sexta-feira, 23 de maio de 2014

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Como corrigir as falhas esquecidas em 2 h e 10 min

Pioneira nesta invasão dos heróis Marvel no cinema, a franquia X-Men volta de vez aos trilhos com Dias de um Futuro Esquecido. Após o sucesso de público e crítica de X-Men: Primeira Classe (2011), reboot dirigido por Mathew Vaughn que abriu um novo caminho para o futuro dos mutantes, Bryan Singer reassume a direção com a missão de corrigir as falhas do trabalho que optou não dirigir, o precipitado X-Men: O Confronto Final (2006). Ciente que o rumo da saga ganhou novas perspectivas para a FOX, principalmente em virtude do estrondoso sucesso do universo Os Vingadores, Singer volta ao passado para conseguir unir duas gerações de mutantes. Para isso, nada melhor do que adaptar uma dos arcos mais importantes dentro do universo X-Men.

Baseado em Dias de um Futuro Esquecido, este novo capítulo da franquia X-Men começa se destacando pela forma orgânica encontrada para narrar duas tramas em tempos distintos. Conseguindo respeitar o clima da célebre história assinada por Chris Claremont e John Byrne, o roteirista Simon Kinberg nos apresenta uma obra extremamente sóbria e consistente. Mesmo com as grandes mudanças em relação às HQ's de 1981, as alterações apresentadas se mostram extremamente funcionais, permitindo que a essência da publicação fosse mantida. Lidando com uma temática envolvendo o extermínio dos X-Men, o longa se inicia em um futuro apocalíptico. Em meio aos ataques dos poderosos Sentinelas, robôs criados para perseguir e matar todos com a genética mutante, Professor Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Ian McKellen), Tempestade (Hale Berry) e Wolverine (Hugh Jackman) se unem a um pequeno grupo de resistência para tentar dar fim a aniquilação de sua espécie. Contando com o poder telepático de Kitty Pryde (Ellen Page) e a capacidade de se recuperar de Wolverine, Charles Xavier encontra uma última alternativa para conseguir reverter este cenário.: mandar a mente de Wolverine para o seu corpo, na década de 1970, na tentativa de evitar um estopim que dará início a todo o desenvolvimento dos sentinelas. Wolverine acaba aceitando a missão, mesmo sabendo que terá de convencer os jovens e já inimigos Erik (Michael Fassbender) e Charles (James McAvoy), o inseguro Hank (Nicolas Hoult) e a solitária Raven (Jeniffer Lawrence) a trabalharem juntos.


Com base nesta premissa, Dias de um Futuro esquecido consegue solucionar muitos dos problemas envolvendo a trilogia original. Explorando as questões da viagem no tempo, e consequentemente a mudança no futuro de alguns personagens, Singer mostra eficiência ao unir passado e presente em um mesmo argumento. Sem deixar que um personagem se sobressaia ao outro, um dos grandes acertos dos dois primeiros X-Men, o longa impressiona pela forma como consegue fazer todos os principais mutantes darem a sua contribuição para o desenrolar da história. Ainda que a trama realmente se prenda aos fatos do passado, Singer não deixa de lado os clássicos Magneto, Xavier e Tempestade, trabalhando muito bem com as noções de simultaneidade. O grande e contrastante clímax, aliás, é um dos maiores exemplos deste respeito aos X-Men originais. No entanto, o maior problema do roteiro, e do filme como um todo, fica justamente por essa tentativa de corrigir todas as decisões erradas de "O Confronto Final". Por mais que a utilização das viagens no tempo permita isso, e que Singer trabalhe essa temática da forma mais natural possível, o fato é que o rumo dado a alguns mutantes levanta mais dúvidas do que respostas. Brechas que acabam renegando - excessivamente - a cronologia da trilogia clássica.
 

Demonstrando a mesma perspicácia apresentada no "Primeira Classe", o roteiro entrelaça de forma precisa fatos históricos com todos os acontecimentos envolvendo a ação dos mutantes. Enquanto o longa de 2011 foi desenvolvido em meio ao período da Guerra Fria, esta continuação se passa durante a Guerra do Vietnã. Assim como no reboot, o clima de tensão entre governos e o medo de uma nova ameaça funciona, com destaque para a entrada do personagem Bolivar Trask. Interpretado pelo competente Peter Dinklage (Game of Thrones), Trask ganha uma importância significativa para a trama, sendo um símbolo deste diálogo com a realidade envolvendo a politica armamentista norte-americana e o consequente trauma imposto pela guerra do Vietnã. Um contextualizado pano de fundo que acaba dando uma seriedade maior a trama, repetindo em partes o tom grandioso presente no último lançamento.


Explorando o interessante trabalho da equipe de direção de arte, com direito a algumas cenas no estilo Trapaça (2014), Singer desenvolve muito bem as consequências dos episódios do primeiro longa nas vidas dos jovens Xavier, Erik e Raven. Contando com as ótimas atuações de Jeniffer Lawrence, James McAvoy e Michael Fassbender, o diretor opta por focar mais no lado humano desta relação, aproveitando o invejável talento do trio de protagonistas. Lawrence, no entanto, mostra também um louvável e surpreendente desempenho nas cenas de ação, remetendo diretamente a Mística original. Por falar em surpresas, Hugh Jackman é mais um dos heróis que tem um desempenho cerebral. Ainda que ele tenha uma grande participação neste longa, incluindo algumas boas cenas de ação, o Wolverine fica com a - improvável - missão de unir dois inimigos, fato que poderia ser até melhor explorado por Singer. O humor como um todo, aliás, é deixado para segundo plano, se resumindo ao divertido encontro de Wolverine com o Fera e a presença do afetado Mercúrio (Evan Peters).


Este novo personagem, inclusive, se torna um elemento muito bem explorado pela equipe de efeitos visuais. Trabalhando com o recurso da super-câmera lenta, Singer utiliza a velocidade de Mercúrio com habilidade, rendendo divertidos momentos. Ainda que poucas cenas apresentem algo realmente inovador, com exceção da fluída e empolgante batalha inicial, os embates são bem resolvidos e mantem a qualidade dos efeitos visuais de toda a franquia. Com destaque para a concepção dos Sentinelas, que poderiam ser melhor utilizados pelo roteiro, e para a exploração dos poderes mutantes do Homem de Gelo (Shwan Ashmore), da Blink (Bingbing Fan), do Colossus (Daniel Cudmore), da Tempestade, e claro, do Magneto. O grande clímax envolvendo o jovem Erik, aliás, é merecedor dos melhores elogios. Uma pena que o 3-D seja extremamente descartável e não acompanhe o competente padrão estético do longaual apresentada.


Com Bryan Singer de volta ao comando, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é o trabalho que a franquia estava precisando para voltar a se consolidar nos cinemas. Ainda que a Fox não demonstre a mesma capacidade da Marvel ao ampliar o universo de seus personagens, o longa é um acerto de contas com os fãs mais exigentes após o claudicante X-Men: O Confronto Final. Muito mais do que um novo rumo, Singer consegue imprimir o seu estilo nesta continuação, reunindo o melhor que o passado e o presente dos mutantes poderia oferecer aos espectadores. Uma volta em grande estilo a franquia, que acabou ficando de lado em 2006 quando o diretor preferiu realizar o sonho de rodar Superman: O Retorno.

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