e consequentemente conquistar novos mercados, As Tartarugas Ninja acerta ao não esquecer também dos fãs mais nostálgicos. Ainda que, sinceramente, eu esperasse algo mais ousado e preciso, é inegável a capacidade desta nova versão em nos apresentar um entretenimento leve e descompromissado. Ao beber da fonte do diretor Michael Bay, em doses homeopáticas é verdade, Jonathan Liebesman tem aqui o trabalho mais interessante de sua oscilante carreira. Um longa enxuto (fica a dica Bay), de ritmo fácil (quase didático), que se mostra ideal para as novas gerações.

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